A Guerra Comercial: Episódio 2: Contra-ataque chinês

Marink Martins Publicado em 05/06/2019
8 min
Um dos maiores especialistas em mercados internacionais vai apresentar para você tudo que você precisa saber sobre a Guerra Comercial e vai dizer o que fazer com o seu patrimônio diante dos impasses políticos entre EUA e China. Ouça agora mesmo.

Ouça abaixo o segundo episódio da série de podcasts sobre a Guerra Comercial entre os EUA e a China.

 

Leia a transcrição abaixo:

 

Olá, leitor Inversa.

Seja muito bem-vindo ao nosso segundo podcast especial sobre a Guerra Comercial entre os Estados Unidos e a China.

Finalizei o episódio de ontem discutindo alternativas de contra-ataque para os chineses em meio às restrições propostas por Trump no dia 05 de maio.

Curiosamente, Trump escolheu o 05 de maio, que é uma data muito especial para os mexicanos.

Na verdade, essa data é muito mais celebrada nos Estados Unidos, por expatriados mexicanos. É dia de tomar uma cerveja Corona...

Neste dia, comemora-se a vitória improvável dos mexicanos sobre os franceses na batalha de Puebla em 1862.

Pois é...

Trump escolheu justamente o dia 05 de maio... Pouco tempo depois, ele voltou a atacar justamente os mexicanos...

Mas vamos com calma. Vamos falar do que interessa: China.

Muitos de vocês, leitores da Inversa, querem saber como o Brasil pode ser afetado pela Guerra Comercial.

Ontem falei dos metais de terras raras, e lembrei que aquilo não fazia sentido, pois a China não quer destruir um mercado o qual ela domina. Já vimos isso com o Petróleo, e isso não faz sentido...

Essa alternativa de represália chinesa seria a primeira, mas eu atribuí a ela baixa probabilidade de acontecer.

A segunda alternativa é criar dificuldades para as empresas americanas atuando na própria China.

E aqui vale destacar, que quando os chineses querem, eles conseguem fazer um movimento muito nacionalista de boicote. Eles fizeram isso com o Japão, boicotando os produtos japoneses em 2012, tudo por causa da disputa sobre o controle de pequenas ilhas ao norte de Taiwan.

A preocupação não é exatamente a queda da rentabilidade das empresas chinesas devida às tarifas. A preocupação do governo chinês é justamente que seu parque industrial seja transferido para algum outro país, como Vietnã e Indonésia. Porém, esse evento também possui baixa probabilidade.

Primeiro, porque o parque industrial chinês é muito mais avançado e tecnológico... O Vietnã não conseguiria absorver nem 20% desse processo.

Isso demandaria muito tempo, e poderia se transformar em um processo inflacionário. Além disso, é difícil deslocar tantas pessoas de um país para outro... E isso é muito custoso.

Um outro tema importante na segunda alternativa é que essas empresas americanas que atuam na China, são em parte aliadas do governo chinês, porque elas se beneficiam do grande mercado consumidor da China. E eles representam um grande lobby em Washington, com políticos americanos.

O próprio Steve Bannon, que foi estrategista de Trump, denuncia essa relação incestuosa entre as empresas americanas e o governo chinês.

Bannon quer que Trump interrompa o acesso dessas empresas ao mercado de capitais americano. Isso seria o caos, porém bastante improvável de acontecer.

E os falcões da soberania nacional estão em oposição aos grandes empresários americanos, como a Apple, que quer desfrutar do mercado consumidor chinês. Além dela, Starbucks, Tesla, montadoras de automóveis, todo mundo quer..

Então, o que é curioso aqui, é que há uma situação muito mais complexa, uma guerra interna nos Estados Unidos.

E essa é uma guerra oculta. Você jamais irá ver o Tim Cook, da Apple, defendendo a China. Portanto, lembre-se que essa é uma alternativa de baixa probabilidade.

A terceira e última alternativa é a mais discutida, e de fato gerou um debate acalorado entre os estrategistas que eu sigo. Tem-se falado muito numa possível política de desvalorização do Renminbi, que é a moeda oficial da China. O Yuan é somente uma unidade de conta, que acabou virando um nome paralelo para a moeda chinesa.

O fato é que quando Trump anunciou, em 05 de maio, que tributaria US$ 200 bilhões em importações vindas da China seriam tributados em 25%, e que os US$ 300 bilhões adicionais poderiam entrar nessa faixa de tributação também, provocou-se uma desvalorização do Yuan, que saiu de 6,75 por dólar para algo em torno de 6,90.

A partir daí, o mercado ficou preocupado. E é justamente daí que vem a resposta da pergunta feita pelo leitor Inversa: onde que o Brasil pode sofrer?

Nós, no Brasil, terminamos bem o mês de maio. A Bolsa se recuperou...

Mas lembra do começo de maio? Foi assustador...

E uma das razões para isso, não só os problemas internos, mas tivemos também uma grande ameaça de uma desvalorização da moeda chinesa. Porque se o Yuan for para 7,10 ou 7,20, a China passará a exportar deflação pelo mundo afora.

