Edição Extraordinária Vale/Brumadinho

Flavia Bohone Publicado em 28/01/2019
30 min
Compilamos aqui o que nossos especialistas escreveram sobre a tragédia desde o fim de semana para te ajudar a tomar as melhores decisões neste momento delicado.

A equipe da Inversa lamenta profundamente a tragédia que aconteceu em Brumadinho (MG) no fim da semana passada e se solidariza com as vítimas da queda da barragem.

Mantemos também nosso compromisso de seguir trabalhando para dar as melhores sugestões aos nossos assinantes e avaliar, além do impacto humano, o que esse evento devastador significa também para os seus investimentos.

Compilamos abaixo o que nossos especialistas escreveram sobre a tragédia desde o fim de semana para te ajudar a tomar as melhores decisões neste momento delicado.

Um abraço,

Flavia

 

Veja o que o Ivan Sant’Anna escreveu:

Vale – não vale a pena

Estou escrevendo este texto no final da tarde de sábado, 26 de janeiro, portanto bem depois do fechamento da Bolsa na quinta-feira e bem antes da abertura desta segunda-feira.

Se não estivesse fechado na sexta, por causa do feriado em São Paulo, o mercado de ações teria tido uma das sessões mais voláteis dos últimos tempos, tendo como protagonistas centrais as ações da Vale S.A. Estas teriam sido movidas pelo pânico.

Estou me referindo, é claro, ao rompimento de barragens de contenção de rejeitos de minério de ferro em Brumadinho, Minas Gerais, lançando um mar de lama sobre o córrego do Feijão, afluente do rio Paraopeba, que por sua vez deságua no São Francisco.

Eu almoçava e assistia ao programa Estúdio I, na Globo News, quando surgiram as primeiras notícias do desastre. Imediatamente lembrei que a Bolsa estava fechada. Só que meu DNA de trader me fez imaginar como as ações da mineradora iriam se comportar na segunda.

À noite, assisti a uma entrevista do presidente da Vale, Fabio Schvartsman, comparando a catástrofe atual com a de 5 de novembro de 2015, quando uma barragem da Samarco se rompeu em Mariana.

Segundo Schvartsman, o impacto ambiental desta vez será bem menor, mas, por outro lado, a realidade de Brumadinho mostrará tragédias pessoais muito mais sérias.

É possível que haja centenas de pessoas soterradas na lama.

Evidentemente, as ações da Vale vão levar um tombaço hoje. Alguém poderia dizer: “Uma excelente oportunidade de compra.” Não, não é.

Em primeiro lugar, como a mineradora tem dezenas de barragens de contenção como aquela, não se pode descartar a possibilidade de novos rompimentos.

Segundo, e mais importante. Com esse evento, a Vale passa agora a ter um tremendo passivo intangível. Estou me referindo a multas, indenizações, obrigatoriedade de reforçar as demais contenções.

Quando, em 24 de março de 1989, o navio petroleiro Exxon Valdez derramou óleo no litoral do Alasca, a Exxon foi multada em 2,5 bilhões de dólares, multa essa que a Suprema Corte dos Estados Unidos mais tarde reduziu para 500 milhões.

Em 2010, uma plataforma submarina da British Petroleum deixou que 4,9 milhões de barris de óleo cru (equivalentes a 240 milhões e 100 mil litros) vazassem no fundo do golfo do México, no maior derramamento de petróleo da História.

Um acordo extrajudicial permitiu que a BP pagasse uma indenização no valor de 5,2 bilhões de dólares.

Durante os próximos anos, talvez décadas, a Vale terá de arcar com desgastantes processos na Justiça. Multas por danos ao meio ambiente, ações penais contra os responsáveis pela construção e manutenção das barragens, ações indenizatórias por parte das famílias das vítimas.

A Vale tem condições de arcar com essas despesas. Seu valor de mercado (antes de Brumadinho, bem entendido) era de 70 bilhões de dólares.

Apesar disso, por mais que a ação caia agora na Bolsa, é cedo para se pensar em comprar. É preciso que as pendências em relação ao desastre se esclareçam primeiro.

Não podemos nos esquecer que a companhia é um patrimônio valioso do Brasil, além de ser a quarta maior mineradora do mundo.

O Jogo virou durante o intervalo

Desde o primeiro dia útil de 2019, 2 de janeiro, até a última quinta-feira, 24, o mercado de ações de São Paulo praticamente não fez outra coisa a não ser subir.

