Tônica da Semana: O mercado é imune a epidemias?

Willian Castro Alves há 3 semanas
9 min
Mercado parece relativamente imune a eventos como o coronavírus. Faz preço e se assusta no curto prazo, mas a tendência é que não seja um driver relevante pensando em médio prazo.

Nota do editor: Na edição de hoje, o William escreve sobre o principal assunto do momento: o coronavírus. Histórico com episódios parecidos sugere baixo impacto nas bolsas. O William é estrategista-chefe da Avenue Securities e tem 15 anos de experiência no mercado financeiro.

 

Tempo de leitura: 9 minutos

 

Bom dia a todos!

Começando a segunda com um recado/pensamento/lição que acho que vale a pena…

 

AQUELAS BARBADAS…

O que mais tenho visto por aí nos grupos de whats, twitter, insta, etc., é a busca incessante por aquela nova “barbada”, aquele ativo que vai subir 20%, 40%, 60% na próxima semana.

As pessoas criam as mais diversas teorias e justificativas para dizer que o ativo XYZ vale muito mais e por isso irá subir. Leio muito sobre OIBR, INEP, JBDU, TCSA, GFSA e outros ativos de empresas que passaram por dificuldades nos últimos anos. Não me entenda mal, talvez esses ativos tenham muito valor – não sei dizer, teria que olhar a fundo.

Mas meu ponto aqui, e meu problema, é com essa ideia da “barbada”. Confesso que não me desce!

 

Resultado de imagem para MULHER BARBADA

Por que poucos comentam de BBAS, a qual para mim tem pelo menos uns 30% de upside?! Não por acaso ela é a maior posição da minha carteira. Mas eu sei por quê. Porque a probabilidade de BBAS3 subir seus 30% em uma semana é bastante diminuta, dado o seu tamanho. Logo, não atrai.

Mas o que te faz um investidor de sucesso? Acertar o momento de entrada e saída da ação que explode numa semana, ou buscar uns 20% ao ano de retorno por um longo prazo? O velhinho aí debaixo te responde!

 

 

Continha simples para se tornar milionário! 

Comece investindo R$ 10 mil numa carteira com cinco ativos por exemplo. Se quiser acertar a próxima “barbada”, invista outros 300 reais por mês, ou R$ 3,6 mil por ano, com uma taxa de retorno anual de 20%. Em 30 anos de paciência, você terá R$ 6,6 milhões, um bom valor para uma aposentadoria. Simples assim! Aumente em 100 reais os aportes mensais, ou apenas 1% de retorno por ano, e você vai ver esse valor saltar para R$ 8 milhões!

Enfim, é matemática financeira básica. O mais difícil aqui é CONSISTÊNCIA!

Carteira #Notbad que publico de forma totalmente gratuita, e onde EU COLOCO O MEU DINHEIRO, rendeu 72% em 2017, 31% em 2018 e 69% em 2019. Sem dúvida, uma boa média que não sei se conseguirei manter, mas nem me preocupo. Meu foco é consistência e garantir uma aposentadoria tranquila. Sei que é questão apenas de tempo e de ficar longe das “barbadas”.

Voltando para o dia a dia do mercado… 

CORONAVIRUS E OS VIRUS NO MERCADO…

Vamos lá, a questão do coronavírus parece algo sério mesmo por dois motivos a meu ver:

(i) Vírus pode ficar incubado 14 dias até se manifestar. Portanto, pode ter ainda muita gente com vírus incubado que não se manifestou. Esse gráfico já tem um lag de alguns dias, mas a reta segue para cima com mais de 2.700 casos já identificados e 80 mortes!

 

(ii) Para a autoridade chinesa admitir que a coisa está séria, é porque realmente está! “A capacidade de se espalhar do novo coronavírus está se fortalecendo, e as infecções podem continuar a crescer, afirmou a Comissão Nacional de Saúde da China neste domingo, com mais de 2.000 pessoas no país infectadas e 56 mortas pela doença.” (link para matéria completa)

Para saúde, vidas, famílias o impacto econômico pouco importa, mas para nós aqui cabe tentar entender o impacto disso no mercado. Bom, é óbvio que negativo: menos pessoas circulando (queda de 42% no número de passageiros nas companhias aéreas chinesas na comparação com o ano passado no primeiro dia do feriado de ano novo lunar deles); menos pessoas comprando; escolas fechadas; lojas fechadas...

