A Guerra Comercial: Episódio 3: O jogo de Xadrez

Marink Martins Publicado em 06/06/2019
15 min
Um dos maiores especialistas em mercados internacionais vai apresentar para você tudo que você precisa saber sobre a Guerra Comercial e vai dizer o que fazer com o seu patrimônio diante dos impasses políticos entre EUA e China. Ouça agora mesmo.

Ouça abaixo o terceiro episódio da série de podcasts sobre a Guerra Comercial entre os EUA e a China.

Leia a transcrição abaixo:

 

Olá, leitor Inversa.

Seja muito bem-vindo ao terceiro episódio do nosso podcast especial sobre a Guerra Comercial entre os Estados Unidos e a China.

Primeiramente, quero agradecer a você pelo seu envolvimento com este podcast. Os comentários estão muito legais, estou adorando fazer estes podcasts para vocês.

Mas vamos ao que realmente importa:

Hoje mesmo, Trump voltou a mencionar que pode sancionar tarifas adicionais sobre os US$ 300 bilhões referentes ao restante das importações vindas da China.

Ele já havia colocado tarifas de 25% nos primeiros US$ 200 bilhões, e ameaça tarifar também um valor adicional.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, Xi Jinping se encontrou com Vladimir Putin, firmando uma aliança de longo prazo.

Esses eventos se encaixam perfeitamente na temática que eu vou explorar aqui.

Ontem, falei de 4 alternativas de contra-ataque da China, onde afirmei que todas eram de baixa probabilidade.

Pra hoje, prometi que ia te falar outras duas alternativas, e já adiantei que estas são de alta probabilidade.

Na verdade, elas até já estão em curso...

A primeira delas é um redirecionamento das importações chinesas.

O chinês compra muito. São mais de 1 bilhão de pessoas em território chinês, e este é um país que cresce à taxas extremamente elevadas.

Quando digo que esta alternativa já está em curso, me refiro ao fato de que várias empresas chinesas de tecnologia afirmam que estão trabalhando com vários meses de estoque, de diversos itens.

Como as disputas caminharam da frente comercial para a frente tecnológica, o resultado foi que várias empresas antecipassem suas compras. E isso é comum quando acontece essas coisas.

O curioso é que a indústria de semicondutores é uma que se vangloria de operar com a estratégia just in time, ou seja, de não carregar estoque.

Mas logo depois daquela intervenção na ZTE, o mundo mudou. O receio com aquele momento foi tão grande que as empresas mudaram suas estratégias e passaram a operar com estoques.

Isso fez com que os estrategistas pensassem o seguinte: vocês se lembram das preocupações com o bug do milênio? Pois é...

Houve também uma antecipação de demanda, devido ao medo do que poderia acontecer.

E isso trouxe problemas a respeito da demanda subsequente. Houve uma certa queda na atividade econômica nos meses subsequentes. Isso não aconteceu somente com a indústria de semicondutores... Aconteceu também com o petróleo!

E a gente vê que o petróleo está caindo bastante. Está batendo a mínima...

E uma das razões pode ser que a China registrou um pico de compra no final do ano passado. Justamente num período em que o mundo temia uma recessão global.

Por um lado, tem gente que afirma que os americanos poderiam espremer os chineses, fazendo o preço do petróleo subir. Mas pensando bem nisso, o americano não teria nenhum interesse em aumentar o preço do petróleo.

Isso poderia gerar um processo inflacionário nos Estados Unidos, e resultaria num aumento de juros pelo Banco Central Americano (Federal Reserve).

Apesar disso, nota-se que o americano está se tornando indiferente em relação ao preço do petróleo. Hoje, eles podem produzir 12 milhões de barris de petróleo por dia. E tem gente dizendo que eles já podem produzir 17 milhões...

O fato é que eles estão se tornando cada vez mais independentes na produção de petróleo, e isso pode fazer com que uma alta no preço do petróleo beneficie uma área do país, enquanto outra paga a conta. Mas isso não necessariamente irá criar um problema.

Já para a China isso seria um problema. Então o chinês, já sabendo disso, foi lá e se antecipou, comprando bastante petróleo.

Há uma tese de que os chineses possam vir a provocar um estrago no setor de Shail Gas & Oil (Gas de Xisto e Petroleo).

Talvez você se lembre de quando o preço do petróleo bateu US$ 30, entre o fim de 2015 e o começo de 2016, muitas pessoas acharam que as petrolíferas e demais empresas do setor fossem quebrar, pois elas são bem endividadas.

Essa seria uma forma pela qual os chineses poderiam contra-atacar.

Então, os chineses compraram semicondutores e petróleo pra caramba... Será que isso pode fazer com que a demanda nos próximos meses caia? Essa é a grande questão.

