Saiba como investir com a queda da Selic

José Castro Publicado em 12/07/2017
8 min
O que você deve levar em consideração na hora de investir? Se você possui R$ 10 mil ou R$ 100 mil, o planejamento financeiro deve seguir algumas regras básicas que vou dividir com você neste edição.

No dia 31/08/2016, o Banco Central realizava a reunião número 201 do Comitê de Políti ca Monetária (Copom). Na época, a taxa Selic estava a 14,25% e o Copom decidiu manter nesse nível até a reunião seguinte, em 19/10, quando fi nalmente teve início um grande ciclo de cortes – foram doze consecuti vos, sendo o últi mo no dia 21 de março de 2018.

Com isso, os investi dores brasileiros perderam aquela taxa alta que garanti a um ganho fácil, seguro e, ao mesmo tempo, com liquidez – e pensar que muita gente reclamava em obter retornos de 1% ao mês. Não existe mais dinheiro fácil, agora para obter bons retornos temos de suar a camisa.

Doze meses atrás, o consenso do mercado divulgado pelo Banco Central, conforme o Edição Focus, era de juros a 8,5% ao ano no fi nal de 2018... Mas já estamos em 6,5% ao ano. Mínima histórica em termos nominais.

Respiramos diariamente incertezas. Quem será eleito presidente da República? Até onde sobe os juros nos EUA? E os juros no Brasil: fi cam baixos por quanto tempo? Preço do petróleo e cotação do dólar vão parar de subir em qual momento?

Entendem onde quero chegar? Somos reféns do incognoscível e, portanto, investi r não se trata de ciência exata, muito pelo contrário.

Na últi ma reunião do Copom, em maio, a Selic foi manti da em 6,5% ao ano. O mercado fi ca então de olho nas pesquisas eleitorais, na alta 3 do dólar e na disparada do preço das commodities.

Próximo da metade dos juros que tí nhamos um ano atrás – hoje mais ou menos 0,54% ao mês –, onde você deve investir o seu dinheiro?

Um mercado com juros baixos abre novas portas e surgem oportunidades, viabilizando negócios. Com isso, ati vos de risco se tornam mais interessantes e uma seleção bem diversifi cada é fundamental para aproveitar esse momento.

O que vale aqui não é saber se a Bolsa vai subir, se os juros vão cair, mas sim como você se expões a estes eventos.

Tudo se resume ao que se conhece no mercado como “X não é f(X)”, isto é, a seleção ideal do investi mento é o f(X), pois suas posições não terão a pretensão de adivinhar o futuro, pelo contrário, você aceita sua ignorância quanto a ele, compreendendo a possibilidade de realização do mesmo, por isso montará uma estratégia que seja função de X e que possibilita ganhar com qualquer cenário.

Exemplo práti co: vamos supor que os preços das commoditi es decolem. Neste caso, uma posição em ações de empresas cujas receitas se benefi ciam da alta destes preços é fundamental.

Se, por outro lado, o que subir for o preço do dólar, importante será possuir companhias de exportação ou mesmo em fundos cambiais.

Ainda assim, somente renda variável não nos deixaria confortavelmente alocados em situações, por exemplo, de 4 de maior estresse. Por isso é vital a presença de renda fi xa na seleção, com tí tulos públicos e privados.

Conseguem visualizar meu ponto? Pouco importa se de fato acontecerá ou não, o objetivo é desenvolver aplicações que se benefi ciem de diferentes cenários, possibilitando a criação de um portf ólio “ótimo”. E é isso que pretendemos te ensinar aqui.

Para isso, vamos começar do início. O que você deve levar em consideração na hora de investir? Se você possui R$ 10 mil ou R$ 100 mil, o planejamento fi nanceiro deve seguir algumas regras básicas que vou dividir com você neste edição.

Defina seu perfil de investidor

Parece fácil definir o nosso perfil, mas essa é uma das tarefas mais difíceis no planejamento financeiro, pois exige um autoconhecimento que, às vezes, ainda não desenvolvemos na vida.

A definição é importante para criar uma estratégia de investimento racional que permita a você atingir objetivos e sobreviver às crises.

Os quatro principais parâmetros para definir o perfil do investidor são:

1. Qual o seu nível de conhecimento sobre produtos financeiros?

O investidor com uma experiência menor deve ser mais conservador, mas quem tem mais conhecimento já está apto a correr riscos buscando retornos mais atrativos.

Mas ATENÇÃO: nunca invista em produtos que você não entende, olhando apenas a rentabilidade e os custos envolvidos. Fazer um investimento sem entender como funciona o produto pode gerar prejuízos no futuro.

2. Qual o seu objetivo como investidor?

Geração de renda (conservador): obter um retorno constante como fonte de renda e gerar um ganho regularmente.
Aumento de capital (moderado): ter um retorno acima da inflação e aumento do capital investido.
Especulação (arrojado): ganhos acelerados com alto risco.

