Warm Up #56 - Jair Bolsonaro trucidou o JN

José Castro e Ivan Sant'Anna Publicado em 30/08/2018
7 min
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Caro leitor,

Talvez por serem escravos do teleprompter e das pautas, talvez por não estarem acostumados a ser confrontados pelos entrevistados, o certo é que o linchamento que William Bonner e Renata Vasconcellos quiseram fazer de Jair Bolsonaro deu errado para os apresentadores. O feitiço virou contra o feiticeiro.

Bonner e Renata, ou seja lá quem decide quais são as perguntas, levaram uma surra de rabo de tatu do candidato.

Ao ser indagado por William Bonner por que se diz novo na política, mesmo após exercer diversos mandatos parlamentares, Bolsonaro respondeu que jamais exerceu cargos públicos, assim como nunca recebeu dinheiro da Odebrecht ou da JBS. Saiu pela tangente. Mas saiu bem.

Tentando pressionar o candidato contra as cordas, Renata perguntou por que ele ocupa um apartamento funcional em Brasília, mesmo possuindo um imóvel próprio na capital federal.

Foi ingenuidade dela ou de quem formulou a pergunta. Em uma época em que políticos roubaram centenas de milhões dos cofres públicos, e em que os juízes Sérgio Moro e Marcelo Bretas recebem auxílio-moradia (Bretas, em dobro), mesmo possuindo imóveis próprios em suas cidades de residência, acusar Bolsonaro de morar em apartamento do governo soa como um pecadilho desimportante. 

Fica parecendo que não tinham uma acusação mais séria para fazer.

Bonner perguntou a Jair Bolsonaro como ele pode garantir que Paulo Guedes ficará até o fim de seu governo.

“Isso é como um casamento”, respondeu Bolsonaro. “A gente se propõe a ficar com o outro pelo resto da vida. Mas às vezes não dá certo.”

Como William Bonner recentemente se separou de Fátima Bernardes, após uma união duradoura, um silêncio tomou conta do estúdio por dois segundos, até que o apresentador travestido de inquisidor se recuperou do baque e passou para o próximo tema.

Tal como tinha acontecido no Roda Viva e na Globo News, Renata Vasconcellos caiu na armadilha da desigualdade de gêneros, se referindo aos salários menores das mulheres ocupando cargos iguais aos dos homens.

“Suponho que a senhora ganhe a mesma coisa que o William Bonner”, provocou o capitão.

Renata podia ter respondido que Bonner era editor-chefe e ela, editora-executiva, mas, àquela altura, quem estava nas cordas era a entrevistadora. 

Tentando se recuperar, William Bonner perguntou a Jair Bolsonaro por que ele defendia menos direitos trabalhistas para os trabalhadores.

A resposta foi um primor de raciocínio liberal:

“Um dia empregadores e empregados terão de decidir: menos direitos e mais empregos ou mais empregos e menos direitos. O salário hoje é pouco para quem recebe e muito para quem paga.” E mais não disse.

Cumprindo sua pauta aziaga, Renata perguntou ao candidato por que ele votara contra os direitos das domésticas.

“Votei, não”, apressou-se em esclarecer o capitão. “Fui o único deputado que votou. Tanto no primeiro quanto no segundo turno da votação. Os novos direitos estão impedindo que as empregadas durmam no emprego e transformando boa parte delas em diaristas, sem direito algum.”

Renata então indagou Bolsonaro sobre homofobia. Foi um erro. Como todo mundo pergunta isso, o capitão é catedrático no assunto. Exibiu e tentou passar para William Bonner uma cartilha sobre o tema, que ele chama de Kit Gay, que teria sido distribuída em algumas escolas.

Bonner recusou-se a receber o folheto, se esquecendo de que, na véspera, acabara aceitando um livreto com o programa de governo do candidato Ciro Gomes.

Passando rapidamente para o próximo tema, William Bonner perguntou a Bolsonaro se ele queria mais violência nas favelas no combate ao crime.

Eu, Ivan, e talvez você, caro amigo leitor, podemos até não concordar com a resposta. Mas a imensa maioria dos brasileiros (maioria essa que elege o presidente) gosta.

“Mais violência, sim”, respondeu Jair Bolsonaro. “Armamento maior para a polícia. Policial que matar 10, 20, 30 bandidos tem de ser condecorado.” E deu o exemplo do Haiti, onde as tropas de pacificação tinham o comando de um general brasileiro e eram compostas de diversos soldados do nosso Exército.

“Lá, eles (os soldados) atiravam primeiro e perguntavam depois, quando o outro lado estava armado. O que não pode acontecer são esses bondes (arrastões de bandidos) que atacam na Praça Seca (em Jacarepaguá).”

Como na última sexta-feira, vindo de carro de Madureira para a Barra, testemunhei um desses bondes, justamente na Praça Seca, atacando um BRT (sistema de transporte público), não tive como não gostar da resposta.

Uma vez que, na véspera, a entrevista de Ciro Gomes demorara 27 minutos, e que esse tempo passara a ser o dos demais candidatos, Jair Bolsonaro aproveitou-se do fim da cronometragem para lembrar um editorial escrito por Roberto Marinho, então dono e presidente das Organizações Globo, nos últimos dias do regime militar:

“Participamos da Revolução Democrática de 1964.”

William Bonner ainda balbuciou um início de frase: “Nós fizemos um editorial...”, mas o tempo acabou.

Assim terminou o massacre.


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Um abraço, 

Ivan Sant'Anna

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