Mas os chineses também sabem que o estoque vai acabar. Se você for pego a descoberto, você pode tomar uma alta de preço, e aí terá que se precaver.

Então não é a toa que um acordo de longo prazo com a Rússia seria interessante.

Você sabe onde estava Xi Jinping ontem? Se você respondeu Moscou, você acertou em cheio...

Vamos agora à sexta e última alternativa, também de alta probabilidade.

Para mim, esta é a mais fascinante de todas, e diz respeito à questão geopolítica. A China possui duas cartas na manga: Coréia do Norte e Taiwan.

A China é a grande amiga da Coréia do Norte, que precisa de Xi Jinping para sobreviver.

Assim, a China pode fazer com que Kim Jong-Un seja relevante de duas formas. A primeira: aterrorizando os Estados Unidos e o resto do mundo da maneira tradicional: lançando mísseis e promovendo testes nucleares. E a segunda é que a Coréia do Norte seja utilizada como instrumento de barganha em uma eventual negociação com os Estados Unidos.

Essa segunda alternativa é vista como de baixíssima probabilidade, pois os especialistas em geopolítica afirmam que poderia ser uma certa humilhação para o Partido Comunista Chinês em entregar seu único aliado por muito pouco.

Talvez seja por isso que a moeda da Coréia do Sul seja uma das que registram as piores performances no ano. Então a última carta na manga é Taiwan.

E no último verão americano, logo após a crise provocada pelas restrições que os americanos colocaram em relação à ZTE, eles ameaçaram bloquear as exportações de semicondutores para a China.

Então, o exército chinês fez a maior exibição de força feita na última década no estreito de Taiwan. Os russos costumavam fazer isso: botar os tanques nas ruas e mostrar seu poderio militar.

Os estrategistas que eu acompanho resumiram bem o pensamento da seguinte forma: se o chinês concluir que os americanos irão bloquear o acesso aos semicondutores, eles podem ir buscar eles mesmos. Eles sabem exatamente onde encontrar.

E curiosamente, nesse momento, os Estados Unidos estão negociando uma venda de US$ 2 bilhões em armamentos para Taiwan, e isso certamente vai jogar lenha na fogueira.

Em janeiro, Xi Jinping deixou claro que ele deseja resolver de forma rápida esse problema com Taiwan de forma pacífica, mas não descartou o uso da força se necessária.

E durante um evento nesse último final de semana, o ministro da defesa chinês, Ren Zhengfei, pediu para que os Estados Unidos não se metam no assunto Taiwan, nem em qualquer assunto do Mar do Sul da China.

Agora, imagine os americanos ouvindo isso e logo em seguida decidindo vender os armamentos para Taiwan.

O negócio está esquentando por ali...

Pode ser que de fato os conflitos saiam da frente comercial e passem à de recursos humanos, conforme falei ontem.

Falei ontem também da Fei Fei Li, que é a grande estrela da inteligência artificial, professora da Universidade de Stanford. No final do ano passado, estive visitando a California, fui à Universidade da California em Berkeley e à Stanford. E acredite: só tem orientais por ali. Os chineses endinheirados estão na California, estão em Vancouver, em Sidney...

Eles estão em todo lugar. Provocando uma grande inflação de preços e buscando conhecimento.

Arthur Kroebel é o chefe de pesquisa da Gavekal e é uma das pessoas que mais sabem do assunto.

Ele esteve no Brasil há dois meses, na Casa das Garças, e eu estive lá.

Foi um privilégio, pois eu estava ao lado de embaixadores.

Arthur disse que se tem algo que tira seu sono, é uma possível invasão chinesa à Taiwan. Como será a reação dos americanos?

Isso não seria algo de curto prazo. Ele disse que se isso acontecer, deverá ser no fim da próxima década.

E aqui, penso que Arthur Kroebel está pensando cada vez mais como o Louis Vincent Gave, no sentindo de que cada vez mais todos acreditam que o alto escalão do Partido Comunista Chinês inteiro leu o livro de Mao Tsé-Tung.

E muita gente diz: essa é a única forma de bater os americanos, pois estes são muito mais fortes. E de fato são.

Mas a narrativa é essa. O chinês é o “fraco” da história, mas a única maneira deles obterem uma vitória é através de uma estratégia de guerrilha.

Eu sou um fã de Michael Gladwell, li Davi e Golias e a única forma de Davi vencer Golias é através de um ataque surpresa.

Quais são os ativos que se beneficiam? Quais são os países que estarão vulneráveis?

Então, deixe lá seu comentário.

Muito obrigado pela sua atenção e conto com você amanhã.

Um abraço.

Marink.

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