Tônica da Semana: Uma viagem no tempo, nos juros e na alocação dos seus investimentos

Willian Castro Alves Publicado em 18/02/2019
10 min
O mercado atravessar uma odisseia rumo aos 100 mil pontos do Ibovespa, mas o que anda impedindo essa marca? O William comenta esses fatores e suas perspectivas

Nota do editor:Como a realidade de juro real baixo influencia a decisão de investimentos? O William Castro Alves comenta esse tema em mais uma Tônica da Semana que colocamos aqui para você. Não deixe de enviar seus comentários contato@inversapub.com.

 

Meu querido leitor,

Me perdoe fazer um adendo, fugir um pouco do tema comum semanal e olhar um pouco além. Ao fim do post escrevo o que penso acerca do momento e o que espero para essa semana em específico, mas, antes disso, convido-o nessa jornada. Prometo que valerá a pena!

Juros, custo de oportunidade e alocação de investimentos

Para começar, vamos fixar um conceito: o do juro real e nominal.

Juro nominal é o juro que conhecemos. A taxa básica, um exemplo, a tal Selic. Já o juro real é o resultado do juro nominal menos a inflação. A ideia é que a inflação corrói o seu poder de compra, então, o que interessa para QUALQUER investidor é o retorno real de QUALQUER aplicação.

Se você não é familiarizado com esse conceito, lembre-se que em 1994 quando o Plano Real foi inventado e fixado, um carro 0km (Gol 1000) custava cerca de R$ 7 mil a R$ 7,5 mil; hoje o carro mais barato 0km que encontrei é um Cherry de R$ 28 mil, mas o Gol custa R$ 43 mil! Grande parte disso se deve ao efeito da inflação.

Dito isso, SEMPRE, ao avaliar um investimento devemos buscar entender ou verificar qual o retorno REAL do investimento.

De nada adianta um investimento oferecer retorno de 10% enquanto a inflação está em 14%… O rendimento real é negativo. Algo muito parecido com a poupança em determinados períodos.

Entendido isso, avancemos…

Olhando para a história mais recente do Brasil (últimos 30 anos), eu a dividiria em 4 períodos:

  1. Zona (até julho de 1994). pra quem não lembra até 1994 o Brasil era ainda mais “zoneado” e nossa inflação e juros eram absurdos. Tão absurdos que fica até complexo ou discutível qualquer tipo de estudo/inferência daquele momento. Na verdade, foram ao menos 10 anos lutando com planos e mais planos furados. Mas os resultados prático eram semelhantes, ou seja, juros altos e inflação também exorbitante. O plano Real ajustou o problema da inflação, mas nossa macroeconomia seguia cheia de inconsistências.
     
  2. Âncora dos juros (1995-1999). Uma delas era a manutenção de uma taxa de juros bizarramente alta para segurar uma âncora cambial dos preços que nos dava uma falsa sensação de riqueza e controle dos preços. Chamo isso de um mal necessário que foi terminado em 1999. Essa âncora que foi chamada cambial, na verdade tinha nos juros sua principal ferramenta. Com isso, passamos alguns anos convivendo com juros reais que, na média, foram de mais de 23% ao ano!
     
  3. Comprando credibilidade (1999-2008). Então de 1999 até a crise de 2008 o Brasil já tinha se livrado da âncora cambial, contando com um câmbio flutuante e uma inflação controlada. Ainda assim, passamos alguns bons anos convivendo com um juro real ainda alto, por diversas vezes na casa dos 2 dígitos, como forma de “comprar” credibilidade internacional. Não só isso, a realidade internacional requeria um juro dessa magnitude. Nessa época, a taxa de juro americana variou bastante, mas, na média, foi de cerca de 3,5%. Dado que nosso histórico não ajudava, nosso juro real acabou se mantando na elevada média de 9,7% ao ano.
     
