A Guerra Comercial: Episódio 4: Ganhadores e Perdedores

Marink Martins Publicado em 07/06/2019
17 min
Um dos maiores especialistas em mercados internacionais vai apresentar para você tudo que você precisa saber sobre a Guerra Comercial e vai dizer o que fazer com o seu patrimônio diante dos impasses políticos entre EUA e China. Ouça agora mesmo.

Ouça abaixo o quarto episódio da série de podcasts sobre a Guerra Comercial entre os EUA e a China.

Leia a transcrição abaixo:

 

Olá, leitor Inversa.

Seja muito bem-vindo ao quarto episódio dos nossos podcasts especiais sobre a Guerra Comercial entre Estados Unidos e China.

E como eu prometi, hoje vou falar sobre mercado.

E quando eu inicio alguma apresentação sobre a Economia Global, eu mostro os três principais preços na economia.

Na verdade, esses preços são um triângulo entre o dólar, a taxa de 10 anos do título americano, e o petróleo.

O petróleo é visto como um imposto global.

Quando o petróleo sobe muito, a gente tem uma transferência de renda dos Estados Unidos para o Oriente Médio, e vice-versa.

Agora, estamos em uma tendência de queda no preço do petróleo.

Temos também um quarto elemento, que é o spread.

O spread é o diferencial de taxas entre as do título de 10 anos dos Estados Unidos e as dos especulativos americanos, chamados de high-yield.

Quando temos um cenário adverso, esse spread tende a se alargar, podendo se tornar até algo problemático.

Mas vamos falar aqui de quem se beneficia dessa guerra e de quem sofre com ela...

Como diz o Jim Cramer, existe sempre algum bull Market acontecendo em algum lugar.

Existe sempre um mercado altista...

Mas é mais fácil falar de uma deterioração global, porque o mundo se beneficiou bastante de um processo de globalização iniciado com a queda do Muro de Berlim, e depois com a inclusão da China na Organização Mundial do Comércio, na virada do milênio.

Estes dois fatores contribuíram para o desenvolvimento de uma cadeia de suprimentos global.

A China, no primeiro momento, foi uma grande exportadora, com mão de obra barata. Com o tempo, a China soube muito bem utilizar o capital vindo das exportações, construindo um parque industrial muito forte e realizando uma política fiscal expansionista, que já dura muitos anos.

É um país extremamente endividado, mas vale dizer que sua dívida é interna.

Teoricamente, a dívida interna é mais fácil de ser resolvida. Alguns cogitam impostos sobre herança, o que parece engraçado, mas tem um certo fundamento.

Fato é que é menos problemático dever na sua própria moeda do que em moeda estrangeira.

Já vimos o FMI ter que salvar a Turquia, a Argentina...

Vou compartilhar com você a palavra dos estrategistas da Gavekal. Mais precisamente, é a visão de Arthur Kroeber.

Ele coloca 2/3 de chances de isso se tornar uma guerra de exaustão, o que é extremamente negativo para ativos de risco.

Os maiores mecanismos de proteção seriam ficar no dólar, num título de curto prazo, e também nos títulos chineses. O mercado chinês se encontra em processo de abertura...

Há também um terço (1/3) de chance de negociação, que viria logo após a reunião do g20, que está marcada para o fim de junho, em Osaka, no Japão. Esse processo de negociação deverá se concretizar mais próximo do fim do ano, talvez no começo do ano que vem. Isso seria muito positivo para ativos de risco, como tecnologia e mercado emergente.

Então são 2/3 de chance de deterioração dos mercados, ou seja, eles terão que cair um pouco, e 1/3 de chance de negociação, que seria positivo para os mercados.

Há quem diga que isso é fruto de uma estratégia genial de Donald Trump, que estaria segurando a barra para forçar o FED a diminuir a taxa de juros no fim do ano. Dessa forma, ele poderia entrar em ano eleitoral com estímulos fiscais, o que acaba sendo bastante popular.

Teoria da conspiração? Não sabemos. Mas é uma narrativa interessante.

Mas quais os dois vetores que os estrategistas estão olhando para fazer suas pesquisas?

Primeiro, a importância da corrente de comércio de um país relativa ao seu próprio PIB.

Corrente de comércio é a soma da exportação com a importação.

E o PIB é o Produto Interno Bruto, ou seja, tudo o que é produzido em um país num determinado espaço de tempo (um ano).

O PIB corresponde à uma única equação: PIB=C + G + I + (X-M).

Sendo C o consumo das famílias, G o consumo do governo, I o investimento em capital fixo e (X-M) a diferença entre exportações e importações.

