Previdência ou Imprevidência?

Ivan Sant'Anna Publicado em 08/05/2017
6 min
Para aqueles que não sabem, estou com 76 anos. E, como é de se supor, quem já atingiu essa idade tem algum tipo de aposentadoria.

Para aqueles que não sabem, estou com 76 anos. E, como é de se supor, quem já atingiu essa idade tem algum tipo de aposentadoria. É o meu caso. Recebo do INSS R$ 3.832,80 mensais, o que equivale a quatro salários mínimos. Como recolhi sobre vinte mínimos durante boa parte de minha vida, evidentemente me sinto prejudicado.

O pior é que, após a aposentadoria, continuei trabalhando, como roteirista da TV Globo, e recolhendo para a Previdência, o que não elevou em nada meu recebimento mensal. Afinal de contas, tenho de contribuir com a aposentadoria da dona Dilma Rousseff, que receberá, até o final de sua vida, R$ 30,9 mil todos os meses, corrigidos anualmente pela inflação, sem falar dos assessores, choferes, seguranças, carros oficiais, etc. 

“Quem manda ser burro”, poderá comentar um dos leitores deste artigo. “Você deveria ter feito um plano de previdência privada.” E não é que fiz! Não uma, mas duas vezes. E em ambas percebi que iria me dar mal e pulei fora.

No final de 1966, quando me mudei de Nova York para o Rio de Janeiro, após concluir meu curso de mercado de capitais na NYU, adquiri um plano de previdência num banco americano. Como eu tinha apenas 26 anos, e minha aposentadoria só iria acontecer aos 60, a mensalidade era baixa e a pensão, gorda. O problema é que ambas tinham valores fixos, sem o COLA (Cost-Of-Living Adjustment)¸ a nossa velha conhecida correção monetária.

Veio a inflação dos anos 1970, causada pelo fim do padrão ouro e, principalmente, pelo choque de petróleo de 1973. Tanto minha contribuição, como minha futura aposentadoria passaram a ter seus valores reais diminuídos todos os anos.

Eu posso ter sido ingênuo (ao ter desconsiderado a hipótese inflacionária), mas não sou burro. Como meu plano permitia o reembolso do dinheiro pago, me vali dessa cláusula e rescindi o contrato. Recebi meus dólares, converti em cruzeiros e apliquei em ações aqui no Brasil.

Tempos mais tarde, já aos 45 anos, resolvi fazer um plano de aposentadoria privada tupiniquim, mais precisamente no Bradesco. Vivíamos uma época de inflação galopante. Então eu, embora fizesse os pagamentos em cruzeiros (ou cruzados, sempre me enrolo com as moedas nacionais), meus cálculos eram feitos em dólares.

Eu pagava 500 dólares por mês para me aposentar com os mesmos 500 dólares mensais quinze anos mais tarde. Passado o primeiro ano, constatei que minha contribuição mensal caíra para 480 dólares e o benefício futuro também. No ano seguinte, 460 de pagamento, os mesmos 460 de benefício. Pelo andar da carruagem, no último ano de contribuição eu estaria pagando apenas 200 dólares e me aposentadoria com 200. Percebi então que entrara na segunda fria.

Exigi do Bradesco o reembolso de tudo que havia pago, acrescido, é claro, da correção monetária. Eles negaram, alegando que não havia essa cláusula no contrato. Não aceitei o que eles pressupunham um fait accompli.

“Accompli, uma ova”, me indignei. Como possuía seis ações ordinárias do Bradesco, informei a eles, através de uma carta formal, que compareceria a próxima assembleia de acionistas, em Osasco, para mostrar como o plano deles era furado (para não dizer outra palavra que, por sinal, rima).

Deu certo. Algumas semanas mais tarde, um diretor do Bradesco foi ao meu escritório e me deu um cheque no valor de tudo que eu tinha pago ao plano de previdência, acrescido da correção. E desisti desse tipo de fundo para sempre.

Hoje em dia, minha previdência são os direitos autorais dos 16 livros que já publiquei, mais vendas de direitos de filmagem, mais cachês de palestras, fora algumas aplicações em fundos. E vou levando.

Nem todo mundo tem vontade, ou aptidão, para escrever, ou compor, ou pintar, ou esculpir. Mas alguma coisa há de se fazer, já que com a Previdência oficial não é possível contar, e nas privadas (com o perdão pelo trocadilho) o retorno também poderá ser duvidoso.

Eu trabalho 365 dias por ano. Carnaval, Ano Novo, Páscoa, aniversário, feriados, tudo isso é dia útil para mim. E foi assim que resolvi meu problema previdenciário. Se alguém entra numa livraria em Manaus e adquire um exemplar de “1929”, eu ganho R$ 4,79. Na mesma hora, em Porto Alegre, outra pessoa compra um “Plano de ataque”. Ganho R$ 3,78. “Voo cego” em Uberlândia: R$ 2,69.

Tornei-me um mendigo de mil tentáculos. Alguns são até gordos, como nas três ocasiões em que vendi, e recebi na íntegra, direitos de filmagens de livros (“Rapina”, “The Sunday Night Traders” e “Bateau Mouche”). Outros, magrinhos.

Quando comecei a escrever, não faltaram desencorajamentos. Tais como:

“Ninguém consegue viver de livros” (esse conselho foi do meu pai, que morreu antes que eu publicasse o primeiro, “Rapina”). “Só Jorge Amado e Paulo Coelho conseguiram”, ‘secou’ um editor.

Já lá se vão 21 anos desde que lancei “Rapina” e continuei vivendo das letras, às vezes mal e porcamente, às vezes me dando ao luxo de uma viagem ao exterior ou da compra de um carro novo. Mas os livros só se acumulam, embora sempre oscilando. Como sempre fez parte de minha personalidade viver na incerteza, me dou bem com esse vaivém.

Já para as outras pessoas, que não querem se aventurar nesses projetos de retorno incerto, recomendo que façam suas próprias previdências, aplicando parte do dinheiro que ganham, mesmo que seja pouco, em ações ou fundos de investimentos selecionados por quem entende do assunto, e não por gerentes de bancos que têm como missão sugerir investimentos que interessam.... aos bancos.

Repito: poupe! Poupe sempre, mesmo à custa de abdicações e sacrifícios. Se não der para comer filé mignon no almoço, vá de arroz com ovo frito. Se ficar caro levar as crianças a Disney, vá com elas, de ônibus, ao Beto Carreiro World. Ande de metrô e ônibus e deixe o carro na garagem. Reúna os amigos em casa, ao invés de sair para jantar fora.

Principalmente, não confie nos bancos (talvez haja exceções que eu desconheça), conselho de quem já quebrou a cara duas vezes.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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