A Guerra Comercial: Episódio 5: Fique de olho em Hong Kong

Marink Martins Publicado em 10/06/2019
21 min
Um dos maiores especialistas em mercados internacionais vai apresentar para você tudo que você precisa saber sobre a Guerra Comercial e vai dizer o que fazer com o seu patrimônio diante dos impasses políticos entre EUA e China. Ouça agora mesmo.

Ouça abaixo o quinto episódio da série de podcasts sobre a Guerra Comercial entre os EUA e a China.

Leia a transcrição abaixo:

 

Olá, leitor Inversa.

Seja muito bem-vindo ao quinto episódio da nossa série de podcasts especiais sobre a Guerra Comercial entre os Estados Unidos e a China.

E na sexta-feira, eu prometi a vocês que faria um podcast especial sobre Hong Kong.

E não foi coincidência que, neste domingo, o mundo testemunhou uma grande manifestação em Hong Kong, onde quase 1 milhão de pessoas foram às ruas protestarem contra uma intervenção chinesa.

E essa intervenção se dá da seguinte forma: o Partido Comunista Chinês influencia o governo de Hong Kong e mantém 43 dos 70 votos para as decisões tomadas naquela região.

Então, estamos diante de um cenário onde uma importante mudança está para ocorrer, como Louis Vincent Gave atribui uma elevada probabilidade para que ela ocorra. Essas mudanças podem trazer repercussões globais, que podem mexer com seu próprio bolso aqui no Brasil.

Então vamos lá... O assunto é complexo, mas eu conto com a sua paciência e compreensão.

Tivemos um final de semana agitado. Começou na sexta-feira com Trump suspendendo as tarifas para o México. Trump acabou saindo bem na foto, com uma imagem de negociador. Entretanto, ele estava sofrendo pressão do próprio Partido Republicano.

Isso é algo que vem contribuindo para uma valorização nas bolsas nesta manhã.

Mas tão importante quanto isso foi uma fala do secretário do tesouro americano, Steven Mnuchin, quando citou que Trump adoraria impor tarifas aos US$ 300 bilhões adicionais de importações chinesas.

Caminhamos, portanto, para uma solução durante a reunião no fim do mês, em Osaka. Trump deve se encontrar com Xi Jinping e perguntar se os chineses vão aceitar o acordo proposto no primeiro trimestre, ou se irão confrontar os americanos.

Como disse, não sabemos o desfecho. Arthur Kroeber atribui uma probabilidade de 2/3 para uma guerra de exaustão, ad eternum.

Mas tudo isso pode mudar rapidamente.

Bom, vamos falar sobre Hong Kong.

Quero falar especialmente de um texto, do gestor Kyle Bass.

Ele escreveu um texto chamado quiet panic in Hong Kong (pânico em silêncio em Hong Kong).

Esse texto foi bastante difundido pela mídia, especialmente pela CNBC, e traz uma previsão da desvalorização da moeda de Hong Kong.

Se isso vier a acontecer, seria algo calamitoso.

Além disso, Bass prevê um problema bancário em Hong Kong, e ainda comenta que essa lei de extradição pode culminar no encerramento do acordo entre Estados Unidos e Hong Kong.

Por isso, Kyle Bass faz previsões duras, que se ocorrerem, podem jogar os mercados globais em cenário de alta volatilidade.

Bass também ficou famoso por ter escrito um texto em 2011 chamado the cognitive dissonance of it all, onde ele prevê o colapso da economia japonesa.

As previsões de Bass sobre a economia japonesa não se concretizaram. Assim como as apostas dele contra a China...

Kyle Bass é bastante próximo à Steve Bannon, cujo já falei aqui em outras oportunidades.

Bannon não faz mais parte do governo Trump, mas como estrategista, participou ativamente da eleição do presidente norte-americano.

Steve Bannon fundou um comitê, que corrobora a tese de uma guerra interna nos Estados Unidos, onde a soberania nacional está de um lado, e Wall Street e outras empresas americanas estão do outro.