Com exceção de duas ou três sessões de correção (ou realização de lucros, como queiram) o Ibovespa, em 17 pregões, subiu 10 mil pontos, mais precisamente 10.141,83, o que equivale a incríveis 11,6%, configurando, sob todos os critérios, um tremendo bull market.

Agora, o cenário mudou e a Bolsa vai cair. Não acredito que volte aos 85.535 do início do ano, mas acho que tão cedo não faremos novos highs.

O estopim da virada, todo mundo sabe, é a tragédia ocorrida em Brumadinho (MG), em uma barragem de contenção de rejeitos de minério de ferro da Vale, não só causando graves consequências ambientais (embora muito inferiores às de Mariana, da Samarco, em 2015) mas com consequências humanas no mínimo dez vezes maiores.

As ações da Vale, que têm um peso de cerca de 11% no índice, vão levar um tombaço, cujo montante não arrisco prognosticar. Mas garanto que será grande. E levará o resto das cotações em seu vácuo.

Em meu juízo, outros fatores se somarão ao desastre da Vale, entre eles o crescente escândalo envolvendo o senador eleito Flávio Bolsonaro, escândalo esse que cada dia apresenta um fato novo. Novo e mais grave.

Depósitos sucessivos e suspeitos em dinheiro vivo, feitos em caixas eletrônicos, tentativas de iludir o Coaf, recebimento de parte do salário de assessores parlamentares do então deputado estadual Bolsonaro.

Para o filho nº 1, a tragédia de Brumadinho está sendo um alívio. Tirou seu nome das primeiras páginas dos jornais e do foco principal dos noticiários da TV.

Por outro lado, resta saber até onde Jair Bolsonaro está envolvido (mesmo que por omissão) nas estripulias do primogênito. Numa declaração à agência Bloomberg, em Davos, o presidente disse que, se Flávio errou, tem de pagar. Mas à tarde no mesmo dia minimizou a culpa do filho.

O grande risco é que se prove o envolvimento de pai e filho no apoio às atividades de milicianos no Rio de Janeiro, com destaque para as homenagens que Flávio fez ao ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães, suspeito de chefiar atividades ilegais na favela de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Como se só isso não bastasse, Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete na Alerj, Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, respectivamente a mãe e mulher do capitão Adriano.

O fato de que o presidente da República e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, elogiem seguidamente militares e policiais, mas nada falam contra as milícias e grupos de extermínio, pode começar (se é que já não começou) a trazer desconforto para o ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Moro, como se sabe, é o ícone de honradez do governo Bolsonaro. Se ele tirar o time de campo, a auréola de seriedade do Planalto vai levar um baque. Não há de ser um Lorenzoni que irá segurar a peteca.

Jair Bolsonaro pôs diversos generais em cargos-chave de seu governo. Não há nada de ilegal nisso e a maioria de seus 55 milhões de eleitores deve ter aprovado a escolha.

Os generais não estão mostrando nenhum desconforto ao bater continência para um capitão. Afinal de contas, bateram para Lula e Dilma que, tal como Bolsonaro, eram comandantes supremos das Forças Armadas.

Mas, suponho, esses oficiais de alta patente não deverão achar nenhuma graça se começar a ficar provado que há ligações entre o clã Bolsonaro e milicianos. Estes, no frigir dos ovos, são tão bandidos quanto os assaltantes e traficantes que eliminam.

Dominam suas áreas com mão de ferro, senhores da vida e da morte. Sem contar que cobram “gatos” na rede de energia elétrica, são “concessionários” de TV a cabo, detêm o monopólio de distribuição de gás engarrafado e, cúmulo dos cúmulos, autorizam construções em terrenos de uso público, como áreas de lazer comunitário.

Restam trunfos de peso ao governo Bolsonaro: Paulo Guedes e as reformas.

Se as opiniões de Guedes (que, por sinal, teve um desempenho notável em Davos) prevalecerem, Bolsonaro topar acordos com o Congresso que lhe permitam passar as reformas, além de não interferir na investigação do filho, o bull market da Bolsa vai retomar sua trajetória e fazer novas máximas.

Acontece que, no momento, os céus se tornaram turvos, como a água do Paraopeba, e o Ibovespa vai levar uma tamancada.

Quando um evento trágico ocorre num feriado, como a catástrofe de Minas, os touros da Bolsa ficam inertes, confinados em piquetes. Parecem aquela vaca de olhar triste que os jornais exibiram atolada até o pescoço na lama que desceu pelo leito do córrego do Feijão.

 

Veja a opinião do George Chen e do Felipe Paletta:

 

Por que não temos Vale?

