Warm Up #299 - 2020: O ano do Brexit

Ivan Sant'Anna Publicado em 31/12/2019
7 min
Enquanto Johnson terá que negociar os termos do Brexit, possibilidade de a Escócia se separar do Reino Unido criaria uma mixórdia que diminuiria em muito a importância da libra.

Caro leitor,

Até 31 de janeiro de 2020, a Grã-Bretanha terá consumado o Brexit. E com certeza para sempre, tal como aconteceu com a libra esterlina, que não foi extinta e substituída pelo euro, ao contrário do marco alemão, do franco francês, da lira italiana, da peseta espanhola, do escudo português e de outras moedas da Comunidade Europeia (CE).

No final do primeiro trimestre de 2016, o primeiro-ministro David Cameron, querendo aumentar sua força política, convocou um referendo para ver se os eleitores da Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte queriam permanecer na CE.

Para decepção de Cameron, que julgava que o Brexit seria facilmente derrotado, deu zebra: 51,9% aprovaram a saída da Grã-Bretanha da Comunidade, contra 48,1% que preferiam manter o status quo.

Como a diferença foi pequena, iniciou-se uma crise, tal como sempre acontece quando o resultado de uma eleição é apertado. Os contrariados com a derrota alegaram que os eleitores favoráveis ao Brexit eram jovens e que, como o voto lá é facultativo, não compareceram às urnas, por pura preguiça e desleixo.

Só que democracia é democracia e a vontade do povo tem de ser respeitada.

Tão logo soube do resultado, David Cameron renunciou ao cargo de primeiro-ministro, assumindo em seu lugar a nova líder dos tories, Theresa May.

Tudo que ela tentou fazer deu errado. Não conseguiu se entender com a liderança da Comunidade e perdeu quase todas as propostas que submeteu à Casa dos Comuns. Tal como Cameron, Theresa acabou renunciando e cedendo lugar ao extravagante Boris Johnson, xenófobo, nacionalista e aliado de Donald Trump.

Johnson imediatamente convocou eleições gerais. O resultado não deixou dúvida. Os conservadores obtiveram 365 cadeiras, ou seja 56,2% do total. Não precisam, portanto, fazer coalizão com ninguém para governar. A vitória foi de balaiada, landslide como se diz em inglês.

De 31 de janeiro até o final do ano, Johnson terá de negociar com o Parlamento Europeu uma saída que seja boa (ou pelo menos aceitável) para os dois lados. As alíquotas das tarifas aduaneiras terão de ser discutidas, assim como discutida a situação dos nacionais da CE que moram e trabalham na Grã-Bretanha e dos britânicos que moram e trabalham no continente.

Acho que uma minuta de acordo já está alinhavada e que tudo dará certo. Suponho que as tarifas serão pequenas e que os (agora imigrantes) europeus poderão continuar no Reino Unido e os britânicos na Europa.

O grande risco é o parlamento escocês convocar um plebiscito de independência e se separar da Inglaterra. Nesse caso, a situação das duas ilhas, Grã-Bretanha e Irlanda, se tornará uma mixórdia.

Imaginemos a Escócia independente, conseguindo se manter na Comunidade Europeia. Teremos a seguinte situação:

Na ilha maior, a leste, haverá Brexit ao sul e CE (Escócia) ao norte. Na menor, a oeste, Brexit no norte e Comunidade (como já é a República da Irlanda) ao sul.

Fronteiras e postos aduaneiros terão de ser construídos. Mesmo assim, nas duas ilhas (Irlanda e Grã-Bretanha) o contrabando vai imperar solto. Nessa hipótese, o Brexit será um fracasso.

O Império Britânico, aquele no qual o sol nunca se punha, vai se tornar quase um principado.

A libra esterlina, que já foi a moeda dominante no mundo, se tornará menos importante, muito menos importante.

Tudo isso dependerá da vontade dos escoceses. Fora a hipótese, improvável, mas não impossível, de as duas Irlandas esquecerem suas desavenças religiosas (que já diminuíram muito nos últimos anos) e se unirem sob uma só bandeira e um sistema republicano, pertencente à Comunidade Europeia.

Um desfecho melancólico para o reinado de quase 70 anos de Elizabeth II.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

PS.: Caro(a) leitor(a), acabamos de liberar o primeiro episódio da série original A Nova Ordem Cripto. Entenda o fenômeno capaz de oferecer retornos de até 30.000% em apenas 5 meses, que está varrendo o mundo das criptomoedas aqui. 

A Inversa é uma Casa de Análise regulada pela CVM e credenciada pela APIMEC. Produzimos e publicamos conteúdo direcionado à análise de valores mobiliários, finanças e economia.
 
Adotamos regras, diretrizes e procedimentos estabelecidos pela Comissão de Valores Mobiliários em sua Resolução nº 20/2021 e Políticas Internas implantadas para assegurar a qualidade do que entregamos.
 
Nossos analistas realizam suas atividades com independência, comprometidos com a busca por informações idôneas e fidedignas, e cada relatório reflete exclusivamente a opinião pessoal do signatário.
 
O conteúdo produzido pela Inversa não oferece garantia de resultado futuro ou isenção de risco.
 
O material que produzimos é protegido pela Lei de Direitos Autorais para uso exclusivo de seu destinatário. Vedada sua reprodução ou distribuição, no todo ou em parte, sem prévia e expressa autorização da Inversa.
 
Analista de Valores Mobiliários responsável (Resolução CVM n.º 20/2021): Antonyo Giannini, CNPI EM-2476

Conteúdo protegido contra cópia