3. Em quanto tempo você espera resgatar 100% da sua seleção de investimentos?

Conservador: de 1 a 5 anos
Moderado: de 5 a 10 anos
Arrojado: mais de 10 anos

4. A volatilidade diária de um investimento te incomoda?

Conservador: muito
Moderado: pouco
Arrojado: não incomoda

Para resumir, o quadro abaixo revela a capacidade de correr riscos com base em alguns fatores da sua vida. Confira:

Qual é a sua capacidade de correr riscos?

Diversifique


Após definir o seu perfil, vamos desenvolver uma estratégia racional. O mais importante é não tentar adivinhar o que vai acontecer no mercado para saber quais ativos terão maior valorização. Temos que montar uma seleção “antifrágil” capaz de ganhar em qualquer cenário. Como fazemos isso? Diversificando.

Não faça como um antigo cliente que atendi na consultoria que vendeu o seu apartamento, deixado como herança do seu falecido pai, e investiu todo o dinheiro em ações. Até um determinado momento, a sua seleção com apenas duas ações apresentou resultados bem superiores aos de outros produtos financeiros. Ele tinha certeza de ter tomado a melhor decisão.

Até que um dia uma notícia no cenário político causou um furacão no mercado e viu seu patrimônio derreter 25% em apenas um dia. No desespero, ele vendeu tudo o que tinha, a preço de mercado, realizando um grande prejuízo.

A diversificação de ativos permite reduzir o risco na sua seleção. Em cenários adversos o prejuízo em um investimento poderá ser compensado por outro que possua uma correlação negativa. As perdas na seleção de ações, por exemplo, podem ser compensadas com ganhos em investimentos em dólar e ouro. Confira abaixo alguns ativos que você pode ter: 

Renda fixa:

Ativos pós-fixados (Selic/CDI): parte mais conservadora da seleção, a rentabilidade dos ativos segue a variação da Selic/CDI, a taxa de juros básica da economia. O seu valor de mercado apresenta baixa volatilidade (evitando perdas no caso de venda antecipada) e alta liquidez. É indicado para formação de reservas de emergência. 

Ativos prefixados: títulos com rentabilidade estabelecida no momento da compra. São uma importante forma de diversificar a seleção pensando no longo prazo e em um provável cenário de queda dos juros. Podemos comprar títulos prefixados que assegurem uma taxa fixa até o vencimento. Se a taxa Selic for cair para 7% ao ano, por exemplo, podemos comprar títulos prefixados pagando 10,5% ao ano até o seu vencimento.

Ativos indexados à inflação: títulos que protegem o patrimônio da inflação, pagando uma taxa real fixa ao ano definida no momento da compra e mais a variação da inflação. 

Renda Variável:

Há boas oportunidades de investimento na bolsa de valores, com ativos bons e baratos. Mas é preciso ter consciência dos riscos envolvidos.

Os Fundos de Índice (ETF) são boas opções para quem tem menos dinheiro para investir, pois através de um único produto há possibilidade de maior diversificação. Exemplo: um ETF que possui ações que compõem o IBOVESPA segue a variação desse índice de referência.

O ETF é negociado na bolsa de valores, assim como as ações. Os investidores com mais dinheiro para investir (R$ 20 mil ou mais) podem optar pela compra de ações diretamente para diversificar a seleção.

Fundos de Investimentos Imobiliários (FIIs):

Os fundos são ótimas opções de investimento pensando em médio/longo prazos. A vantagem do rendimento mensal isento de imposto de renda é bastante atrativa para pessoas físicas. Além disso, existe a facilidade de poder negociar suas cotas na bolsa de valores. 

Moedas fortes:

Esse é um instrumento de diversificação e proteção (hedge) do patrimônio contra um cenário desfavorável. É sempre importante ter seguros no portfólio contra eventos inesperados, pois eles geralmente trazem forte valorização do dólar frente ao real. O investimento pode ser feito por meio de fundo cambial.

Metais:

O ouro sempre foi e ainda é um seguro clássico. Pode ser um seguro-catástrofe se houver problemas com a economia global.  O investimento pode ser feito por meio de fundos de ouro.

Exemplo de seleção

A seleção abaixo simula um portfólio diversificado (com um valor de R$ 100 mil, mas também pode ser montada com apenas R$ 10 mil). 
No entanto, a distribuição é apenas um exemplo, pois cada investidor tem o seu perfil, que pode não se enquadrar na simulação.

Observe que uma seleção diversificada terá ganhos em qualquer cenário:

Queda dos juros: lucro com títulos prefixados e de inflação;

Elevação dos juros: ganho com os títulos pós-fixados Selic/CDI;

Crises políticas: valorização do dólar e do ouro;

Recuperação da economia: impacto direto nas ações de empresas e retomada do mercado imobiliário.

No exemplo de seleção acima, você vê 20% em ações.

Esse percentual varia dependendo do perfil do investidor e também dos diferentes momentos do mercado.

Você quer saber quanto do seu dinheiro você precisa colocar em cada ativo? Pois o Pedro Cerize, autor da série A Carta, diz todas as semanas aos quanto colocar em cada classe de ativos.

 

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