Nessa tese da soberania nacional, o Steve Bannon está presente no Committee on the Present Danger, que foi criado em 1950 e serviu para fazer lobby em Washington contra as causas soviéticas. Depois, em 1976, teve uma forte iniciativa com George H.W Bush, que era presidente da CIA.

As diretrizes desse comitê nortearam a política externa de Reagan no sentido de combater a União Soviética.

Esse comitê é formado por pessoas extremamente influentes, como membros da CIA, militares reformados, políticos como Newt Gringrich, que foi muito importante nos anos 1990.

O comitê se reuniu novamente em 2004, contra o terrorismo, e agora em 2019, contra a China.

Trump acatou as diretrizes tomadas pelo comitê e não só impôs tarifas, como impôs sanções à empresa de telefonia chinesa Huawei. Tais sanções certamente contaram com a influência do comitê conhecido como CPD, que é visto como de extrema-direita.

Antes de falar sobre os argumentos do Kyle Bass, vale falar sobre o século de humilhação na China. Para isso, voltamos à 1840, na primeira guerra do ópio, onde a China foi derrotada pela Inglaterra. Então, por 100 anos, a China perdeu todas as guerras e batalhas que disputou, e segundo os chineses, sofreu muita humilhação durante aquele período.

Os chineses acreditam ainda, que todos os tratados nos quais eles foram obrigados a se submeterem, foram desiguais.

É principalmente disso que Xi Jinping reclama hoje em dia. E como eu já disse, o pai de Xi Jinping esteve à frente da grande marcha de 1934, que culminou na ascensão de Mao Tsé-Tung e na Revolução Chinesa.

A China não quer reviver essas humilhações. Eles querem retomar a hegemonia e tem até data para isso. Pretendem chegar ao topo em 2049. Talvez não de forma global, mas pelo menos de forma absoluta na Ásia, e como o mundo todo caminha para a Ásia, seria como uma hegemonia global.

E por isso que esse CPD está tão preocupado com a possível hegemonia chinesa.

Voltando à Kyle Bass e à tese da desvalorização da moeda de Hong Kong, isso poderia levar à um risco global. Por que se isso acontecer, a moeda chinesa pode também sofrer uma desvalorização e ir para 7,20 ou 7,30 (por real), é pouco provável que o real se segure nestes atuais níveis. Desta forma, ativos de risco tendem a sofrer.

De forma análoga, se houver um acordo que leve a moeda chinesa a se valorizar, ativos de risco tendem a se beneficiar.

Então, falando um pouco mais da moeda de Hong Kong. Vale lembrar que Hong Kong foi passado do Reino Unido para a China em 1997. E vinte anos antes, reuniões secretas entre Margaret Tatcher e Deng Xiaoping, que era o representante da China, já haviam se reunido para discutir como essa transição ocorreria, e isso levou à uma desvalorização da moeda chinesa e ao câmbio fixo contra o dólar americano, em 1983.

Em 1992 foi assinado um acordo com os Estados Unidos, e em 1997 houve essa transição de controle de território.

Nessa transição, a China concordou e manter o território independente. Sem influenciar nas questões econômicas e nas questões jurídicas, que são justamente o ponto de discussão.

Porém, existe um sistema monetário sólido em Hong Kong. Para cada dólar de Hong Kong emitido, tem que haver um dólar americano em reserva. Esse é o lastro da moeda de Hong Kong, que é emitida pelo Banco da China, pelo HSBC e pelo Stardard Chartered.

O Louis Vincent Gave que é a pessoa que eu mais admiro, fundador da Gavekal, respondeu de forma brilhante ao Kyle Bass. Para Gave, a moeda não vai se desvalorizar.

Para se desvalorizar, teria que haver uma divergência fiscal entre Estados Unidos e Hong Kong, como por exemplo Hong Kong gastar muito mais (em termos proporcionais) do que os Estados Unidos.

Isso aconteceu com o Brasil em 1997. Nós não conseguimos fazer as reformas necessárias, então foi mais fácil desvalorizar. Caso não tivéssemos feito isso, entraríamos em recessão.