Tudo isso reduz a projeção de crescimento econômico e de lucro de muitas empresas. Como proxy temos a SARS que afetou o mundo em 2003. Foram 8.100 pessoas infectadas e 774 mortes. Abaixo, o gráfico do consumo chinês naquela época…

E o impacto em termos de PIB, mais pesado no foco em Hong Kong, mas menos letal no resto do mundo.

De qualquer forma, se afeta o consumo e o crescimento econômico chinês, pode ter certeza que is not a good thing!

“External shocks can derail economic trends and abruptly alter market sentiment. Not all risk is economic policy or monetary,” wrote David Kotok, chairman and CIO at money manager Cumberland Advisors. 

Veja o caso do Ebola. Comentei no meu twitter a respeito. O gráfico assusta:

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Da máxima à mínima, queda de 10% do S&P 500. 

MERCADO TEM A VACINA? 

A boa notícia (lembrando que escrevo aqui pensando apenas sob a ótica do mercado de ações!) é que o mercado parece relativamente imune a esses eventos. Faz preço e se assusta no curto prazo (dias), mas a tendência é que não seja um driver relevante de mercado pensando em médio prazo (meses).

A tabela abaixo mostra a reação do S&P500 para diferentes doenças nos últimos 40 anos:

 

Se dá para tirar alguma conclusão, eu diria que é a seguinte: as doenças não tiveram grande influência sobre as ações nos EUA.

A Charles Schwab compilou dados do mundo todo baseado no MSCI All Countries World Index mostrando que no mês de anúncio das epidemias o mercado subiu em média 0,4%, nos seis meses após avançou 3,1%, e nos 12 meses após teve alta de 8,5%!

Mercado tende a chacoalhar no curto prazo por conta do receio do impacto econômico sobre a China e o resto do mundo. Num mercado que vinha de fortes altas, surge um motivo para realizações, um freio para conter o entusiasmo. Mas vale lembrar que temos políticas monetárias bastante frouxas hoje (juros baixos) e vínhamos de um momento de recuperação de dados econômicos. Logo, penso que isso é que realmente ditará o tom olhando mais à frente. Abaixo, o índice de surpresa econômica agregado de China+Europa+US – ele mede o quanto os indicadores econômicos têm surpreendido positivamente. Dá pra ver que temos tido bons dados macro (fonte: @OJRenick e reportagem sobre o assunto).

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PIADA INFAME… 

“Ainda bem que é Coronavirus. Imagine se fosse Kaiservirus ou Glacialvirus! Se é loko mano!”

Sorry.

 

E NO BRASIL

No Brasil, ressaltaria duas coisas: (i) a alta da bolsa tem sido menos ou nada dependente dos investidores estrangeiros; (ii) não tivemos nenhum caso de Coronavirus aqui.

Dito isso, o impacto do vírus deveria ser diminuto, mas claro que temos que acompanhar para saber o impacto num importante parceiro comercial chamado China!

Fora isso, tivemos um dado de confiança da indústria melhor que o esperado…

E mais empregos sendo gerados no importante setor de serviços, algo também muito bom! E se liga que a tendência é boa, segue crescendo…

E o que me deixa confiante é que esse parece finalmente ser o ano dos emergentes! Com políticas monetárias frouxas (juros baixos), parece questão de tempo para vermos a atividade inflexionando positivamente.

Abaixo, linha azul mede a flexibilização monetária promovida pelos bancos centrais e a linha preta mede a atividade. Demora um pouco, mas cedo ou tarde vai!

emerging markets leading indicator chart

 

E não menos importante é o fato de que a alocação em bolsa no Brasil ainda é baixa! Olhem esses dois gráficos abaixo. Na esquerda, a alocação dos multimercados que agora começa a voltar a média. Mas veja que os fundos de pensão ainda estão subalocados em bolsa quando olhamos o contexto histórico. Ou seja, ainda tem dinheiro para vir para bolsa!

 

VÍDEO PARA DAR AQUELA REFORÇADA NO OTIMISMO!  

Fora isso, Paulo Guedes deu show em Davos, o que ajuda a melhorar nossa imagem no cenário externo. Para quem não viu o vídeo, reserve aí uns 24 minutinhos do seu tempo porque vale a pena…


MÚSICA DO DIA…

Ouvi umas dez vezes essa música no fim de semana. Lembra muito aquela clássica da Comunidade Ninjitsu “pare bebum”, hehehehe. Só quem tem mais de 30 e é gaúcho vai entender…rs

 

Era isso.
Aquele Abs.

 

William Castro Alves

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