Em meio às inúmeras notícias que chegam sobre a tragédia envolvendo o rompimento do reservatório I da barragem de Feijão em Brumadinho (MG), que já protagoniza como um dos maiores desastres humanitários e ambientais do Brasil, achamos sensato prepararmos um material para ilustrar nosso ponto de vista, na parte de investimento.

Apesar de não possuir VALE3 em nenhuma das minhas seleções – explicarei o porquê abaixo – esta empresa representa praticamente 11% do Ibovespa, portanto, acho importante compartilhar nossos pareceres sobre o ocorrido.

Primeiro, por que não tínhamos VALE3 em seleção?

Operacionalmente, não há dúvidas de que Vale é uma empresa boa. A empresa passou por um processo importante de reestruturação e, desde a recuperação do preço do minério de ferro em 2016, puxada pela demanda da China, a mineradora passou por uma estrondosa melhora operacional.

No entanto, apesar de boa, tudo tem um preço, certo? E na nossa visão, ao atual nível de preço, VALE3 representava mais risco do que retorno, basicamente devido a três fatores: (i) desaceleração da economia Chinesa (principal consumidor); (ii) crescimento da economia brasileira ainda incipiente; e (iii) prêmio de risco por eventuais acidentes, incorporado à tese após o desastre de 2015 – este risco deve ser reforçado ainda mais, com essa reincidência.

Obviamente, eventos como este não podem ser previstos, no entanto, pelo próprio fundamento e nível de preço, conseguimos evitar de nos expor no papel.

Quais são os principais impactos para as ações da Vale daqui em diante?         

Para início de conversa, o complexo de minas do Córrego do Feijão representa apenas uma produção de 7,8 milhões de toneladas de ferro (2017), ou seja, 2% do total de produção da Vale. Portanto, a parada da produção deste córrego não é a maior preocupação aqui.

Em poucas palavras, os maiores riscos daqui pare frente são: (i) as multas que estão por vir; (ii) paralização de produção das outras barragens para fiscalização; e (iii) possíveis trocas de comando dentro da companhia.

Como este evento se compara ao caso Mariana, em 2015?

Desde Mariana, quando houve o rompimento da barragem de Fundão, no município de Bento Rodrigues (MG), as ações da companhia se valorizaram em mais de 250%, descolando, inclusive, da alta de 80%, do preço do minério de ferro desde então (gráfico abaixo):

Fonte: Bloomberg

Vale ressaltar que em meio ao desastre de 2015 a Vale vivia um momento operacional muito diferente do de hoje: sua Dívida Líquida/EBITDA estava em 4,1x no 4T15 (vs.1,0x no 3T18) enquanto sua margem EBITDA estava em 26,7% (vs. 47,4% no 3T18). Ou seja, o evento pegou a companhia praticamente “no fundo do poço”, e a gradual melhora do preço do minério de ferro, somada às melhoras incorporadas pelo atual CEO, explicam com bastante precisão a alta até aqui.

Em termos de porte, a barragem da Samarco que se rompeu em Mariana era incomparavelmente maior: tinha capacidade de 55 milhões de metros cúbicos e liberou 32 milhões de metros cúbicos em resíduos, enquanto a barragem de Feijão tinha uma capacidade de 12,7 milhões de metros cúbicos, dos quais o governo estima uma liberação de apenas 1 milhão de metros cúbicos de resíduos. Além disso, o reservatório I (rompido) estava desde 2015 sem operar, com plano de descomissionamento já em andamento, logo, o local sequer vinha recebendo rejeito da mineração.

Ainda assim, a problemática se dá, em grande parte, pela tragédia humanitária e não iminentemente ambiental. Vale lembrar que em Mariana 19 pessoas faleceram, já em Brumadinho, até agora, contabiliza-se quase 60 mortes e mais de 300 desaparecidos, o que dificulta o impacto que ainda está por vir deste acidente - ainda desconhecemos o efetivo do passivo tangível e intangível a ser criado pela calamidade.

Se em 2015 foram 68 multas aplicadas totalizando algo em torno de R$ 4,4 bilhões, o adicional de fatalidade humana tende a ter dois agravantes: a Justiça pesa mais, e a percepção pública da companhia despenca. Apesar do grande porte da empresa, os efeitos de agravamento regulatório e relacionados com questões trabalhistas ainda não são claros e não devem ser desprezados.

