A Guerra Comercial - Episódio 6: Novo dólar

Marink Martins Publicado em 11/06/2019
20 min
Um dos maiores especialistas em mercados internacionais vai apresentar para você tudo que você precisa saber sobre a Guerra Comercial e vai dizer o que fazer com o seu patrimônio diante dos impasses políticos entre EUA e China. Ouça agora mesmo.

Ouça abaixo o sexto episódio da série de podcasts sobre a Guerra Comercial entre os EUA e a China.

Leia a transcrição abaixo:

 

Olá, leitor Inversa.

Seja muito bem-vindo ao sexto episódio da nossa série de podcasts especiais sobre a Guerra Comercial entre os Estados Unidos e a China.

Hoje, eu quero falar das condições necessárias para que uma moeda se torne reserva de valor global.

Entretanto, quero passar rapidamente por um pouco da história do dólar. Tomando como ponto de partida, o ano de 1913, quando foi criado o Banco Central dos Estados Unidos. De lá para cá, o dólar perdeu muito valor. Um dólar de hoje vale 1/20 de seu valor em 1913.

Tivemos diversas guerras, que acabam ocasionando na emissão de moeda, que propicia fenômenos inflacionários.

Em 1944, já próximo ao fim da Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos estavam bem mais fortes que seus pares, e detinham 2/3 das reservas globais de ouro.

Então, durante uma reunião ocorrida em Bretton Woods, nos Estados Unidos, o dólar foi definido como reserva de valor global.

Naquele momento, o dólar contava com o outro como lastro. Mas os Estados Unidos estraram numa onda de gastos incrível como na guerra do Vietnã e na guerra contra a Coréia.

Também, houve os esforços para mandar o homem para a lua...

Tudo isso fez com que muitos países começassem a demandar o seu ouro de volta, mandando dólares para os Estados Unidos.

Isso fez com que Nixon, em 1971, suspendesse essa conversibilidade em ouro. E aí, o dólar perdeu valor, foi até um período de inflação nos EUA. E os ativos que registraram melhor desempenho naquele período foram os ativos alemães.

Tanto a moeda alemã, quanto os títulos de renda fixa alemães.

Um experiente trader me disse que sempre que você optar por investir no mercado de ações, opte pelos Estados Unidos, pois eles são traumatizados com a crise de 1929, e sempre irão proteger as empresas. Da mesma forma, se você optar por investir em renda fixa, opte pela Alemanha, pois eles são traumatizados com a hiperinflação da República de Weimar, de 1921 a 1923.

E o que aconteceu durante os anos 1970, com a inflação alta e a taxa de juros americana subindo bastante, foi a chegada dos baby boomers ao mercado de trabalho. Os baby boomers são aqueles que nasceram no pós-guerra. E isso gerou um excesso de liquidez. Existem estudos que mostram que a partir de uma determinada faixa etária, dos 30 aos 34 anos, as pessoas, em média, migram de um período onde se tem consumidores de capital, para geradores de renda.

Esse foi um fenômeno demográfico muito importante. Tem um professor da Universidade de Northwestern, nos EUA, que relaciona a queda na produtividade dos Estados Unidos à esse fenômeno.

Olha só, esse pessoal que entrou na década de 1980 no mercado de trabalho está se aposentando agora. Então, eles estão deixando de poupar, e voltando a consumir capital.

E a aposentadoria é um período onde a renda do trabalhador, que agora não trabalha mais, fica mais apertada. Os gastos com saúde, por exemplo, aumentam muito...

Na Europa isso vem acontecendo bastante, no Japão também, onde se tenta elevar a inflação a todo custo!

Bastava contratar um Ministro da Fazenda brasileiro dos anos 1980....

Brincadeiras a parte, o fato é que o problema demográfico no Japão é incrível. A China também tem uma demografia nada favorável, devido a política do filho único.

Os chineses mais novos praticamente não têm irmãos, são todos filhos únicos, e a China passa por um processo de envelhecimento bastante acelerado.

O Brasil já possui uma situação um pouco mais favorável. Apesar do envelhecimento da população, ainda temos muitos jovens para entrar no mercado de trabalho.

