Tônica da Semana: Elogio da loucura

Willian Castro Alves Publicado em 25/03/2019
6 min
O mercado é o ambiente mais insano que você pode imaginar. Veja os comentários do William na tônica desta semana

Nota do editor: Depois começar a semana passada comemorando os 100 mil pontos, vimos o mercado estremecer nos últimos dias úteis. Veja na tônica desta semana os comentários do William sobre as loucuras que rondam as reações do mercado. Não deixe de enviar seus comentários para contato@inversapub.com.

O William é estrategista-chefe da Avenue Securities e possui 15 anos de experiência no mercado financeiro. 

 

Ouso aqui começar e intitular minha tônica com essa obra extraordinária de Erasmo de Roterdam, “O elogio da loucura”. Não lembro exatamente quando o li, faz alguns anos, mas sei que é um clássico no sentido completo da expressão. Ou seja, antigo sim, mas também genial e ainda hoje verdadeiro e atual.

O livro foi publicado em 1511, pouco depois do Brasil ser descoberto, uma obra humanista e renascentista que narra e descreve a loucura como uma “deusa” a qual se elogia a si mesma e que justifica e traz conforto ao homem em todos os seus maus atos. Em outras palavras, a volúpia, a luxuria, o fanatismo, etc., todos seriam justificados pela loucura.

Não sou crítico literário, mas quando digo que o livro é extremamente atual é porque a crítica feita à sociedade daquela época, ainda parece válida e as ideias postuladas lá me parecem, ainda hoje, expressar muito bem as loucuras que vemos dia a dia.

Então chegamos no mercado…

O ambiente mais louco e insano que você pode imaginar. Onde decisões que custam bastante dinheiro são tomadas muitas vezes em segundos ou, ainda, automaticamente por robôs. Onde pessoas com os mais diversos objetivos, experiências, sentimentos, conhecimentos, capacidade financeira, etc., chegam para traduzir suas loucuras em uma ordem de compra ou venda.

Tivemos uma semana de certa paúra no mercado brasileiro. Penso que o principal motivo foi o fato das “autoridades” do governo não estarem se entendendo a respeito da reforma da Previdência.

Ora, mas semana passada postei a foto de um churrasco e do suposto “pacto da governabilidade” com Rodrigo Maia e Bolsonaro…

Então, o que houve? Bom no meio da semana prenderam o sogro de Rodrigo Maia, Moreira Franco. Será que isso o deixou meio “pistola”?

Maia é um político de carteirinha, nasceu na política e está preso a ela. Talvez por isso ele tenha um bom trânsito e relacionamento com diversas camadas da esfera de governo brasileiro, tal qual nessa foto com seu “brother” Dias Toffoli.

Bom, chegamos em março de 2019 e ele é o atual presidente da Câmara dos Deputados. O cara que tem que negociar com os deputados para que o país aprove reformas e ande. Definitivamente, um cara que tem algum poder e que sabe usar isso. Ora, mas quem foi eleito com milhões de voto pelo povo? O presidente ou Maia?

Me parece que há um grande jogo de poder nisso tudo…que gera um ruído nada positivo para Bolsa e um prato cheio para os jornalistas:

E o mercado, que é tomado de loucos, adora isso! Do livro:

“A pior das loucuras é, sem dúvida, tentar ser sensato num mundo de loucos”

O mercado e a Loucura

Não bastasse a loucura de TODOS os agentes, temos o efeito natural de paúra motivado em parte pelos traders no mercado. Eles exacerbam os movimentos. Comentei mais aqui nesse post

O descompasso… 

Deixando a política de lado, na Tônica da semana passada estávamos celebrando os 100 mil pontos, mas eu chamei atenção ao descompasso que me parece existir:

Mas o resumo aqui é: me parece haver um certo descompasso entre o mundo real da economia e o dos mercados … me preocupa pensar que “o chão da terra pode tremer” a qualquer momento.

Já tinha chamado atenção para esse descompasso há mais de 1 mês no post A odisseia dos 100 mil pontos quando comentei de EUA, China, Europa e Brasil.

E o que tivemos recentemente? No Brasil, dados de atividade que desapontaram como o IBC-Br e sugerem um crescimento de PIB que corre sérios riscos de ficar abaixo dos 2%.

Junto a isso, o PMI alemão assustou o mundo vindo bem abaixo do esperado e apontando para um mergulho nada saudável na atividade da turbina europeia:

Isso obviamente se refletiu no aumento do VIX (indicador de volatilidade):

E então chegamos ao indicador que espelhou uma grande luz amarela pelo mundo…
 
A inversão da curva de juros americana (inverted yield curve)

Traduzindo: os juros de longo prazo (10 anos) estão menores que os de curto prazo (3 meses). Os prazos podem variar, juro de 2 anos, juro de 1 ano, etc.

Qual a racionalidade disso?

Numa economia normal os agentes econômicos exigem um juro mais elevado para empréstimos ou títulos de longo prazo pelo risco embutido nesse período. No entanto, quando os agentes temem uma recessão ou forte desaceleração da economia, eles compram títulos de longo prazo, pois entendem que as taxas de juros irão cair no futuro devido à desaceleração. Ao fazerem isso eles puxam para cima os preços dos títulos de longo prazo e consequentemente, diminuem a sua rentabilidade (yield). É essencialmente uma questão de adaptação de expectativas e de receio com o que pode vir pela frente.

O problema é que este é um indicador que tem sido um “bom” preditor de recessões nos EUA. O gráfico abaixo compara essa curva que inverteu (furou abaixo do 0%) com as realizações do mercado americano (linha verde) e com períodos de recessão da economia (área cinza):

Pra acabar…

Como sempre digo, não somos uma ilha e esse sentimento de aversão global achou aqui um ecossistema para se expandir com os desentendimentos políticos recentes.

Segunda-feira passada comemorávamos os 100 mil pontos. O FED tinha dado um sinal de não elevação de juros, o dólar arrefeceu, o que era bom para commodities e, consequentemente, emergentes, e Maia e Bolsonaro tinham tido um bom churrasco no fim de semana.

Em uma semana não só a curva de juros, mas o mundo, viram de cabeça para baixo e nossos investimentos despencam. Quem entende?!

A deusa loucura volta a imperar no mercado, afinal somos em essência menos razão e mais paixão?

Bem-vindos ao mercado!

Era isso.

Abraços,

William

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