  4. Surfando o pós crise (2008 até hoje). Como resultado da crise de 2008 e os quantitave easings dos Bancos Centrais, as taxas de juros caíram fortemente no mundo. Nos EUA, essas ficaram em praticamente zero de meados de 2009 até o final de 2015!  No Brasil, mesmo com a resiliência das nossas inconsistências macroeconômicas, conseguimos “surfar” esse momento de juros mais baixos. Nosso juro real foi, na média, 4,2% ao ano.

O gráfico abaixo ajuda a ver isso.  (P.S.: não postei de 84 a 94 porque ia só poluir)

Tirando o período de “zona”…

Por que estou falando isso?

Pra mostrar que a realidade se alterou substancialmente nos últimos anos e que o retorno real “livre de risco” do investimento em renda fixa minguou. E mingou MUITO! 

Se você parar para pensar, foi uma redução por mais da metade! 23 –> 10% –> 4% ao ano.

Ficamos mal-acostumados em ter dinheiro rendendo sem ter que buscar saber qual ação investir, ou fundo aplicar, ou ainda buscar outras opções fora do país.

E daqui para frente, Will? 

Olhando para o mundo, seguimos vendo uma realidade de juros muito baixos. Nos EUA, a desaceleração anunciada para esse ano e 2020 apontam para um juro nominal em 2,5% e um juro real em praticamente zero! Os títulos alemães também remuneram a zero, japonês também, etc. Logo, a tônica do pós-crise persiste.

Então temos 2 opções:

(a) voltarmos a ser uma zona para o bem dos rentistas e órfãos do CDI;

(b) torcer para que as coisas se acertem e quem sabe conviver com uma média de juro real de 2% daqui para frente?

Acha exagerado?

Focus projeta Selic em 6,5% e Inflação em 3,87%. Ou seja: 2,63% de Juro Real para 2019! BINGO!

E isso sem falar no efeito esperado de uma reforma da Previdência + ajuste fiscal nos juros. Ambas acontecendo, os juros tenderiam a ceder ainda mais…

MINHA OPINIÃO

O CDI (lei-se “investimento em renda fixa”) foi uma mãe para os investidores no passado, mas essa realidade já mudou e deve continuar a mudar. Chegou a hora de dar tchau para essa mãe! E quando falo isso, me refiro aos investimentos em renda fixa em geral… LCI’s, CRI’s, CRA’s, Debêntures, Fundo DI, etc.

Veja um exemplo: Mesmo um investimento que pague seus 120% do CDI livre de IR. Estamos falando de 7,8% nominal e 3,93% real. Ruim? Dada a realidade, certamente não! Mas será que faz sentido ter 60%, 70%, 80% do nosso patrimônio alocado nesse tipo de investimento? Penso que não, mas isso obviamente passa pela definição de seus objetivos quando investe.

Buscando coisas diferentes….

Calma não estou dizendo pra você vender tudo e aplicar tudo em Bolsa. Aliás não estou dizendo o que você deve ou não fazer, só expondo minha opinião. Rs.

Só acredito que caso o investidor não esteja confortável em ganhar seus 2% ou 3% real ao ano, ele vai ter que buscar coisas diferentes! Penso ainda que esse “diferente” não se dá apenas com 5% ou 10% dos investimentos, mas com um número bem maior, tal qual vemos em outros países. (até postei sobre isso 2 vezes. Dê uma olhada: Como é a seleção de investidores de 7 países e Como americano investe.

E o mais interessante é que isso é verdade não só para o pequeno investidor, mas também para fundos de pensão, seguradoras, etc. Grandes agentes também têm de se mexer para buscar mais retorno.

E AS AÇÕES, WILL? 

Ok, falando nelas, nunca é demais lembrar que renda variável, varia! Então o retorno real do investidor (descontado da inflação) pode ser positivo como negativo num ou outro ano. Por isso, fala-se que Bolsa é um investimento de longo prazo.