Mas nada que se compare à Índia. A Índia tem uma população muito grande e muito jovem. É considerado o país promissor para os próximos anos.

Mas voltando à questão da moeda, dizia o economista francês Jacques Rueff, que a inflação é uma questão de gastos com ativos que não rendem nada, com um dinheiro que nem existe.

Então, existe um problema que, na minha opinião, não está relacionado aos Bancos Centrais. O problema parece ser político. O mandato de 4 anos não permite ao político ter uma visão de longo prazo. Então, o político gasta mal. E quando se gasta mal, joga-se uma pressão maior para cima da economia. A partir daí, se imprime dinheiro, como aconteceu na crise de 2008.

Virou uma farra de estímulos quantitativos. Nos Estados Unidos, na Europa, no Japão...

Para se ter uma ideia, no Japão, o BOJ (Banco Central do Japão) controla cerca de 80% das ETFs negociadas por lá. Isso mesmo, a autoridade monetária japonesa detém grande parte do mercado acionário japonês...

O Banco da Suíça, por sua vez, é um grande detentor de ações da Apple, Amazon....

Isso pode não terminar bem.

Mas a culpa não é exatamente dos Bancos Centrais.

A culpa é dos governos.

Houve o surgimento do Bitcoin como alternativa para transações internacionais e até para reserva de valor...

Um leitor da Inversa até chegou a perguntar se a moeda do FMI não poderia assumir a dianteira global...

Mas na verdade, o que eu acho fascinante, é que o verdadeiro lastro de uma moeda não é o metal, e sim a capacidade do país em tributar seu cidadão. Este monopólio é o grande lastro da moeda.

Se um país gasta muito mal a tributação que arrecada, vai ter que emitir moeda, e então ninguém vai querer receber sua moeda, como é o caso do Brasil.

Se não aprovarmos a reforma da previdência, teremos que monetizar a dívida. Isto é, emitir dinheiro.

Os Estados Unidos terão que fazer isso também, pois a dívida reconhecida americana está em torno de US$ 20 trilhões.

Todos os passivos previdenciários e demais esqueletos do orçamento podem chegar a US$ 50 trilhões... Dá para imaginar?

Uma ex-analista do Morgan Stanley fez um estudo, chamado USA Inc, e fez algumas contas...

Segundo ela, todos os esqueletos do orçamento e passivos previdenciários chegariam a US$ 75 trilhões....

Então, a dívida americana será monetizada. É inevitável.

Por isso, há uma guerra cambial, tecnológica... e monetária!

A China, quer ocupar um maior espaço. Até mesmo porque depois dos ataques de 11 de setembro, os Estados Unidos passaram a intervir nas negociações dos países em todas as operações denominadas em dólar.

Existe um mecanismo, onde todas as operações são conhecidas como Swift, e todos os movimentos de importação ficam registrados.

Por exemplo, uma operação entre a França e um país africano que é feita em dólar, é registrada no Swift. Então, o mundo passou a reter a reserva de valor global.

Os EUA, então, passaram a utilizar o dólar como uma arma, e isso vem fazendo com que diversos países venham com outras alternativas.

Os Estados Unidos também sempre mantiveram presença militar em seus parceiros comerciais. Por exemplo, na Alemanha existe presença militar americana, através da OTAN. Também no Japão, Taiwan, Coréia do Sul...

Mas na China, não há essa presença.

E a China se tornou o principal parceiro comercial dos Estados Unidos.

A China precisa de dólares para importar cobre, petróleo, minério de ferro...

E como ela vai conseguir dólares?

Os EUA agora têm um presidente protecionista... Ele não facilita acesso aos dólares..

Ontem, falei sobre Hong Kong, que é o lugar onde a China utiliza para captar dólares. Em contrapartida, os americanos usam Hong Kong para acessar o mercado chinês.

Será que a China tem alguma chance de fazer com que sua moeda, o renminbi, dispute a condição de reserva de valor global com o dólar?

Primeiro, há uma questão militar.

Ninguém investe em defesa como os Estados Unidos fazem...

A China está em segundo lugar, tem o domínio militar forte. Apesar do poderio chinês se mostrar dominante apenas na Ásia, os Estados Unidos não querem dar espaço para a China.

