Os seis erros dos investidores em ações

Matheus Spiess Publicado em 11/12/2017
9 min
“Por algum tempo, estes devaneios aliviaram as suas fantasias; consistiam em uma sugestão satisfatória de que a realidade era irreal, em uma promessa de que a rocha sobre a qual fora construído o mundo estava firmemente alicerçada sobre as asas de uma fada.” – Scott Fitzgerald em O Grande Gatsby.

Apesar de se referir no trecho acima às alucinações amorosas de Jay Gatsby, Fitzgerald talvez consiga nos transmitir algo altamente instigador dado o momento em que vivemos.

Já notaram o quanto se fala em investimento hoje? Já perceberam como aumentou o número de propaganda, seja em cartazes, seja na televisão, de corretoras?

De fato, passamos por uma época ímpar no Brasil, em que a informação financeira, algo tão carente na educação do brasileiro, passa a se difundir por todo território nacional. E saibam de uma coisa: ainda tem muito chão pela frente, afinal, estima-se que apenas 500 mil pessoas tenham seus CPFs cadastrados na Bolsa de Valores e que menos de 4/5 desse total opere realmente.

Contraditoriamente, os entrantes desse mundo (antes fechado aos que se dedicavam integralmente ao mercado financeiro) acabam não se fazendo valer da grande oportunidade que se apresenta. Muitos caem nas alucinações convencionais desse novo oceano nunca antes navegado, tal como Gatsby se iludia, conforme mostrado no trecho acima.

Separamos abaixo os seis erros mais comuns dos investidores em ações, para que você, leitor que acompanha a Inversa, não caia mais em falácias mercadológicas. Acreditamos que, ao término da leitura deste edição, você consiga não só ter uma barreira crítica para a tomada de suas decisões, mas também uma maneira para evitar tais erros.

Os 6 erros

1. É uma ilusão olhar só para o homebroker e para o preço de uma ação

Acreditar que uma tese de investimento muda completamente porque a ação teve uma retração momentânea é o ápice deste erro. O processo de criação de riqueza de uma empresa acontece no longo prazo. Portanto, querer que os fatos estudados se transfigurem instantaneamente em preços é um dos muitos clássicos delírios do mundo das aplicações financeiras.

A democratização e o consequentemente desenvolvimento da tecnologia dos meios de acompanhamento dos valores mobiliários tornaram os investidores imensuravelmente mais dependentes do painel de cotação do que verdadeiramente da saúde da companhia. Digo mais: não só os investidores, mas também os especialistas por aí são reféns do homebroker.

Uma empresa não é um número na tela! Um leitor inteligente deve avaliar a história da empresa, afinal de contas, toda boa tese de investimento é, invariavelmente, uma boa narrativa. As pessoas passaram a esquecer que são donos de um pedaço de negócio atrelado a diversos outros fatores, que vão muito além daquele contábil.

O autêntico valor das companhias não está na volatilidade, e sim no chão de fábrica. Os especialistas e investidores devem gastar sola de sapato para entender o business e descobrir se vale ou não a pena alocar recursos no case.

2. Realizar operações o tempo todo seguindo orientações da corretora, que tem o interesse de ganhar dinheiro com um volume cada vez maior de trades

Já foi provado empiricamente que aqueles indivíduos que negociam um maior número de vezes estão fadados a retornos inferiores quando comparados com as rentabilidades obtidas pelos que permanecem com seus ativos por uma média de tempo maior.

Entenda: quem ganha dinheiro quando o número de negociações sobe é aquele agente intermediador do trade. Grandes investidores, tais como Warren Buffett e Charlie Munger, permanecem posicionados em suas teses por um grande período, pois os verdadeiros resultados se dão no longo prazo. Compre e venda menos, estude melhor as possibilidades de investimento e selecione-as com sabedoria, tendo em mente que aquele capital potencialmente ficará ali por meses ou anos.

3. Confiar às cegas em agentes do mercado. Muitas vezes o mercado não tem memória

Lembra daquilo que mencionamos acima sobre conhecer de fato o negócio e a história por de trás dele? Pois bem, isso vale, entre outras coisas, para os controladores da empresa. A história de cada um dos responsáveis pelo management é, de certa forma, algo altamente impactante para o resultado que a companhia estudada pode ou não alcançar. Ou seja, a gestão da empresa será exclusivamente responsável por conduzi-la de maneira a valorizar o capital. 

