Mind the Gap #9 - Muitos titulares para poucos lançadores

Mercado de opções mostra alto número de compradores em relação à volume de vendedores, indicando provável estagnação

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Nota do editor: nas próximas linhas, Marink Martins vai mostrar a você como a observação da relação entre compradores e vendedores no mercado de opções deve ser um fator de atenção ao operar com derivativos. 
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Olá, leitor(a) Inversa!

Nas duas últimas newsletters, tentei chamar a sua atenção para a insanidade que vemos por aí nos mercados. 

Falei na edição da última semana, “Ações da Insanidade”, e comentei também sobre no texto “Anomalias de um mercado em ebulição”.

Caso tenha lido às newsletters, você provavelmente concluiu que permaneço a espera de uma derrocada nos mercados, talvez a curto prazo. 

Bem, não é bem assim: até acredito que essas ações estejam caras demais. 

Contudo há uma certa peculiaridade associada à dinâmica interna dos mercados que faz com que eu pense diferente. Na verdade, é bem provável que veremos um período de estagnação.

Mas por qual motivo estou falando isso?

Se você fizer uma consulta na bolsa, através do site da B3, pode verificar quais opções são mais ativas no mercado brasileiro.

Se você fizer isso, vai chegar a uma lista e ver que a Via Varejo vem sendo a mais negociada no contrato de opções no Brasil.

Na segunda posição, temos a Cogna e, logo em seguida, nos terceiros e quarto lugares, temos as opções de Petrobras e Vale – respectivamente.

A ordem pode se alterar de um dia para o outro, mas tem sido assim, algo bem atípico. 

Eu tenho uma vida dedicada ao mercado de opções e confesso que estou surpreso com todo esse interesse que vemos nas ações e opções de Via Varejo e de Cogna Educação.

Na verdade, essas empresas contam com elevado número de novos investidores, que vieram para a bolsa embalados por narrativas transformacionais. 

O pessoal vem comprando opções, isso vem dando certo e estão ganhando dinheiro, com a confiança lá em cima.

Se você não está muito familiarizado com opções, são contratos de derivativos, que dão direito aos compradores destes contatos, conhecidos como titulares, a oportunidade de comprar uma ação por um determinado preço, até uma data específica.

A data é a terceira segunda-feira de cada mês: às 13h, esses determinados contratos vencem. Então aquele que comprou um contrato de opção tem o direito de adquirir um certo ativo a um preço pré-estabelecido.

O titular compra o contrato de um vendedor. Esse vendedor é chamado no mundo das opções de lançador.

Aquele que lança tem o dever de vender a ação e o titular tem o direito de adquiri-la. Quem compra paga, o lançador recebe.

O contrato de opção tem uma vida, ou seja, ele vence, morre ao longo do tempo. A vida dele normalmente é curta, seu preço vai se depreciando ao longo do tempo.

Desta forma, o uso de opções normalmente é um instrumento bastante interessante para tiros rápidos no mercado. 

Você pode utilizar o mercado de opções de uma forma especulativa, pode utilizá-lo também de uma maneira estruturada, buscando proteção, gerar retornos que trazem semelhanças com a renda fixa.

Essa é uma área que exploro com muito afinco aqui na Inversa, tenho um produto associado a este tipo de estratégia. 

Desequilíbrio em foco

O ponto aqui que eu quero ressaltar é que quando eu faço uma análise do mapa das opções, das empresas que mencionei, o que observo é que tem muitos titulares e poucos lançadores. 

Para deixar mais claro: no contrato VVARH200, que permite ao titular do contrato comprar a ação da Via Varejo a R$ 22,00 até o dia 17 de agosto, há 8.195 titulares para 2.077 lançadores. Uma relação aproximada de 4 para 1, muitos titulares para poucos lançadores.

Esse número na casa dos 8 mil é muito expressivo, mostrando a nós que esse mercado de fato vem crescendo, com uma gama imensa de novos investidores surfando essa onda, empolgados com o mercado de opções.  

Seguindo em frente, no contrato da Cogna Educação, COGNH900, que permite ao titular do contrato comprar a ação a R$ 9,00 até o dia 17 de agosto, há 9.264 titulares para somente 1.011 lançadores. Uma relação de 9 para 1.

Às vezes, o mercado se empolga demais. Devemos lembrar aqui um ponto: para comprar opções, basta ter dinheiro. Para você vender opções, tem que ter colateral, tem que ter margem.

Sou da opinião que o vendido (lançador) leva uma certa vantagem pois, além de ter o tempo a seu favor (cada dia que passa essa opção perde valor), lançadores fazem mais contas pelo risco que correm, devem ter capital como uma espécie de reserva técnica, buscando aqui emprestado uma expressão do setor de seguros.

O mesmo ocorre, apesar de em menor magnitude, com contratos de opções associados a Petrobras e a Vale.

Nos contratos associados a essas duas empresas, também observamos um elevado número de titulares para um pequeno número de lançadores. 

Estagnação em vista 

O que acontece em situações como essas? O mercado tende a subir ou a cair? É provável que este desequilíbrio resulte em um mercado mais estagnado, no qual o prêmio pago pelas opções passa a ser consumido pelo tempo, transferindo riqueza para a minoria, que está vendida nas opções.

Afirmo isso pois os contratos de opções são instrumentos alavancados que perdem valor com a passagem do tempo.

Entretanto, como afirmei inicialmente, vivemos em um momento atípico: estamos em plena temporada de resultados. 

Vimos recentemente um caso de uma empresa que divulgou seus dados no Twitter para, logo em seguida, removê-los. Temos uma espécie de vale-tudo ocorrendo na bolsa brasileira. 

Bem, se você acompanha o mercado de opções há muito tempo, e já vivenciou as inúmeras histórias contadas pelo nosso querido Ivan Sant’Anna, sabe que no passado já foi muito mais complexo. 

Ivan tem histórias incríveis ocorridas no final dos anos 1980 com especuladores brasileiros que falam muito sobre esse tema. 

É possível que a pandemia contribua para a chegada de novos investidores que poderão, não só embarcar nas narrativas transformacionais, mas também tomar o bastão dos comprados.

Confesso que acho pouco provável, mas quem sou eu para descartar essa possibilidade.

Fique atento a este desequilíbrio pois, embora de fato não consiga afirmar o que vai acontecer, consigo atribuir probabilidades de uma forma mais clara do que está por vir.

Neste caso, a probabilidade indica mais uma estagnação do que um declínio nos preços desas ações mencionadas.

Um grande abraço,

Até a próxima!

Marink Martins

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