As tensões no Mar do Sul da China podem causar muitos problemas.

No campo comercial, também temos uma disputa grande entre Estados Unidos e China. Empresas chinesas estão se tornando muito grandes, como a questão da Huawei, que já falamos aqui, a ZTE e a Alibaba, por exemplo.

Na China, por exemplo, não se usa WhatsApp, mas se usa WeChat, que é muito mais avançado.

Uma terceira condição é ter um sistema jurídico respeitável. O que é conhecido em inglês como Rule of Law. E obviamente os Estados Unidos tem um sistema respeitadíssimo. Mas na China continental, não.

Mas em Hong Kong sim. Que apesar de ter domínio chinês, mantém seu próprio sistema.

Por isso que eu disse ontem que as manifestações que levaram um milhão de pessoas para as ruas no domingo representam um risco maior para o mundo. Uma ruptura agora entre Estados Unidos e Hong Kong pode ser uma ameaça que deve dificultar a situação.

O quarto item é ter um sistema financeiro de grande porte. Nova York de um lado, Hong Kong de outro.

Mas a quinta, uma condição anunciada por Louis Vincent Gave, em seu livro Clash of Empires, é ter o controle das vias marítimas. Se você olhar o controle de tráfego marítimo global, vai ver uma quantidade enorme de navios... E os Estados Unidos tem uma presença forte, como no Estreito de Ormuz, para proteger o petróleo.

O Petróleo sempre foi o produto comercial que mais demandou proteção militar. Por isso se tem uma presença forte americana no Estreito de Malaca, que fica entre a Malásia e a Indonésia.

Os americanos controlam aquele estreito, onde passam navios destinados à China e ao Japão. Tanto é que houve a especulação de que a China construiria um túnel, atravessando a Tailândia, para driblar o controle americano no estreito...

Como a China pode ocupar um espaço relevante no mundo sem ter o controle das vias marítimas?

Acontece que o Petróleo vem perdendo a importância, e o que vem ganhando importância são os dados. E aí, o que o Louis especula, é que a possibilidade de que um império terrestre substitua um império marítimo. Esse projeto terrestre seria o Belt and Road, que ligaria a China ao norte da África e à Europa, colocando inclusive cabos de fibra óptica por toda a região.

Essa parece ser uma alternativa viável...

Ontem, inclusive, em entrevista à CNBC, Donald Trump falou que os gênios do Vale do Silício são muito melhores que os cientistas chineses...

Então, a própria fala de Trump diz respeito à essa ameaça. Se não fosse uma ameaça, Trump sequer tocaria no assunto.

Toda essa questão é levantada pelo comitê que eu citei ontem...

Por hoje, eu fico por aqui.

Amanhã eu volto para falar um pouco mais sobre mercado.

Um abraço, muito obrigado pela sua atenção, e até amanhã!

Grande abraço.

Marink.

A Inversa é uma Casa de Análise regularmente constituída e credenciada perante CVM e APIMEC.

Todos os nossos profissionais cumprem as regras, diretrizes e procedimentos internos estabelecidos pela Comissão de Valores Mobiliários em sua Instrução 598, e pelas Políticas Internas estabelecidas pelos Departamentos Jurídico e de Compliance da Inversa.

A responsabilidade pelas publicações que contenham análises de valores mobiliários é atribuída a Felipe Paletta, profissional certificado e credenciado perante a APIMEC.

Nossas funções são desempenhadas com absoluta independência, não sendo dotadas de quaisquer conflitos de interesse, e sempre comprometidas na busca por informações idôneas e fidedignas visando fomentar o debate e a educação financeira de nossos destinatários.

O conteúdo da Inversa não representa quaisquer ofertas de negociação de valores mobiliários e/ou outros instrumentos financeiros. Os destinatários devem, portanto, desenvolver as suas próprias avaliações.

Todo o material está protegido pela Lei de Direitos Autorais e é de uso exclusivo de seu destinatário, sendo vedada a sua reprodução ou distribuição, seja no todo ou em parte, sem prévia e expressa autorização da Inversa, sob pena de sanções nas esferas cível e criminal.  

Conteúdo protegido contra cópia