Mercadores da Noite #235: Nem sempre eles acertam

Ivan Sant'Anna Publicado em 31/07/2021
4 min
Dizem alguns críticos de Powell que ele está pondo em risco a estabilidade do sistema financeiro.

Caro(a) leitor(a),

Em seu último comunicado, divulgado esta semana, o chairman do FED – Federal Reserve Bank (Banco Central americano) −, Jerome Powell, explicou a manutenção da postura dovish (expansionista) iniciada por ocasião da chegada do novo coronavírus aos Estados Unidos, em março do ano passado.

Especulava-se no mercado que o FED pudesse antecipar o fim do ciclo de taxas próximas de zero (entre 0,00% e 0,25% ao ano) ou diminuir a velocidade das compras de ativos, com intenção de desmonetizar um pouco a economia americana para evitar um surto inflacionário.

Diversos CEOs das 12 divisões regionais do Federal Reserve System, alguns com direito a voto no FOMC (Federal Open Market Committee – Comitê Federal de Mercado Aberto, equivalente ao COPOM brasileiro) haviam defendido um abandono gradual da política expansionista.

Mas não. Mais uma vez deu pomba na cabeça.

O mercado americano de renda variável gostou. Tanto que o Industrial Dow Jones, o S&P500 e o Nasdaq fizeram novas máximas históricas.

Dizem alguns críticos de Powell que ele está pondo em risco a estabilidade do sistema financeiro. Nesse caso, aconteceria o que eles chamam de hard landing (aterrissagem forçada), hipótese na qual a economia sairia dos trilhos.

Acompanho atentamente as posturas do FED desde a gestão de Arthur F. Burns, que ocupou a cadeira de chairman entre 1970 e 1978. Coube a ele tentar, sem sucesso, descascar o pepino provocado pela guerra do Yom Kippur (outubro de 1973).

Seguiu-se uma forte alta do petróleo e o início de um período de inflação só domado por Paul Volcker, no cargo entre 1979 e 1987.

Entre Burns e Volcker, o posto foi ocupado por G. William Miller (08.03.1978/06.08.1979).

Ao assumir a cadeira de chairman (com minhas desculpas pela redundância), Paul Volcker encontrou a inflação em 11,3% ao ano. Num ataque estonteante de gavião, Volcker elevou a taxa básica para 20%.

Evidentemente que funcionou. Após uma alta inercial para 13,5% a.a., em 1980, o CPI (Índice de Preços ao Consumidor) despencou para 6,2% em 1982 e nunca mais marcou dois dígitos.
 
Nomeado pelo presidente Ronald Reagan, Alan Greenspan substituiu Paul Volcker em 11 de agosto de 1987.

Dois meses e poucos dias após assumir o posto de chairman, Greenspan se deparou com o crash de 19 de outubro daquele ano, também conhecido como Black Monday, no qual o índice Industrial Dow Jones e o S&P500 perderam um quinto de seus valores. 

Numa atuação espetacular, Greenspan, apesar do pequeno período de atuação na casa, inundou o mercado de dinheiro e debelou o crash no nascedouro.

Tanto é assim que, no ano de 1987, a Bolsa de Valores de Nova York fechou em ligeira alta, contando do início de janeiro ao final de dezembro.

Alan Greenspan não ficou apenas nisso. Por ocasião da Bolha das Ponto Com (1995/2000) ele liquidou a fúria especulativa com uma simples frase, que incluiu a mais do que conhecida expressão “exuberância irracional” (irrational exuberance).

A Nasdaq se lascou por algum tempo mas a New York Stock Exchange saiu quase ilesa do episódio.

Foi aí que Greenspan descalçou as sandálias da humildade e passou a andar de sapato alto. Taxas de juros excessivamente baixas provocaram a crise do subprime (bolha das hipotecas) que acabou numa aterrissagem catastrófica.

Entre novembro de 2007 e março de 2009, o mercado americano de ações se desvalorizou 44,6%. Isso apesar de forte ajuda do governo às grandes empresas.

A Greenspan se sucederam Ben Bernanke e Janet Yellen (atual secretária do Tesouro de Joe Biden), que, com todo o respeito, não federam nem cheiraram.

Veio então Jerome Powell e sua postura combinada de encarregado da política monetária e surgeon general. Sim, surgeon general, um dos responsáveis pela saúde nos Estados Unidos.

Powell sempre dá a entender que enquanto não houver garantia de que a pandemia e seus efeitos nocivos serão debelados, as taxas de juros ficarão próximas de zero.

O tempo dirá se ele tem ou não razão. Se tiver errado em suas deduções, os Estados Unidos da América do Norte precisarão trazer o Paul Volcker de volta.

O problema é que ele morreu em 2019, aos 92 anos de idade.

Um forte abraço e um ótimo fim de semana para todos.


Ivan Sant’Anna



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