Mercadores da Noite #238: Euforia e estresse

Ivan Sant'Anna Publicado em 21/08/2021
1 min
Finalmente chegamos à Covid, o acontecimento mais inesperado desde que comecei no mercado no longínquo ano de 1958.

Caro(a) leitor(a),

No momento em que começo a escrever este texto, início da tarde de quinta-feira, dia 19, os mercados, principalmente de câmbio e renda variável, estão sob forte estresse.

Pudera!

Aqui no Brasil, após o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, receber o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, para discutir a harmonia entre os três poderes, o irrefreável Jair Bolsonaro volta a atacar a instituição (STF), diferentemente do que Nogueira acabara de propor a Fux.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, cada vez mais se mostra preocupado com a reeleição do chefe, pondo de lado seu propalado liberalismo.

Como, em minha carreira no mercado, já vivi momentos de estresse piores do que o atual, gostaria de rememorar alguns, não sem antes repetir uma frase que me foi dita pelo Luiz Alves Paes de Barros, da Alaska Asset Management.

Se não tem solução, solucionado está.”

Eu tinha apenas 21 anos de idade, e três de mercado, quando Jânio Quadros renunciou, pegando o país de surpresa. Pois bem, foi um deus nos acuda. A posse do vice, João (Jango) Goulart, foi precedida da ameaça de uma guerra civil, com parte do Exército adotando uma posição legalista e outra não querendo aceitar a posse de Jango.

Houve uma solução intermediária, com o Congresso mudando o regime para parlamentarista.

Últimos meses do governo João Goulart: naquela oportunidade, o medo era de que a esquerda tomasse o poder e desse início a um regime estilo cubano, com consequências obviamente desastrosas para o mercado de capitais.

Vamos todos cortar cana”, era como a gente brincava, uns com os outros, nas mesas de operação, em meio a sorrisos nervosos.

Posse do general Humberto de Alencar Castelo Branco na presidência da República. Euforia geral do mercado, logo seguida de grande decepção em meio à política hawkish da dupla Campos/Bulhões, que levou diversas empresas à falência.

A Bolsa de Valores (naquela época a do Rio comandava as ações) fez um fundo em 1967 e quem enxergou se deu bem. Se comprou papéis nesse momento, enricou.

Eu mesmo não posso me queixar. Troquei um apartamento de três quartos na rua Santa Clara, em Copacabana, presente de casamento de meu pai, por uma cobertura duplex com piscina na praia de Ipanema.

Meu Renault Gordini se transformou em um Ford Galaxie 500, o carrão da época. Férias: simplesmente substituí Cabo Frio e Itaipava por Londres, Paris e Nova York, em viagens curtas de feriadões, sempre de primeira classe. Extravagâncias: fretar jatinhos para ver jogos do Fluminense em outros estados.

Veio então 1973, a guerra do Yom Kippur e, com ela, o primeiro choque do petróleo. O estresse se espalhou por todo o mundo (com exceção dos países da OPEP) mas demorou a ser percebido no Brasil. Médici empurrou o problema para Geisel, que demorou a entendê-lo. Resultado: inflação, inflação galopante, hiperinflação.

Os militares cederam a vez aos civis. Voltou a democracia.

Naquela ocasião, eu escrevia um boletim mensal, chamado Relatório FNJ, no qual falava sobre a economia em geral e o mercado em particular.


Vejam que tristeza o que aconteceu, para quem investia em Bolsa, em novembro de 1989: a inflação (mensal, bem entendido) naquele mês bateu 41,42%. No mesmo período, o Ibovespa caiu 9,13%. Ou seja, quem tinha uma carteira de ações viu, em média, ela perder metade de seu valor em 30 dias.

No dia 15 de março de 1990, Fernando Collor de Mello assumiu o governo e, além de mudar a moeda, de cruzado novo (NCr$) para cruzeiro (Cr$), bloqueou a quase totalidade dos saldos bancários, das cadernetas de poupança, aplicações no open market, CDBs, letras de câmbio, fundos de investimento etc., etc.

Por esse estresse, eu não passei. Naquela ocasião, além de só operar nos mercados internacionais, todo o meu dinheiro estava depositado numa conta em Nova York. Mas vi muito choro e ranger de dentes.

Quando saiu o Plano Real, em julho de 1994, o mercado vibrou. Mas não foi assim de estalo. Desconfiado com as diversas reformas monetárias antes fracassadas, pouca gente acreditou. Não só Lula, como o próprio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda nos governos militares, denominaram o plano de “estelionato eleitoral.”

Após o lançamento do real, sucederam-se, em diversos países do mundo, ataques especulativos às moedas. Começou na Ásia, em meados de 1997, com o baht da Tailândia. Seguiram-se a Indonésia (rúpia), Coreia do Sul (won), Hong Kong (dólar local), Laos (kip) e Malásia (ringgit).

Os raids espalharam-se por diversos países emergentes, desembarcando no Brasil em 1999.

De todas as crises citadas acima, acredito que o ataque especulativo ao real foi uma das piores.

Com quase todo o mercado comprado em dólares futuros na BM&F, com exceção de dois bancos (Marka e FonteCindam) e do Banco Central, que estavam vendidos, houve risco de uma crise sistêmica, que pôs em risco inclusive a solvência da BM&F.

Fosse esse o desfecho, o mercado já era. Talvez o sistema bancário tivesse de ser estatizado.

O governo brasileiro acabou intervindo, não só vendendo dólares abaixo da cotação para o Marka e o FonteCindam como obtendo um empréstimo no FMI.

Luiz Inacio Lula da Silva deve ter sido o único presidente que quase provocou um crash na Bovespa “antes” de assumir. Medo!

Houve medo de que o político petista estatizasse os bancos e decretasse moratórias, interna e externa, tal como constou do programa do Partido dos Trabalhadores durante anos.

Antecipando-se a isso, no final do governo FHC, com Lula de início franco favorito e depois eleito, o Ibovespa caiu ao longo do ano. Quanto ao dólar, bem, o dólar chegou a bater R$ 2.0648 (equivalentes hoje a R$ 7,25 corrigido pelo IGP-M FGV).   

Vários acontecimentos auspiciosos para o mercado ocorreram durante o período de transição FHC/Lula e nos primeiros anos do governo petista, graças à eficiência de Antonio Palocci à frente da Fazenda e, principalmente, ao boom das matérias-primas causado por compras chinesas.

Ou seja, o estresse deu origem à euforia. Investidores e traders despolitizados (ou que sabem separar paixão e negócios) se fartaram de ganhar dinheiro. Em cinco anos, o Ibovespa dolarizado subiu 1.320%.

Vieram os escândalos do mensalão e petrolão, governo Dilma e impeachment. Nesse período, o índice medido em dólar perdeu três quartos de seu valor.

Finalmente chegamos à Covid, o acontecimento mais inesperado desde que comecei no mercado no longínquo ano de 1958. Sem nenhum vislumbre de vacina, em apenas um mês o Ibovespa caiu 50%, antes de iniciar o último bull run, encerrado há apenas dois meses.

Resta aguardar, em nível nacional e internacional, o comportamento da inflação e das taxas de juros. Infelizmente, ainda não temos resposta para isso.

De minha parte, só posso dizer que, ao longo de todos esses anos, aprendi a refrear a euforia e dominar o estresse.

Um forte abraço e um ótimo fim de semana.

Ivan Sant´Anna

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