Nossa conclusão sobre o ocorrido

Se for para compararmos Brumadinho com Mariana, acreditamos que o acidente de agora é mais grave pelos seguintes fatores:

  • Trata-se de um caso de reincidência, o que coloca em dúvida a real situação das demais operações da companhia, assim como a severidade das multas por vir - até agora, R$ 11 bilhões da companhia já foram congelados (45% do caixa da companhia) e as primeiras multas já são da ordem de R$ 250 milhões e R$ 100 milhões, do IBAMA e da Prefeitura de Brumadinho, respectivamente;
  • O custo humano é imensamente maior, o que deve refletir nos balanços da empresa por um bom tempo;
  • Possível troca de comando: enxergamos um risco real de queda do Fabio Schvartsman (CEO), importante nome no processo de reformulação da companhia nos últimos anos
  • Perda de credibilidade frente aos investidores, principalmente por se tratar de um caso de reincidência grave;

Cabe lembrar que isso tudo são riscos adicionais aos que já observámos anteriormente, portanto, se não havíamos posição nesta ação antes, as chances se tornaram mais remotas ainda agora.

Meu conselho é ficar fora do papel por ora, até que os efeitos dos fatores citados acima sejam melhores definidos. A Bolsa continua com uma ótima perspectiva e, na minha opinião, existem inúmeros bons ativos a serem investidos antes do que a VALE3.

Abaixo, leia a avaliação do Money Maker:

A Tragédia de Brumadinho

 

Difícil falar sobre investimentos, posições de seleção, ganhos e perdas financeiras quando o que temos como motivador é uma tragédia nas proporções de Brumadinho. No momento em que escrevo, o número de mortos alcança 37, com mais de 290 desaparecidos.

Esses sim são números assustadores, que ainda podem aumentar e que tornam qualquer outro que eu venha a citar no restante deste texto irrelevante.

Mas é minha obrigação abrir esta conversa extraordinária com nossos assinantes. Temos na seleção duas posições que podem ser impactadas por essa terrível fatalidade.

Minha vontade é usar o termo irresponsabilidade no lugar de fatalidade, já que essa reincidência, pouco mais de 3 anos depois do incidente de Mariana, levanta dúvidas naturais sobre o quanto a segurança foi realmente priorizada dentro dos padrões adequados. Porém, não temos a menor competência para fazer esse tipo de julgamento; mas cabe a nós cobrar que as autoridades coloquem todo seu empenho em primeiro atender os atingidos pela tragédia e, logo em seguida, em apurar responsabilidades e preparar medidas para evitar novos episódios deste tipo no futuro.

Não podemos fazer esse julgamento, mas o mercado, na forma de penalização no valor de mercado da companhia, o faz de imediato. Foi o que aconteceu com as ADRs da Vale nos EUA no dia da tragédia - caíram mais de 8%-, enquanto no Brasil, a Bolsa estava fechada por conta do feriado do aniversário de São Paulo.

E não duvide, será o que irá acontecer na abertura, como, aliás, aconteceu pouco mais de 3 anos atrás, com o rompimento da barragem de Fundão, que afetou gravemente a cidade de Mariana e a bacia hidrográfica do Rio Doce. Ocorrido no dia 5 de novembro de 2015, foi um acidente de maior impacto ambiental, porém com menor perda de vidas humanas (19).

O gráfico abaixo mostra o que aconteceu com as ações da empresa naquela época:

Gráfico: Tradeview

​Foi uma queda de 7,6% no dia posterior, já abrindo com gap de baixa e mantendo a penalização por mais algumas semanas. Claro que precisamos também colocar no contexto da época, em que se acentuava a crise econômica e a empresa não mostrava sua melhor performance.

Da data do incidente (5/11) até o final daquele ano, a ação perdeu 23%, enquanto o Ibovespa, também impactado por Vale, caiu 9,8%.

Mas espere... Vamos ampliar a visão um pouco mais. Repare que do fechamento naquele ano, R$ 13,03, as ações alcançaram R$ 56,15 até a véspera da tragédia. Além da recuperação dos efeitos negativos diretos do acidente, a empresa e o mercado melhoraram de forma significativa.

Quanto pesará a reincidência? O que ainda iremos saber sobre o que realmente ocorreu? Qual o grau de responsabilidade e punições que ainda serão aplicadas? Como eventuais ajustes na legislação e fiscalização poderão dar mais tranquilidade quanto ao futuro da empresa?

Ainda veremos as respostas para essas perguntas, certo é que todos querem uma justiça que puna culpados e garanta uma empresa melhor para o futuro.

Fazer o quê com nossas posições?

