Mercadores da Noite #241: Vinte anos esta manhã

Ivan Sant'Anna Publicado em 11/09/2021
6 min
Não levei mais de um segundo para deduzir que se tratava de um ato terrorista. E fui tomado por um terrível pressentimento.

Caro(a) leitor(a),

Na terça-feira 11 de setembro de 2001, eu estava dormindo quando minha mulher telefonou do trabalho.  “Um avião bateu em uma das torres do World Trade Center”, ela disse. “Parece que foi um teco-teco”, completou.

Apesar de ter ido para a cama alta madrugada (estava trabalhando em dois livros, Carga Perigosa e Bicho Solto), me levantei de um salto, corri para a sala e liguei a televisão na CNN.

O segundo jato, United Airlines 175, um Boeing 767, já tinha se chocado contra a torre Sul. Treze minutos antes, outro 767, American Airlines 11, o tal que minha mulher supusera ser um teco-teco, se espatifara ao encontro da face oeste da torre Norte.

Não levei mais de um segundo para deduzir que se tratava de um ato terrorista. E fui tomado por um terrível pressentimento:

Se já bateram dois, podem ser três, quatro ou até dez. Os Estados Unidos estão sob ataque de uma força poderosa.”

Pois bem, veio o choque contra o Pentágono (American Airlines 77) e, pouco depois, chegou a notícia de que um Boeing 757 da United caíra em um bosque de Shanksville, na Pensilvânia.

Nos dias que se seguiram, só me afastei da televisão algumas horas para breves cochilos. Já tendo publicado, em novembro de 2000, Caixa-preta, um livro-reportagem sobre três desastres aéreos brasileiros que ficou sete meses na lista dos mais vendidos, decidi que os ataques de Onze de Setembro seriam a minha história.

Quando revelei meus planos para o Roberto Feith, proprietário e editor da Objetiva, ele não me animou muito.

Ivan, no mínimo serão escritos uns duzentos livros sobre esse assunto.”
Então serão duzentos e um. Pois não abro mão desse meu projeto.”

Por experiência própria, sei que livros de não-ficção devem ser escritos muito depois dos fatos. Exemplo: se alguém quiser escrever sobre o surto de Covid-19, deve começar a fazer as pesquisas no mínimo uns três anos após o fim da pandemia.

Concluí e publiquei Carga Perigosa e Bicho Solto e, só então, comecei a trabalhar em Plano de ataque, nome que só seria decidido mais tarde.

O maior problema de se relatar os fatos do September Eleven não é a carência de informações e sim o excesso delas. Só na internet, havia 481 milhões de sites sobre o assunto, muitos deles com teorias conspiratórias as mais idiotas possíveis.

Para minha sorte, Kimberly Kladt, um comandante da British Airways, fora casado com uma brasileira e era fluente em português. Melhor, tratava-se de um fã de Caixa-preta, que já lera duas ou três vezes.

Kladt me apresentou, sempre por e-mail, a Lyle Miller, comandante aposentado da United Airlines. Este, por sua vez, ao ex-governador de New Jersey, Thomas H. Kean, nada mais nada menos do que presidente da Comissão de Investigações do 11 de setembro, designado pelo presidente George W. Bush e aprovado pelo Senado americano, onde funcionaram os escritórios e o plenário da Comissão.

Para ganhar a credibilidade de Kean, traduzi para ele Terror na Ponte Aérea, segundo episódio de Caixa-preta, que narra a tentativa de um sequestrador, Raimundo Nonato Alves da Conceição, de lançar um Boeing 737-300 da Vasp sobre o palácio do Planalto em 29 de setembro de 1988.

Thomas Kean deve ter gostado de meu relato pois passou a me enviar material sobre os atentados de 11 de setembro. Foi assim que consegui os dados biográficos dos 19 sequestradores, coisa que não há em nenhum dos livros dos meus concorrentes.

Como achava que os demais livros dariam mais destaque ao incêndio e queda das Torres Gêmeas, preferi me concentrar na descrição do planejamento do ataque, que a al Qaeda chamava de Operação Aviões.

Descobri que o planejamento do 11 de setembro começou em 1994, durante um almoço em Tarik Road, na cidade paquistanesa de Karachi, ao qual compareceram Ramzi Yousef (O Químico), Abdul Murad e Khaled Sheik Mohamed, o homem que supervisionou toda a organização do ataque.

Os sequestradores kamikazes foram 19, sendo que dos quatro pilotos três eram estudantes de engenharia em Hamburgo, na Alemanha.

Já dos quinze comandos, que se apossariam dos aviões, 14 eram sauditas e um, cidadão dos Emirados Árabes Unidos. Todos tinham sido flagrados cometendo pequenas transgressões, tais como consumo de álcool e quebrando o jejum do Ramadã, procedimentos proibidos pelo Alcorão.

Quanto aos pilotos, eles foram recrutados em Hamburgo para lutarem na Chechênia contra os russos. Só nos campos de treinamento do Afeganistão é que a al Qaeda fê-los jurar cumprir uma missão de martírio.

Mais tarde, aprenderam a pilotar em simuladores de escolas americanas de aviação. Por razões óbvias, não precisavam saber decolar nem pousar, que são as manobras mais complexas.

A parte mais interessante das pesquisas foram minhas conversas com Deena Burnett, então moradora da Califórnia. Ela conversou quatro vezes com seu marido Tom, que se encontrava a bordo do United 93, num voo entre Newark, NJ, para São Francisco, CA.

Graças a Deena, os passageiros ficaram sabendo que outros três aviões haviam sido lançados contra prédios e que a situação do voo 93 não poderia ser diferente. Daí terem partido para arrombar a porta do cockpit, ocasião em que o piloto terrorista libanês Ziad Jarrah ter optado por lançar o avião contra o solo de uma clareira na Pensilvânia.

Pesquisar os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 foi um dos trabalhos mais gratificantes de minha carreira de escritor. Não poderia deixar passar esse aniversário de vinte anos sem escrever uma crônica sobre o assunto.

Um forte abraço e um ótimo fim de semana.


Ivan Sant´Anna

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