Vale lembrar que Hong Kong foi o único país asiático a manter o câmbio fixo. Eles aumentaram bastante a taxa de juros durante a crise asiática de 1997, mas o câmbio permaneceu fixo.

A alta na taxa de juros de Hong Kong provocou um colapso no mercado imobiliário local, em 1997. O preço dos imóveis caiu cerca de 70%. Imóveis perdem sim valor. Principalmente em termos de moedas fortes. Por exemplo: os imóveis no Brasil, que em reais ficaram mais caros, sofreram uma megadesvalorização em dólares.

Portanto essa é a minha função aqui na Inversa, transformar você em um investidor global, para pensar em moeda forte!

Voltando ao assunto, Louis Gave diz que não há ninguém em Hong Kong interessado na desvalorização da moeda. Em Hong Kong você tem 3 setores muito importantes: setor imobiliário, setor financeiro e setor de portos (comércio exterior). Kyle Bass afirma que a importância de Hong Kong para a China é cada vez menor. Louis concorda, mas apenas para o setor de exportação. No setor financeiro, Gave discorda de Bass pois é por Hong Kong que a China capta seus dólares. É também uma plataforma para as empresas americanas que acessam o mercado chinês através de Hong Kong. Aquela região é uma grande resposta da China para Nova York.

Hong Kong é hoje o principal centro financeiro da Ásia. A capitalização de mercado em Hong Kong acaba de superar a de Tóquio. O preço dos imóveis está novamente muito caro. Confesso que isso me intriga...

Um aluguel de um escritório pode chegar aos US$ 50 mil...

Como pode um cidadão de Hong Kong comprar um imóvel?

A tributação de Hong Kong é de 15% sobre o salário, enquanto na China continental é de 45%, em Nova York é de 35 a 40%...

O Louis afirma que se diminuíssem a carga tributária em Nova York para os mesmos 15% de Hong Kong, o preço dos imóveis em Manhattan (que já são elevados), ficariam loucos igual aos do pequeno país asiático.

Além disso, apenas 3% da área de Hong Kong é destinada à imóveis, o que acaba tornando a área disponível muito cara.

E não há interesse em abaixar os preços. O lobby do setor imobiliário em Hong Kong é muito forte. Eles prezam muito pela estabilidade.

É muito mais fácil de casar ativos e passivos quando se tem o câmbio fixo.

Além disso, Hong Kong tem uma situação fiscal muito mais vantajosa do que a dos Estados Unidos.

Eles têm superávit primário, enquanto os EUA apresentam déficit.

Hong Kong é composto por imigrantes, e estes trazem muita garra e determinação, para onde quer que vão.

A Olivia Alonso, CEO da Inversa, disse ontem no Sunday Notes como foi sua experiência na China, e de seu convívio com estudantes chineses.

Eu também tive essa oportunidade quando estudei nos Estados Unidos... Eles são realmente muito dedicados.

Então, o Louis argumenta diz que não procede a afirmação de Bass sobre a desvalorização da moeda. Os bancos estão ligados à Inglaterra, mas mesmo que esta não fosse ao resgate, a China iria. Dessa forma, não permitiria que Hong Kong desvalorizasse sua moeda.

Também, não há interesse de Trump em permitir uma desvalorização na moeda chinesa pois isso elevaria a competitividade dos produtos chineses. Não é isso que o Trump quer... Trump quer se reeleger.

Por isso, a lei da extradição deve ser aprovada, e isso pode representar um grande set back para o cidadão de Hong Kong e para o mundo de uma forma geral.

É isso que tenho para falar hoje. Gostaria de falar mais, porém, ficaria muito longo...

Amanhã, quero falar sobre o que precisa para ter a reserva de valor global?

Naturalmente, o Dólar não vai perder sua posição, mas deve abrir um pouco de espaço para o Renminbi.

Mas quais são as características para que isso aconteça?

Vou comentar amanhã...

Continue comigo, mande seu comentário e muito obrigado pela sua atenção.

Um grande abraço.

Marink.

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