O impacto inicial que veremos, com uma provável contínua penalização por alguns dias (talvez semanas) enquanto o cenário fica mais claro, é praticamente certo. É um reflexo da perda abrupta de confiança na governança da empresa somado a uma preocupação com os impactos financeiros que serão causados na mesma (multas, parada de produção, custos de medidas adicionais de segurança, dentre outros).

E isso afeta diretamente o preço. Aliás, temos a possibilidade de representar isso em nossa estimativa de preço alvo.

O Money Maker alterou as estimativas de preço-alvo para as ações da Vale. Clique aqui para ter acesso ao conteúdo exclusivo para assinantes.

Repare que, em minha avaliação, o impacto maior é na perspectiva de qualidade de governança do que dos resultados (apesar de também sofrer). E, apesar de maior, não é só em Vale, mas também em Bradespar que praticamente tem seu portfólio de investimentos focado em Vale.

Importante destacar também que se trata de um retrato atual. A depender dos caminhos que a empresa escolha, poderemos ver isso refletido em recuperação de confiança (e valor). Assim como podemos ser surpreendidos com um acirramento das disputas judiciais que envolviam o acidente anterior em Mariana, com julgamentos ainda não concluídos.

Uma primeira notícia positiva vinda da empresa foi, além da esperada criação dos comitês de crise (um de Apoio e outro de Apuração), a suspensão do pagamento de dividendos e da remuneração variável aos acionistas.

Um reforço à nossa estratégia

Estamos vivendo na prática alguns conceitos fundamentais de nossa estratégia:

- Uma das quatro verdades em prática: ninguém consegue prever o futuro. Infelizmente, sempre estaremos sujeitos a outros momentos como esse, de forte potencial para impactar nossas posições.

Aliás, quem pode garantir que o mesmo impacto que vimos no valor da empresa será novamente experimentado aqui? Sim, tivemos a prévia das ADRs no mercado americano, o que praticamente garantem um gap de baixa na abertura na segunda-feira, mas a continuidade dessa queda depende de uma série de fatores fora de nosso alcance.

- O pilar de Gestão de Risco, em especial a diversificação. Repare que nossa exposição é limitada a 5% da seleção. Com os valores atualizados, não chegamos a 10% com as duas (para ser mais preciso, 7,8%, já que BRAP4 foi comprada ainda na proporção de 3%).

Assim, mesmo que não seja possível sair no preço ideal, mantê-las em seleção não irá nos tirar do jogo. Reforçando: abaixo desses preços é preferível manter e aguardar uma recuperação (o famoso sentar na mão), pelo menos até termos informações mais claras.

- O pilar de Gestão Ativa, em especial a definição de preço alvo. A busca de margem de segurança pode nos levar a sair da posição ainda sem perda (difícil, mas possível).

Podemos também incorporar a essa definição de preço alvo os modificadores qualitativos, como acabamos de fazer para ajustar os preços de VALE3 e BRAP4 (impacto em qualidade de governança e resultados). Infelizmente estamos colocando a tranca depois da porta arrombada, face um evento imprevisível como esse, mas nos ajudará ao reavaliarmos a empresa futuramente.

É certo que as decisões tomadas pela empresa, se mostrarem que estão trabalhando para reforçar a segurança e os controles na condução desta crise, poderão reduzir essa penalidade. Enquanto isso, passaremos a esperar um desconto maior para poder retomar a posição. Na verdade, o mercado estará recuperando a confiança pouco a pouco, conforme a própria empresa mostra sinais claros de maior responsabilidade (ou, quem sabe, se concluir que não houve falta de responsabilidade neste caso).

Importante destacar que não se trata de “punir” a empresa, mas sim de tentar adequar nossa seleção ao novo cenário de valor que será percebido pelo mercado. A venda de VALE3, já planejada, precisa ser adequada a essa nova realidade, assim como deixa de fazer sentido uma entrada em BRAP4 nos níveis informados de preço.

Certo que seguiremos acompanhando a evolução dos acontecimentos, e um retorno não é descartado, mas desde que tenhamos mais transparência sobre as medidas adotadas para aumentar a segurança e reduzir o risco.

Tenho posição nessa empresa além da seleção Money Maker, o que faço?

Lembre-se que essa sugestão é válida dentro da seleção e estratégia que compartilhamos aqui. As duas posições são limitadas (menos de 5% cada) dada a diversificação que adotamos, nos impactando muito pouco caso a decisão seja equivocada.

