Tônica da Semana: Luto na Bolsa também?

Willian Castro Alves Publicado em 28/01/2019
7 min
A tragédia em Brumadinho é o assunto dos últimos dias no país. Além da tristeza pelas perdas de vidas e danos ao meio ambiente, o William avalia os impactos para a Bolsa. Veja aqui.

Nota do editor: Oi, aqui é a Flavia, editora da Inversa.

Na constante busca por mais conteúdo para te ajudar a investir melhor, recentemente conheci o William Castro Alves, profissional do mercado financeiro que escreve sobre o tema de uma forma muito leve.

A partir de hoje, vamos disponibilizar textos dele aqui no seu Espaço do Assinante e espero que você goste e aproveite mais esse conteúdo.

O William é estrategista-chefe da Avenue Securities e possui 15 anos de experiência no mercado financeiro. Antes da Avenue, ele passou por empresas como Solidus Corretora, Koliver Merchant Bank e Banco Alfa. Foi especialista-chefe na XP Investimentos e head de estudo da Valor Gestora de Recursos. Ele também compartilha sua visão sobre o mercado em sua página pessoal: www.bugg.com.br

 

Onde estamos

Antes de tentar imaginar ou projetar cenários é sempre importante parar, olhar para os lados e nos darmos conta de onde estamos.

2019 começou de forma positiva para o mercado brasileiro com a Bolsa subindo forte e chegando perto dos 100 mil pontos que comentei lá no dia 22 de outubro.

Tivemos uma melhora dos mercados de emergentes (linha vermelha) em consonância com alguma recuperação das commodities (linha preta). O primeiro sobe mais de 7% e o segundo, mais de 5%. Então, isso ajuda a explicar o salto até aqui do IBOV.

Mas a realidade é que 2019 é um ano difícil… Em Davos, o FMI anunciou a revisão para baixo das previsões de crescimento desse ano…

O gráfico abaixo mostra a pressão baixista sobre a indústria europeia, por exemplo.

E o fato preponderante ainda é a definição sobre um acordo ou não na famigerada Trade War entre EUA e China. Os dois têm até dia 1º de março para anunciarem alguma definição, caso contrário, os EUA irão aumentar as tarifas de produtos chineses importados pelos americanos. Cerca de US$ 200 bilhões em produtos seriam atingidos pela elevação de 10% para 25% nas tarifas. Mais que isso, um verdadeiro tiro no pé do crescimento global.

Mas dois fatores podem impulsionar a Bolsa ainda mais!

Tentei mostrar que essa alta é apenas um ponto de vista, ou a vista de um ponto como comentei semana passada... Ou seja, apesar da alta da Bolsa, acredito que a mesma possa continuar subindo! E aqui pontuo 2 porquês:

  • O primeiro é exatamente uma resolução na trade war que comentei acima. Isso levaria a uma recomposição das expectativas de crescimento das 2 maiores economias do mundo, o que tenderia a ser benéfico para o mundo como um todo e, em especial, para commodities. E se é bom para commodities é bom para o Brasil. PRAZO: até fim de fevereiro.
  • E o segundo se refere às reformas necessárias no Brasil para conter a escalada do déficit fiscal e também as que se referem a ganhos de eficiência. PRAZO: fevereiro recomeçam as discussões em torno da reforma da previdência…estejam preparados, porque isso aqui é Brasil! Acredito que reforma sai, só não sei dizer qual!

Saibam de uma coisa: quando e “se” esses dois eventos acontecerem, a nossa Bolsa já estaria num patamar ainda mais elevado. Vou chutar um número aleatório aqui só para parecer mais “sério”… Rs… 120mil pontos!

A tragédia

Primeiramente, me entristece muito ver meu país na BBC, aqui na Inglaterra, em mais uma manchete negativa. Não tem como não se emocionar ou se indignar! Meus pêsames a todos atingidos e vítimas da tragédia de Brumadinho. Não há muito o que falar. Uma tragédia lamentável demais sob o ponto de vista ambiental, risco de imagem do Brasil internacionalmente, mas muito mais relevante são os impactos sobre todos aqueles feridos de forma física e mental!

Deixei um post com música que passa mais um recado. Bob Sinclar – World Hold ON.

Sobre o IBOV, penso que a queda da VALE deve esfriar os ânimos na Bolsa e deixar os 100 mil pontos pra mais tarde.

E A VALE

Algumas pessoas me perguntaram sobre comprar VALE3. Triste avaliar ou emitir opinião, mas deixo aqui meus 30 segundos a respeito: R$ 11 bilhões bloqueados pela justiça são apenas 3,7% do valor de mercado da empresa; no entanto representam 45% do caixa atual... Mas o fato é que ninguém sabe qual será o real impacto financeiro. Aparentemente, ela tem seguro de muita coisa também. No caso da Samarco, as discussões rodavam na casa de R$ 20 bilhões e fizeram acordo de R$ 11 a R$ 13 bi que ainda está em aberto, na real... Anyway, acho prematuro avaliar. Mas tem mercado segunda e penso ser totalmente razoável o ativo cair de 5% a 10% hoje. Ainda assim, operacionalmente, o impacto será mínimo na capacidade de geração de caixa da empresa... Então, eu vejo como um evento one off que afeta no curto prazo, mas não altera significativamente o case… A menos que ela venha sofrer algum tipo de embargo ou perda de licenças, o que acho ser pouco provável. Com a queda, penso que pode sim ficar barato, mas tem que observar qual será o real impacto.

Como ser humano, penso que não há preço para as vidas e o impacto ambiental. Então, se fosse por torcida, que me perdoem os comprados, mas penso que a VALE deveria arcar pesado, ao menos financeiramente, por esse acontecimento.

Confiança pra acabar bem...

Mas pra não acabar de forma triste, vamos falar de confiança!

Se a confiança na Vale foi totalmente arranhada novamente, por outro lado, tivemos boas novas pelo lado dos indicadores de confiança.

Começando pelo mais importante deles, o indicador de confiança do consumidor brasileiro avançou em janeiro pelo 4º mês consecutivo, atingindo o maior nível desde fevereiro de 2014. Segundo Viviane Seda Bittencourt, Coordenadora da Sondagem:

O indicador de confiança do consumidor é o mais importante para quem investe em Bolsa! Já comentei aqui a questão dos leading indicators – são indicadores pontuais, mas que ajudam a medir o apetite da atividade econômica e que fornecem tendências da economia de maneira bem confiável. Comentei na Tônica do dia 3 de dezembro. Pois então, olha que legal esse gráfico que peguei do twitter do @pratesr. Ele compara o IBOV (linha laranja) no eixo direito e o índice de confiança do consumidor (linha azul) no eixo esquerdo. Impressionante como se movem de forma semelhante, não?

Também tivemos boas novas do indicador de confiança da indústria, o qual considero como o segundo mais importante. O ICEI (índice da confiança empresarial da indústria) aumentou 0,9 ponto entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019, e foi a 64,7 pontos, o maior desde junho de 2010!!

Já o indicador de confiança do setor de comércio brasileiro, que deu uma arrefecida após as fortes altas de novembro e dezembro, penso ser normal, mas vale monitorar.

Era isso.

Abraços,

William

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