Ainda assim, o fato é que o investimento em Bolsa tende a ser um hedge (proteção) contra o poder corrosivo da inflação. A ideia é que as empresas tendem a repassar os aumentos de custos aos seus preços e, consequentemente, receitas. Portanto, investindo numa empresa eu estaria investindo num veículo que em teoria consegue se proteger da inflação.

Avançando…

Ainda que não goste do Ibovespa, temos que avaliar ele. Penso que um bom stock picking pode gerar bem mais retorno, mas aí a discussão é outra. No gráfico abaixo posto o retorno real do Ibovespa.

Já de antemão aviso: o cálculo de retorno médio de cada período não tem validade alguma para mim! Só coloco por curiosidade. Acho errado fazer uma média de anos e realidades tão distintas, mas segue como curiosidade apenas.

Ainda assim, é oportuno salientar que o retorno real médio de cada período é levemente superior ou semelhante ao do CDI, mesmo considerando o quão bizarro foi o nosso histórico de juros no Brasil.

2 PONTOS A FRISAR: 

(i) Esse é o Ibovespa e o sujeito pode ter retornos maiores fazendo um stock picking de qualidade, como tento fazer na minha Seleção Will, ou ainda investindo num fundo de bons gestores de ações.

(ii) Bolsa e ações são 1 ativo. Existem mais opções, em especial quando você busca investimentos fora do Brasil e descobre que existe um mundo de oportunidades!

 PARA ACABAR…

Penso que olhar o passado da renda fixa no Brasil é não perceber que esta já mudou e que a realidade EXIGE que os investidores busquem outras opções!

Como vocês sabem tenho investimento em renda fixa (14%) e já acho muito! Tenho uma seleção fortemente alocada em ações. Penso que isso é necessário porque quero buscar retornos reais maiores que os 2,5% que a renda fixa atual pode me dar.

Penso ainda que outros grandes agentes (fundos multimercados, fundos de pensão, seguradoras, etc) também irão buscar diversificar e Bolsa é um dos caminhos. Se isso for verdade, existe fluxo para entrar na Bolsa olhando para os próximos anos. Esse é um dos motivos que sigo otimista olhando a frente.

Não obstante, cada vez mais o investidor vai ter que olhar para fora para “pescar” num aquário beeem maior que a nossa Bolsa brasileira. Por isso volta e meia falo em internacionalização.

E como prometido….

VAMOS BATER OS 100 MIL PONTOS. O QUE ESPERO PARA ESSA SEMANA:

Respondendo a pergunta: sim vamos. Quando é que eu não sei…rs.

Conforme já comentei aqui nas últimas semanas, penso que o mercado antecipou muita coisa e que a alta da Bolsa me parece um pouco desconectada da realidade macro. Sim, as expectativas são boas e acredito na aprovação da reforma da Previdência ainda em 2019, mas o retorno da política aos palcos gera o ruído que temos visto no dia-dia e isso segura a Bolsa nessa Odisseia dos 100 mil pontos. Semana passada o mercado comemorou uma proposta de reforma mais contundente. Bolsa subiu, dólar caiu e juros voltando às mínimas, mas quem garante que ela avançara como está? Para o curto prazo sigo vendo certas nuvens que me deixam receoso. #oremos.

Penso que a crise política do caso Bebianno e os filhos do presidente não ajudam em nada, mas são apenas mais um capítulo desse contexto maior que falei que é exatamente o retorno do noticiário político à tona. Vale observar para ver se respinga na capacidade de aprovar a reforma.

Fora daqui, China e EUA devem chegar a um acordo, mas não agora em março como inicialmente se previa. Vão postergar a definição lá para maio… Acalma o mercado e até por isso o VIX andou caindo bem. Isso ajuda a sustentar o S&P que seguiu subindo. Junto a isso, os cortes de produção de petróleo da Arábia Saudita ajudam a sustentar o petróleo e isso é bom para commodities e para nós.

Sigo com grande parte dos meus recursos alocados em Bolsa. Tenho ETF de petróleo lá fora. Acho dólar interessante abaixo dos R$ 3,70.

Era isso.

Abraços,

William

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