Se por um lado é quase certo que teremos impacto inicial nos preços, não temos como prever como essa curva de queda irá se comportar ao longo do tempo (e nem por quanto tempo).

Avalie sempre sob a ótica da estratégia que fundamenta a sua posição. Lembre-se sempre que o longo prazo ajuda na recuperação do valor das empresas, afinal, não podemos imaginar que elas simplesmente serão abandonadas à própria sorte.

Muito pelo contrário, Vale é uma empresa estratégica para o país, ainda que privada. Multas e indenizações serão aplicadas e talvez até gestores serão punidos, mas a busca será por torná-la melhor e mais eficiente. Lembre-se que o curto prazo no evento de Mariana foi negativo, mas ao esticarmos o horizonte daquela data até a véspera deste novo acidente a empresa havia valorizado mais de 300%.

Mesmo no caso da seleção Money Maker, caso não sejam confirmadas as vendas, permaneceremos na posição. Grande chance do longo prazo e das decisões adequadas fazerem a empresa retomar seu valor de mercado. Caberá, neste caso, sermos pacientes.

 

Aqui você pode ler os comentários do Marink Martins:

The Plunge Protection Team (PPT) is ON!!!  

Sabe o que isso quer dizer?

Isso quer dizer que a partir de hoje, diversos bancos e corretoras irão, de forma indireta, enaltecer os esforços da Vale diante da tragédia. Irão argumentar que a Vale é uma grande empresa, um grande investimento, e que tudo que ocorreu na sexta-feira faz parte da vida...

Em vez de se alinharem com a população revoltada, muitas instituições ditas independentes, estarão alinhados com a empresa visando interesses futuros em operações no mercado de capitais.

A área de Relações com Investidores (RI) dirá que está tudo sob controle!!! Aliás, afirmo com propriedade, que esta é a área mais hipócrita do mercado de capitais. RI é puro marketing e jamais irá te apresentar algo com objetividade. Tudo é filtrado. Tudo é planejado para promover as ações da empresa independente da circunstância microeconômica que esta possa estar inserida.

Por tudo isso, seja criterioso em suas estudos.

Temos a presença do PPT em diversas áreas de atuação no mercado de capitais.

No passado, o PPT era chamado por aqui de Chapa Branca.

Hoje, o PPT está por toda parte.

O PPT está na China dando suporte a uma economia em desaceleração.

O PPT está nos EUA tentando de todas as formas impedir que um mercado baixista seja instalado.

Cuidado com o PPT. Historicamente, o PPT comprime a volatilidade por um tempo até que esta retorne de forma explosiva.

Perspectivas para as ações da Vale  

Não vou aqui entrar em questões de ética e moral no que diz respeito ao ocorrido. Isso eu deixo para o meu perfil no Facebook.

Quero aqui especular a respeito do comportamento do preço das ações da empresa diante de um evento reincidente, como este ocorrido em Brumadinho, três anos após um outro, aparentemente semelhante, ocorrido em Mariana, MG.

Observe que nestas horas é importante fazer uma estudo comparativa com eventos globais para que não fiquemos sujeitos a sentimentos demasiadamente humanos como aqueles associados ao desejo de uma reversão à média.

Tem gente que não pode ver uma ação caindo mais do que 10% que já passa a considerar o ativo uma pechincha!

Por isso, busco através desta estudo mostrar a reação dos mercados em dois eventos que tiveram ampla cobertura da mídia internacional. Em ambos os casos, as empresas foram acusadas de negligência. No primeiro caso, o da VW, ocorreu um caso de fraude.

  • Volkswagen - manipulação da injeção eletrônica de carros a diesel nos EUA. (Setembro de 2015)

No gráfico acima temos o comportamento das ações da VW (linha azul escura) junto com o mesmo para as ações da BMW (linha azul claro). Observe que em setembro de 2015, quando o evento veio a tona, o preço das ações da VW caiu aproximadamente 30%.

O caso da VW foi um caso de manipulação; um caso de fraude. Os consumidores se sentiram lesados e a empresa vem sendo punida severamente por sua negligência. Estima-se que o custo total supere o patamar de US$35 bi, ou um pouco menos do que metade de sua capitalização de mercado. 

  • British Petroleum - Explosão da plataforma Deep-Water Horizon no campo de Macondo, próximo ao estado da Louisiana, EUA.

Aqui temos um dos escândalos de maior notoriedade da história. O mundo parou para assistir ao estrago provocado pelo vazamento resultante da explosão da já mencionada plataforma.