Isso seria extremamente negativo para os ativos de risco, inclusive os brasileiros.

Então está aí a resposta: uma das formas que a guerra comercial pode afetar o seu bolso é uma desvalorização da moeda chinesa frente ao dólar.

Mas, o que ocorreu logo em seguida foi uma reação chinesa.

Primeiro, o Xi Jinping fez um discurso na província de Jiangxi, onde falou sobre uma nova grande marcha, que foi um movimento realizado pelo Exército Vermelho em 1934. Eles recuaram de um combate com o Kuomitang, que era o partido dominante na China na época. Eles saíram dos centros, foram para as montanhas, e por lá ficaram por muitos anos.

O curioso é que este recuo foi anunciado por Xi Zhongxun, pai de Xi Jinping.

84 anos depois, o filho repetiu o discurso do pai...

Será que Jinping quis fazer referência à uma desvalorização do Yuan para a casa dos 7,30, dando o troco nos americanos?

Ou será que ele preferiu adotar o discurso do livro vermelho, recuando a China para não confrontar quem tem vantagens comparativas sobre eles, no caso, os Estados Unidos?

Ano que vem temos eleição nos Estados Unidos, e o déficit fiscal americano está num caminho explosivo... Caminhando para a casa dos 5% de déficit...

Muita gente diz que os Estados Unidos vivem numa “zona de cachinhos dourados”, com desemprego baixo e economia indo bem. Vale lembrar que o Brasil vivia uma zona de cachinhos dourados em 2010...

Se você for conversar com um professor da Universidade de Chicago sobre isso, nenhum irá concordar com essas afirmações.

Os Estados Unidos vivem de fato um bom momento, está com uma aparência muito boa.

Mas para quem está pensando um pouco mais a frente, nem tanto.

Stanley Druckenmiller, por exemplo, anunciou que zerou sua posição depois dos tweets de Trump no dia 05 de maio.

Então, tem muita gente preocupada. Isso pode fazer com que os chineses recuem, pois a situação só irá mais clara mais pra frente.

Portanto, todo aquele projeto da Nova Rota da Seda, que liga a China à Europa e à África, ou o projeto que fará a China ser líder em inteligência artificial em 2025, estão ambos em curso.

A pessoa que mais sabe de inteligência artificial no mundo se chama Fei-Fei Li, é chinesa, e está em Stanford, na California.

Sendo assim, além das 3 frentes já citadas, pode ser que tenhamos mais uma: a de recursos humanos. Os Estados Unidos podem passar a bloquear vistos, como o H1-B, por exemplo.

Porém, a terceira alternativa não possui as probabilidades tão baixas, visto que já aconteceu em partes.

A China quer de fato internacionalizar sua moeda, ela não quer ficar refém dos Estados Unidos tendo que comprar petróleo, minério de ferro, cobre e carvão com dólares.

Eles querem que essas commodities sejam negociadas em sua própria moeda. Esse é um processo demorado, e eles devem ter muita paciência.

Eu não estou torcendo para os chineses. Eu apenas estou trazendo uma narrativa, que é discutida no livro Clash of Empires, escrito por Louis Vincent Gave e Charles Gave, cujo eu traduzi. É o livro do ano... Ainda vamos falar bastante sobre ele.

E uma outra alternativa seria a venda de títulos do tesouro americano, os chamados Treasuries. Os chineses têm muitas reservas em dólar, e uma boa parte dessas reservas está em treasuries.

Muitas pessoas dizem que os chineses podem vender US$ 1 trilhão em treasuries que nada vai acontecer. Bom, eles já venderam cerca de US$ 600 bilhões entre 2014 e 2016. E sabe o que aconteceu? A taxa de juros americana acabou caindo...

Mas o fato é que essa alternativa não faz tanto sentido. Primeiro que essas vendas teriam que ser feitas em lotes...

Depois, o que eles fariam com tanto dinheiro? Se for para ficar parado no sistema bancário, o os próprios bancos recompram esses títulos.

E uma outra coisa, se você internar esse dinheiro, isso vai promover uma valorização dos produtos chineses, portanto, os estrategistas atribuem essa alternativa como de baixa probabilidade.

Então, para finalizar esse podcast: falei de quatro alternativas. A primeira é limitar as exportações de metais de terras raras, de baixa probabilidade. A segunda é dificultar as operações das empresas americanas atuando na China, de baixa probabilidade. A terceira é desvalorizar ainda mais sua moeda, no caso o Yuan, para a casa dos 7 por dólar, também de baixa probabilidade.

Existem outras duas alternativas, que eu quero discutir amanhã.

Por isso, leitor Inversa, se você gostou, deixe um comentário e faça uma pergunta. Isso me ajuda muito a desenvolver os podcasts e oferecer o melhor para você.

Muito obrigado pela sua atenção, e até amanhã.

Grande abraço!

Marink.

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