Mercadores da Noite #237: De quê o mercado quer saber?

Ivan Sant'Anna Publicado em 14/08/2021
7 min
O que importa não é o sujeito encastelado no Planalto, nem a filosofia política que diz defender.

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Caro(a) assinante,

Antes de mais nada, é bom lembrar que o Brasil não está sendo governado por um regime militar.


O presidente da República foi cadete das Agulhas Negras e oficial paraquedista, mas saiu do Exército no posto de capitão. Metamorfoseou-se em político profissional, primeiro como vereador do município do Rio de Janeiro, mais tarde como deputado federal.


Bolsonaro vestiu farda por apenas 11 anos. Já suas funções parlamentares duraram três décadas, nas quais atuou, principalmente, como despachante de militares de baixa patente, PMs, policiais civis, soldados bombeiros e agentes penitenciários.


O cenário do país é de pleno estado democrático de direito, embora às vezes se têm a impressão de que há alguma espécie de regime autoritário.


Mas não. Não existe sequer um preso político, a imprensa não é censurada. Nem mesmo a pandemia impede as pessoas de irem e virem.


Os investidores, traders e gestores que operam na B3 são pragmáticos.

Mesmo que o Brasil tivesse um regime fechado como o da China, o pessoal só se interessaria pela rentabilidade das empresas. Sempre foi assim. Não importa o lugar ou a época.


Vejamos como as coisas aconteceram nas bolsas do Brasil do início dos anos 1960, quando Jânio Quadros renunciou, até agora.


Isso vai facilitar na hora em que os investidores ficarem sem saber se o mercado sobe ou desce em função de, por exemplo, um desfile de tanques na Esplanada dos Ministérios ou de uma mudança constitucional casuística, como aconteceu esta semana com a volta das coligações partidárias (em primeira votação na Câmara, é bom que se lembre).


Voltando à renúncia de Jânio, o ato unilateral do exótico presidente derrubou a Bolsa.


Pudera! Seu vice, João (Jango) Goulart, era de esquerda. Adotava bandeiras ultranacionalistas e progressistas (eu acho que progressista é o contrário, adeptos do esvaziamento do Estado, mas era assim que eles definiam sua ideologia).

À tumultuada posse de Jango seguiu-se um parlamentarismo casuístico, derrubado por um plebiscito em 1963.


Leonel Brizola, cunhado de João Goulart, defendia uma revolução do tipo castrista com um engodo: estariam se formando no Brasil milhares de grupos dos onze, que tomariam o poder. Na época do “pega pra capar”, não surgiu nenhum.

Acontece que, nessa mesma ocasião, as sociedades anônimas foram obrigadas a reavaliar seus ativos (até então lançados contabilmente pelos custos históricos).

Uma ação que, por exemplo, era negociada a, digamos, 150 cruzeiros, e deu uma bonificação (split) de 100 por uma, passou a Cr$1,50.


Jango, Brizola, castrismo, reformas de base, nada disso impediu que os investidores achassem que aquele papel estava de graça. Seguindo essa linha de raciocínio, subir de Cr$ 1,50 para Cr$ 3,00 foi um pulo.

Quando, em 1964, veio a Revolução, ou Golpe, como queiram, o mercado deu um salto para cima, seguido de uma queda abrupta.

Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões, respectivamente ministros do Planejamento e da Fazenda, adotaram uma política monetária extramente hawkish (embora não se usasse esse termo na época) e os investidores fugiram da Bolsa para as Obrigações e Letras do Tesouro Nacional, recém criadas.

Foi uma das primeiras evidências que testemunhei do pragmatismo do mercado financeiro.
 


Os efeitos do choque Campos/Bulhões foram tão benéficos que a inflação anual brasileira caiu de 92,12% (1964) para 19,31% (1969), agora já nos governos Costa e Silva e Médici, tendo Antônio Delfim Netto como czar da Economia.


As taxas de juros caíram e a Bolsa de Valores (à época, a do Rio era a mais importante) protagonizou um dos maiores bull markets de sua história.


Se, nesse período, houve o AI-5, prisões políticas, violações dos direitos humanos, o mercado ignorou. Me lembro muito bem que política não era um assunto importante para nós, traders.


Nas mesas de operação, a gente nem falava nessas coisas. O negócio era ganhar dinheiro.

Nos anos 1970, após o fim do bull market de ações (meados de 1971), o mundo foi surpreendido pelo início do Primeiro Choque do Petróleo (outubro de 1973).

O gigantesco erro de Ernesto Geisel, em demorar a adaptar o Brasil aos novos tempos de inflação mundial, foi um golpe de morte na Bolsa.

Ou seja, o mercado de ações se interessa por números, pela comparação entre renda fixa e renda variável, independentemente se no palácio do Planalto está sentado um civil ou um militar.

Prova disso, foi o bull market dos cinco primeiros anos do governo Lula, quando o Ibovespa subiu nada mais nada menos do que 584,5%.


No mesmo período, convertido em dólares, a alta do índice foi de quase o dobro: 1.100,00%. E, no entanto, foi nessa época que aconteceu o “mensalão” e se iniciou o “petrolão”, episódios que parecem esquecidos.

A conclusão é óbvia. O que importa não é o sujeito encastelado no Planalto, nem a filosofia política que diz defender. Vale mesmo é a perspectiva de rentabilidade das empresas negociadas em Bolsa e um mínimo de coerência por parte do governo e do Congresso.

Nos últimos dias, são tantos os temas controversos trazidos para as agendas econômica e política, e delas retirados sem a menor sem-cerimônia, que torna-se improvável a retomada de uma alta consistente das ações, a despeito dos ótimos resultados de algumas empresas.

Senão vejamos: precatórios parcelados a perder de vista para que caibam no orçamento, regras de mudança do imposto de renda que não favorecem nem o Tesouro nem o contribuinte, valor indefinido de bolsas famílias e auxílios, minirreforma (por que tudo aqui tem de ser mini?), voto impresso que já levou uma pá de cal, mas continua protestando sob sete palmos de terra etc., etc.

A Bolsa não quer saber se o governo é militar ou civil, autoritário ou liberal, de esquerda ou direita. Basta que as regras do jogo estejam bem definidas e cumpridas. Simples assim.

Um ótimo fim de semana para vocês.


Ivan Sant’Anna

 

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