No gráfico acima temos o preço das ações da BP (linha azul) em comparação com o índice de Oil & Services da Philadelphia (OSX). A ideia aqui é ajudar a discernir o quanto da queda no preço da ação da BP foi provocada pelo acidente. Observe que em 2010, o setor petrolífero performou bem, enquanto as ações da BP foram duramente punidas. 

O custo para a BP e para a operadora da plataforma, Transocean, foi elevadíssimo. Especula-se que custo total para a BP ficou na casa de US$65 bi, ou quase a metade de seu valor de mercado.

Embora sejam necessárias mais informações para entendermos melhor a dimensão do acidente em Brumadinho, aquele que detém ações da Vale em seleção precisa tomar uma decisão importante na segunda-feira. Ficar comprado e esperar a poeira baixar como o ocorreu no caso do acidente de Mariana? Ou correr e se desfazer rapidamente deste ativo? Eis aí uma dúvida cruel!

A decisão naturalmente envolve diversos fatores; dentre eles, o horizonte de tempo de investimento em questão. Uns dirão que o preço de abertura é o dado mais relevante. Eu, particularmente, já acho que o preço não deve ter tanto peso assim, assumindo que a queda inicial esteja entre 5% e 20%.

Julgo que quem está com o papel por razões especulativas de curto prazo deva se desfazer o mais rápido possível e arcar com o prejuízo. Não se torne um torcedor. Encerre a operação. Outras oportunidades surgirão. 

Já quem carrega as ações da Vale com um viés de longo prazo deve levar em consideração que a empresa está (ou estava) para entrar em um longo ciclo de distribuição de dividendos. Sabe-se que a economia chinesa está em desaceleração e que as perspectivas de crescimento da produção não são tão boas como em outrora. Mesmo assim, as ações da Vale se mantinham atraentes pelas perspectivas de um excelente "dividend yield".

E agora? Será que a multa a ser imposta pelo governo de MG irá afetar o fluxo de caixa de forma significativa a provocar uma mudança de rumo?

Isso eu não sei. Mas a minha intuição me diz que vai ficar muito mal para seus gestores e principais acionistas (Bradesco, Mitsui) caso a empresa considere a distribuição de dividendos em um ano que será marcado pela perda de diversas vidas.

Sendo assim, ao avaliar o grau de atratividade das ações da empresa, considere que a empresa vem negociado com uma relação de Preço/Lucro de 14,5x (2018) e de 8,1x quando considerado o lucro projetado para 2019.

Tais múltiplos quando comparados com as médias históricas e com os múltiplos de concorrentes como BHP e Rio Tinto não representam uma pechincha.

 

Em tempos de crise é concebível ter as ações da Vale negociando a um múltiplo inferior a 6x o lucro projetado para este ano. Tal múltiplo representa um preço de 6 x US$1,65 ou US$9,9 por ADR, ou aproximadamente R$37,00 utilizando um câmbio de 3,75. Isso representaria uma queda de 35% - algo que neste momento pode até parecer uma aberração, mas que julgo que deva ser considerado. 

Não estou aqui torcendo contra a Vale, mas sim desenhando cenários com o intuito de ajudar o assinante a tomar uma decisão na segunda-feira. 

A grande questão é a seguinte: será que este é mais um evento em que o regulador aplica uma multa e a empresa simplesmente provisiona, parcela, e vida que segue...? Ou será que a reincidência irá provocar uma mudança estrutural na forma de atuação da empresa? 

A crise de 2008 trouxe diversos efeitos danosos aos bancos envolvidos do ponto de vista regulatório. Observe que diversas instituições famosas como o Citigroup e o Goldman Sachs hoje tem suas ações sendo negociadas a um múltiplo de valor patrimonial tangível que, além de ser bem inferior a média histórica, é inferior a de bancos como Itaú e Bradesco. 

Por tudo isso, CAVEAT EMPTOR (Cuidado Comprador!)

Veja o que escreveram o José Castro e o Matheus Fontanini:

O peso para a imagem da Vale

No começo da tarde de sexta-feira (25), data em que a Bolsa de Valores de São Paulo estava fechada devido ao aniversário da cidade, uma barragem da companhia Vale se rompeu e uma outra transbordou logo em seguida na cidade de Brumadinho (MG). O acidente soterrou os funcionários que se encontravam na mina do Córrego do Feijão, o centro administrativo da mineradora e várias outras pessoas que moravam nas proximidades.