O mercado tem memória curta e as histórias se perdem ao longo do tempo, abandoando a estudo profunda de certas sucessões passadas. O mercado de hoje sabe fazer conta. P/E? EBITDA? ROE? ROIC? Mas isso tudo é a imagem distorcida de uma trama muito mais profunda e complexa que precisa ser compreendida.

Muitos que autoconsiderados “experts em investimentos” não entendem a fundo dos negócios e, por isso, desconhecem como aquelas empresas chegaram até ali. Ignoram completamente o passado e tratam cada evento do mercado como novo e único, quando, na verdade, sempre existem episódios análogos no passado para os quais vale a pena olhar. Fuja da mesmice e confie em quem esmiúça o que já aconteceu. O passado pode não ser absoluto, mas sempre foi e sempre será uma boa ferramenta.

4. Acreditar em projeções e estudos de quem não tem “skin in the game”

Os financistas não sabem de tudo nem nunca saberão. O erro vital deles, entretanto, é acreditar que o mercado não é incerto e que, por resultado disso, eles conseguem saber de tudo e projetar aquilo que surge na cabeça deles.

Tome cuidados com os videntes que fazem projeção atrás de projeção e dizem ter a fórmula mágica para a obtenção de resultados. Não caia no conto do vigário: a maioria dos especialistas não acredita no que fala.

É um erro seguir quem só fala e não faz o que diz – é muito fácil dizer uma coisa hoje e, daqui a algum tempo, afirmar o exato oposto sem que a maioria da audiência perceba. O bom especialista não age dessa maneira, porque além de visitar as empresas e verificar seus respectivos resultados, ele também faz o que diz, skin in the game (“colocar a própria pele em jogo”). Se for para seguir alguém, siga aquele que faz o que diz, que acredita no próprio trabalho.

5. Agir com base em notícias de jornais – há opiniões enviesadas e mal apuradas

Donald Rumsfeld, ex-Secretário de Defesa dos EUA, argumenta sobre o conceito de Unknown Unknowns (“Desconhecidos desconhecidos”), isto é, aquilo que você não sabe que não sabe. É preciso entender que o mercado é altamente ineficiente, ou seja, é imprescindível saber que não será possível captar toda a informação sobre um assunto XPTO, uma vez que nem toda informação sobre ele está disponível. Entenda: O MERCADO NÃO É EFICIENTE.

Pior que isto, muitas vezes, é acreditar em opinião ao invés de fatos. Cuidado com o que você lê, crie senso crítico contra convicções e frases prontas que fazem parecer que tudo é plenamente certo.

A única certeza de amanhã é a incerteza. Notícias podem, sim, ser enviesadas e mal apuradas. Portanto fique atento.

Acompanhe fontes e newsletters confiáveis, escritas por colunistas independentes, e tenha sempre uma ressalva quanto ao conteúdo lido. Tire suas próprias conclusões sobre os fatos, porque de imitadores o mundo já está cheio e a maioria deles não querem ouvir senão uma confirmação daquilo que já pensam.

6. Acreditar que apenas uma grande tacada vai resolver a sua vida financeira

A imagem mais vista em sites de notícias de investimento hoje em dia se resume aqueles traders arrojados que tiram foto de braços cruzados com o trading desk ao fundo sob o título: “Este especialista te fará ganhar mais de 1000% por cento com esta sugestão”.

Acredite no que dizemos: o seu resultado, como investidor, não virá de um só negócio. Ninguém vira bilionário da noite para o dia. Pelo contrário, investir é um processo que envolve disciplina e paciência, mas que, ao final, tem um resultado altamente recompensador.

Destacamos estes seis erros para que você, leitor Inversa, tenha uma postura mais crítica em relação à informação exposta no mercado.
Na Inversa, nosso único desejo é que você ganhe dinheiro, proteja seu patrimônio e tenha sucesso como investidor.

Como não operacionalizamos o seu dinheiro, nem somos ligados a qualquer instituição financeira, temos a liberdade necessária para dizer a verdade. Com isso, queremos ajudar você a se proteger dos “tubarões” do mercado, para que você não se torne na aplicação de seus recursos aquilo que Jay Gatsby era no amor.

Por hora, me despeço, tendo a mais absoluta convicção de que você não só deixará para trás este universo de falhas, mas também seguirá as orientações de uma equipe interessada única e exclusivamente em fazer você ganhar dinheiro.

Um abraço,

Matheus Spiess

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