A análise feita aqui é a divisão de (X-M) por C + G + I. Ou seja: qual o percentual do comércio no PIB...

Algumas pessoas brincam ainda que a guerra comercial é entre os Estados Unidos e a China, mas quem paga a conta é a Europa.

Lembre-se que esta é uma visão predominante da Gavekal, mais precisamente de Louis Vincent Gave e de Charles Gave, e que estes possuem uma visão negativa do Euro.

Para Charles Gave, o grande risco do mundo está na Alemanha. Olhe para a ação do Deutsche Bank... Faça uma comparação com a ação do Itaú ou do J.P Morgan e você vai entender que essa visão tem fundamento.

Os bancos europeus não foram recapitalizados como os bancos americanos foram após a crise de 2008. Então, temos uma situação em que o Euro estaria com os dias contados.

O Euro gerou muitos imóveis a serem comprados na Espanha, muitos funcionários públicos na França, muitas fábricas na Alemanha, e muito desemprego na Itália. Em algum momento, o italiano vai fazer um plebiscito, e perguntar: quem é que manda aqui? Os tecnocratas de Bruxelas (União Europeia) ou nós mesmos (italianos)?

Charles Gave tem certeza de que a resposta será “nós mesmos”....

O partido Lega deve romper com o Five Star Movement, e nesse momento, a Itália sairia da zona do Euro.

A partir daí, a dívida italiana seria convertida de euros para, digamos, liras italianas. Então, isso quebraria os bancos alemães.

O mercado já antecipa isso... Como eu disse, basta olhar ao Deutsche Bank, que é o principal banco alemão. O DB está quebrado...

Voltando às correntes de comércio, a dos Estados Unidos representa somente 20%, da china 35% e da Europa mais de 50%.

Além disso, na China e nos Estados Unidos ainda há espaço para a implementação de política fiscal expansionista. Mas isso não acontece na Europa.

A China tem sua dívida interna grande, assim como os Estados Unidos. Mas os americanos são os detentores da reserva de valor global, que é o dólar. E eles tem a prerrogativa de “imprimir” dólar sem sofrer efeitos inflacionários como o aconteceria no Brasil.

Estes são, então, os dois vetores que discuti.

Não dá para fazer previsão de qual ativo vai subir, ou se valorizar. Então, a mensagem é: caso ocorra o cenário de uma deterioração oriunda da guerra comercial, vá para ativos de curto prazo.

Caso contrário, vá para ativos de risco.

Que neste caso seriam ações de Facebook, Apple, Amazon, Google nos Estados Unidos.

Ou papéis de países como Brasil, Coréia do Sul e outros emergentes.

Mas o investidor deve mesmo focar na variável dólar e sua interação com o resto do mundo.

O dólar hoje é visto como sobrevalorizado... Se houver um acordo, pode ser que o dólar se desvalorize.

Caso o dólar de desvalorize, você como investidor deve ficar atendo ao DXY, que se refere ao dólar index, e funciona como uma espécie de monitor do dólar.

O DXY tem se mantido estável, e em caso de um agravamento da situação, ou seja, se o dólar se valorizar ainda mais, isso pode ser negativo para o Brasil.

Nesse caso, o pessoal deve migrar para os títulos de renda fixa americanos, que funcionam como porto seguro do mundo.

Por outro lado, se o dólar se manter estável ou até mesmo perder valor, isso pode ser extremamente positivo para o Brasil, ainda mais se fizermos a reforma.

Estou diante de um relatório aqui que questiona se os efeitos da guerra comercial caminham para um processo inflacionário ou deflacionário. Tudo indica que seja deflacionário, vide as taxas dos títulos americanos e o petróleo.

Mas há quem diga que não seja deflacionário...

Podemos ter um aumento de preços na indústria automotiva... Isso vai fazer com que o carro fique mais caro para o consumidor americano.

Então, temos uma situação que a análise do dólar é o ponto central da questão.

É aqui que vou encerrar o podcast de hoje...

Mas quero fazer um convite para você, para não perder meu podcast na segunda-feira, onde quero falar sobre Hong-Kong... Vou falar inclusive de um acordo entre os Estados Unidos e Hong-Kong, que possui moeda atrelada ao dólar.

Então, não perca nosso podcast na segunda. Tem Hong-Kong e muito mais por vir nos próximos podcasts.

Desejo a você um ótimo final de semana,

Muito obrigado pela sua atenção.

Não se esqueça de deixar seu comentário...

Até segunda!

Grande abraço.

Marink.

 

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