Warm Up #298 - Manipulação

Ivan Sant'Anna Publicado em 30/12/2019
5 min
Gestores de fundos múltiplos ou de ações compram lotes grandes dos papéis que mantêm em carteira e isso provoca alta artificial da Bolsa.

Não sei se o caro amigo leitor reparou, mas, na maior parte dos últimos dias úteis deste ano, o Ibovespa, ao longo das sessões, trabalhou estável, em ligeira alta ou ligeira baixa. Mas sempre ao chegar nos momentos finais do pregão da B3 havia uma correria de compras que levava o gráfico intradia do mercado a apresentar um espigão para cima.

Desse tipo de comportamento, eu manjo há muitos anos. Os gestores de fundos múltiplos ou de ações compram lotes grandes dos papéis que mantêm em carteira e isso provoca a alta artificial da Bolsa.

Com esse procedimento, a cota, gregorianamente falando (de 1º de janeiro a 31 de dezembro), tem uma valorização fermentada meio que na marra.

No ano seguinte, na hora de vender seu produto, o gerente de banco, corretor, agente autônomo ou similar exibem a performance no ano que passou. Só que esse comportamento não reflete a realidade, uma vez que o mercado foi descaradamente puxado no undécimo minuto, quase ao soar da campainha.

Não que eu ache que a Bolsa iria cair, mas aquele sprint final é falso.

Isso não é uma característica brasileira. Nos Estados Unidos, por exemplo, quase todo fundo faz tal manobra. Dá um trato especial de fim de ano aos seus papéis para inflar os preços e elevar os valores das cotas, o que altera as performances da multibilionária indústria de fundos.

O problema é que as cotas dos fundos iniciam o ano que se segue com uma cotação artificial. E não raro as bolsas caem nos primeiros dias de janeiro por causa disso (coisa que, por sinal, não aconteceu em 2019, tal o entusiasmo do mercado com a posse de Jair Bolsonaro).

Não sei se isso ainda é permitido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mas antigamente muitas ações incluídas nas carteiras dos fundos de renda variável eram negociadas apenas no mercado de balcão (over-the-counter market), fora das bolsas.

Essas cotações apareciam nos jornais, e eram usadas pelo administrador do portfolio para calcular sua cota. Os próprios fundos se incumbiam de informar os preços.

Resultado: era tudo falso. Já vi ações da Usiminas que valiam 3 cruzeiros aparecerem a 15 cruzeiros na carteira de um fundo, distorcendo toda a cota.

Mas o que interessava aos gestores era fechar o ano bem.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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