Warm Up #296 - Espírito de Natal

Ivan Sant'Anna Publicado em 25/12/2019
2 min
"Todo final de tarde Josué, menino franzino de pernas longas, sempre usando boné vermelho ao contrário, vendia balas num semáforo do Leblon. Visto de longe, parecia desembaraçado e alegre, indo e vindo, sempre elétrico, pela fila de carros..."

 

Espírito de Natal

As pessoas que me conhecem sabem que não tenho religião. Por isso o Natal não é uma data importante para mim. Aliás, o réveillon, o Carnaval e a Páscoa também não me sensibilizam.

Na verdade, não gosto de felicidade com dia e hora marcados. Exemplo disso é que meus dois melhores momentos em 2019 foram:

- um encontro, em fevereiro, num restaurante mexicano daqui da Barra da Tijuca, com dois amigos, Ricardo Trajano (o único dos 117 passageiros que sobreviveu ao desastre de Orly, em 1973) e Felippe Mendonça, colega de mercado, além de minha mulher, Ciça.

- uma viagem, de fim de semana, que fiz em maio a um sítio de Santa Rosa de Viterbo, no interior de São Paulo. Tão divertido foi o papo com a família anfitriã que cheguei a emendar o dia com a noite. Emendei também, porque ninguém é de ferro, uma garrafa de Jack Daniel’s com a outra.

Nos últimos dois anos, passei a noite de Natal dormindo. Ciça tinha ido para a Europa para estar com filhos e netos. Comi um miojo al sugo e caí na cama antes da meia-noite.

Pois bem, e não é que a Inversa me pediu para escrever uma crônica de Natal? Como não sou de fugir de desafios, o texto segue abaixo:

 

Todo final de tarde Josué, menino franzino de pernas longas, sempre usando boné vermelho ao contrário, vendia balas num semáforo do Leblon. Visto de longe, parecia desembaraçado e alegre, indo e vindo, sempre elétrico, pela fila de carros. De perto, seu olhar perdido revelava algum desencanto, não com seu negócio, que era muito bom, mas talvez com a vida em geral.

Seguindo engenhosa estratégia de marketing, conhecida de todos no Rio de Janeiro, Josué oferecia a mercadoria dispondo os saquinhos com as balas nos retrovisores laterais dos carros. A cada ciclo do semáforo, eram necessárias duas corridas: uma, para deixar a mercadoria; outra, para recolhê-la de volta, ou receber o dinheiro, caso o motorista tivesse se apoderado das balas, cujo preço, dois reais, constava do saco.

Com as festas de Natal, as vendas haviam melhorado. Mais por causa do espírito dos motoristas do que do volume de tráfego, pois, fosse este qual fosse, Josué só conseguia trabalhar oito carros entre dois sinais verdes.

Embora a decoração noturna naquele ponto da cidade estivesse linda, Josué não a notara. Não sem razão. Em seus 16 anos de vida, jamais tivera um motivo para se interessar pelo Natal. Nunca recebera um presente. Muito menos participara de ceias comemorativas. Natal era coisa de rico, de bacana.

Ao volante de seu velho Fiat Uno Mille, Maurício, trajando Papai Noel dos pés à cabeça, aguardava, suarento e impaciente, o andar da fila. Depois de passar o dia num shopping da Zona Sul, se deixando fotografar ao lado de crianças, ele ia encerrar o expediente distribuindo os presentes na festa infantil de um condomínio da Barra.

Maurício não se interessou pelas balas que o garoto pôs no retrovisor. Josué não notou que o motorista do oitavo carro vestia Papai Noel.

A fila já voltava a se mover, quando Josué, ofegante, chegou pela segunda vez ao Fiat. Só então percebeu Papai Noel. Estendeu a mão para recolher os saquinhos de bala. Hesitou.

“Pode pegar. É de graça. Presente de Natal”, disse finalmente o garoto, sorrindo timidamente e sentindo uma pontadinha de felicidade.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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