Até o momento, as informações são confusas e a revolta é imensa. Há menos de três anos e meio, um episódio semelhante ocorreu também em Minas Gerais na barragem de Fundão, operada pela australiana BHP Billiton e pela Vale. O episódio foi o pior desastre ambiental da história do Brasil, destruindo ecossistemas inteiros e causando 19 mortes. Embora, desta vez, o impacto ambiental seja menor, a catástrofe pode ter até 20 vezes mais números de mortos que a primeira, o que seria o maior desastre trabalhista do país.

Deixando a catástrofe um pouco de lado (se é que isso é possível) e analisando estritamente os dados divulgados pela companhia no terceiro trimestre de 2018, pode-se fazer a seguinte estudo.

A Vale atingiu recorde de produção de 104,9 Mt para minério de ferro no período, melhorando a qualidade dos seus produtos. Entre os principais motivos para alcançar essa marca estão o ramp-up de S11D (Carajás) e a expansão de produtos premium mostrando a capacidade de lidar com as mudanças de tendências do mercado, no caso, as quedas do preço do minério de ferro e do dólar frente ao real.                

Em consequência da abordagem mais rigorosa em alocação de capital, gerando um novo processo de governança, a companhia reportou resultados melhores do que o esperado.

Perceba que os dados divulgados são superiores aos que projetados pelo mercado na tabela abaixo.

Além desses resultados resilientes, outros três dados foram de suma importância em nossa estudo: os investimentos, margem EBITDA e a dívida líquida. Os investimentos totalizaram US$ 692 milhões no terceiro trimestre do ano passado, sendo US$ 569 milhões na manutenção de operações e US$ 123 milhões em execução de novos projetos. Com relação à margem EBITDA, encontra-se em 46% ao ano.

Já a dívida líquida recuou US$ 815 milhões, alcançando a marca dos US$ 10,704 bilhões, menor patamar desde o terceiro trimestre de 2009. Com esse nível, a alavancagem medida pela relação dívida líquida/EBITDA ajustado alcançou a marca dos 0,7x, menor nível desde o primeiro trimestre de 2012.

Além do aumento de caixa da companhia com as melhores vendas no terceiro trimestre do ano passado, houve dois eventos que contribuíram expressivamente para isso.

O primeiro ponto foi o programa de recompra de ações ao preço médio de US$ 13 por ação, totalizando cerca de US$ 500 milhões e, na data da divulgação do resultado, já se encontrava acima de US$ 15 por ação. O segundo foi a venda de 50% do projeto de carvão Eagle Downs, em Queensland, na Austrália, para uma empresa chinesa por US$ 117 milhões, alinhando ao plano da companhia de simplificar o seu portfólio.

Mas como podemos verificar, dados resilientes e vasta melhora nos dados operacionais não são o suficiente para uma companhia que lida diretamente com o meio ambiente. E qual seria o impacto para a empresa?

Nesse momento que escrevemos esse edição, há queda nas ações da ordem de mais de 20%, uma vez que não houve pregão no dia do ocorrido. Infelizmente, ainda é impossível dimensionar o real impacto para a mineradora. No quesito qualitativo haverá diversas perdas com a parada de produção na região, indenizações e multas, sem mencionar a maior regulamentação e diversas outras medidas que serão exigidas pelos órgãos responsáveis.

A nossa conclusão, pensando de forma fria e apenas financeira, é de que não vale a pena comprar ações da Vale mesmo após as fortes desvalorizações.

Ainda não é possível estimar o passivo gerado por essa catástrofe que se torna intangível com relação a multas, indenizações, impacto na produção e receitas.

Ainda não se sabe o número de mortos e desaparecidos e o real motivo do desastre.

Tomando isso como base, sabemos que o impacto ambiental em Mariana foi muito maior pelo volume de dejetos em relação a Brumadinho, porém foram 19 vítimas contra 60 de Brumadinho, até o momento.

E por ser um fato recorrente, segundo edição divulgado pelo banco Morgan Stanley, estimou-se um passivo que pode chegar em torno de R$ 11 bilhões. Se for parcelado em 10 anos, como em alguns casos em Mariana, representará 2,4% do EBITDA médio (R$ 39 bilhões) dos últimos dez anos.

Em termos financeiros, o impacto poderá não ser o principal fator de desvalorização das ações da Vale, mas sim os desafios a serem enfrentados daqui para frente como a possível queda do atual presidente da companhia, obtenção de novas licenças ambientais, assim como maior fiscalização e imagem devastada, que terão influências negativas nas suas receitas.

O reflexo disso será precificado no seu valor (valuation) e índices financeiros (múltiplos), que serão ajustados para baixo.   

 

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