Warm Up #308 - Carta para um day trader

Ivan Sant'Anna Publicado em 07/07/2020
3 min
Ganhar dinheiro com operações diárias é igual a apostar dentro de um cassino: se todas probabilidades estão contra você, melhor tomar cuidado.

Caro leitor,

Outro dia um assinante me escreveu, se dizendo day trader. Pediu conselhos sobre a melhor maneira de operar no mercado, saindo zerado ao final de cada dia.

Esta crônica é minha resposta não só para ele como para todos os novatos que já querem partir logo para o day trading.

Infelizmente, vou decepcioná-los. As chances de ganharem dinheiro desse modo, são, grosso modo (com o perdão pela redundância), menores do que cinco por cento.

Ao deitreidar (hoje, enriqueço o Aurélio e o Houaiss), pode até parecer que estão se digladiando com números na tela de seu laptop, tablet ou smartphone.

Puro engano.

Na verdade, na outra ponta do terminal, quem sabe a centenas ou milhares de quilômetros de distância, seus adversários são o BTG Pactual, o Itaú BBA, o Bradesco, o Santander, os gestores de grandes fortunas, assistidos por suas equipes de grafistas, fundamentalistas, insiders do que está acontecendo em Brasília, Wall Street e Xangai.

Estou falando de gente que acorda, dorme, e sonha com o mercado, profissionais que não desligam seus celulares nem durante o velório da mãe. Já testemunhei um episódio como esse no cemitério São João Batista.

Entre 1967 e 1971, tive uma experiência espetacular como day trader. Competia com nítida vantagem sobre os demais especuladores e investidores. Grandes coisas... Era operador de pregão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, à época a mais importante do Brasil.

Os BTGs e os BBAs daqueles tempos gozosos compravam e vendiam na minha frente. Naquele mundo fechado do recinto de negociações, eu, literalmente, via o mercado subindo e caindo. Via nos olhos deles, nas mãos deles, no suor do rosto de cada um.

Operar na Bolsa era como furtar a latinha de esmolas de um cego (ops, de um deficiente visual).

Mais tarde, entre 1983 e 1995, fui day trader e overnight trader (que carrega posição de um dia para o outro) nos mercados de Nova York e Chicago.

Acontece que dividia meu tempo entre spec (especulação) e brokerage. Nesta segunda função, ganhava sempre, é claro, pois recebia rebates.

Somados os ganhos e subtraídas as perdas, chovesse ou fizesse sol, saía no lucro. Minha impressão é que, fora alguns revezes brabos, no frigir dos ovos ganhava como spec também. Afinal de contas, já tinha um quarto de século de experiência.

Com 80 anos de idade, e 62 de mercado, fecho os olhos e vejo você, caro assinante que deseja ficar rico deitreidando por intermédio de seu dispositivo, qualquer que seja ele.

Isso me lembra, com todo o respeito, aquelas velhinhas acomodadas em bancos superconfortáveis, cada uma delas em frente a uma slot machine (máquina caça-níqueis) num cassino de Las Vegas.

Basta inserir uma moeda (um quarto de dólar, por exemplo) e apertar um botão. As rodas da máquina, todas com várias figurinhas e/ou números impressos, começam a girar. Até que param de repente.

A vitória vem com quatro 7s alinhados, ou cinco fatias de melancia, etc. Quem já esteve num cassino, sabe do que estou falando.

Isso se chama jackpot.

Tanto que existe uma expressão em inglês, to hit the jackpot, que, numa tradução livre, significa “dar uma porrada”.

Pois bem, quando um dos apostadores acerta um jackpot, a máquina vomita uma quantidade de moedas tão grande que nem cabe na bandeja abaixo da bocarra. Os quarters se esparramam pelo tapete. Garotas vestindo shortinhos acodem para ajudar o felizardo a pôr tudo numa sacola. 

Como se não bastasse, a slot machine faz um escarcéu. Acende luzes das mais variadas cores. Soa uma sirene de alarme.

A impressão que dá, no enorme salão dos caça-níqueis, é que se trata de uma moleza ganhar uma “fortuna” (lembrando que 200 dólares, por exemplo, são 800 quarters).

Vou dar um conselho a você, iniciante no mercado. Se o seu capital é pequeno, compre ações à vista. Opte por uma dessas empresas exportadoras que estão lucrando com o dólar acima de cinco reais.

Quanto às especulações deitreidianas, faça-as de mentirinha. Olhe as cotações, finja que operou e anote as compras, vendas, lucros e prejuízos.

Ao final de um ano, se estiver ganhando uma nota preta (não vale mentir para si mesmo), aí, sim, é sinal de que você é um craque.

Caso contrário, ponha seu dinheiro num fundo de renda variável. Dos bons, é óbvio. Um daqueles que você enfrentava na máquina, em combate singular e desigual, quando me escreveu.

Um grande abraço,

Ivan Sant'Anna

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