Mercadores da Noite #233: Meio século de bolsa

Ivan Sant'Anna Publicado em 17/07/2021
5 min
Não pude deixar de comparar a mecânica atual da bolsa com aquela na qual eu lidava no final da década de 1960 e início dos anos 1970.

Caro(a) leitor(a),

Ontem terminei de transferir meus investimentos pessoais de aplicações em renda fixa para ações negociadas na B3.

Foram exatamente doze meses nos quais liquidei cotas de um fundo no banco Itaú, na proporção de 1/12 em cada parcela.

Para escolher as ações nas quais investi, usei de um método tão simples quanto eficiente. A cada dia, anotava as recomendações dos meus colegas especialistas da Inversa e lançava em uma planilha.

Apliquei nas vencedoras mensais, sem nenhum repeteco. Sou portanto acionista de 12 empresas diferentes, embora todas dos segmentos de minério e aço, bancário, celulose, carnes e exportadoras de commodities e matérias-primas em geral.

O que mais me surpreendeu nessas compras, foi a facilidade com que foram fechadas. Não levei mais do que cinco minutos para adquirir cada lote.

Não pude deixar de comparar a mecânica atual com aquela na qual eu lidava no final da década de 1960 e início dos anos 1970.

Antes de mais nada, e só por curiosidade, vejam como se descontava um cheque no banco.

Tinha de ser na agência originária daquela conta e não na sua. Nesta, você podia até depositar um cheque de terceiros, mas a compensação levava de dois a três dias.

Se fosse de outro estado, a espera era de no mínimo uma semana. Acho que ia e voltava a cavalo.

Mas voltemos ao desconto do cheque. Este era entregue num balcão, cujo atendente lhe dava uma senha. O documento então era transferido para um escriturário que, com um fichário rotatório na mão, conferia a assinatura do emitente e pespegava uma rubrica no cheque.

Passava então para um colega, numa mesa ao lado, que procurava, em outro arquivo, a ficha da conta do emitente, fosse ele você ou um terceiro. Ali ele lançava o débito na hora.

O cheque então ia para um caixa, que chamava pelo número da senha. Só então você recebia seu dinheiro. Em dia de grande movimento, isso poderia levar aproximadamente meia hora.

Mas não posso me esquecer da Bolsa, que é o tema deste artigo. O resto foi encheção de linguiça. Eis como funcionava:

Um cliente ligava para a Fator Corretora de Títulos S.A., da qual eu era sócio-diretor e falava com um atendente (que a gente chamava de assessor).
    “Como está a Petrobras preferencial ao portador?”, perguntava.

Detalhe: só após a chegada de Fernando Collor ao poder é que os títulos ao portador foram suprimidos.
    
Voltando à narrativa, como não havia monitores de cotações, o assessor tinha de telefonar para um auxiliar de pregão.
    “Comprador a três cruzeiros e 12 centavos, vendedor a 3 e 14; último negócio a três e treze.”, informava o rapazote.

Naqueles tempos machistas, não havia “rapazotas’ (se eu escrever “raparigas”, alguém pode achar politicamente incorreto) na Bolsa.
    “Compra 20 de 100 a mercado!”
Era preciso discriminar as cautelas. As de 100 eram um pouco mais caras do que as de 1.000. 

O assessor anotava a ordem num boleto e passava para a mesa de Bolsa, onde três ou quatro funcionárias ficavam o tempo todo passando ordens para o pregão e recebendo as que já tinham sido executadas. Só que esta última hipótese era raríssima. Ficava tudo para depois.

A Bolsa só funcionava na parte da manhã. À tarde, após o almoço, operadores e assessores casavam as ordens dos clientes com os boletos de execução. O pau comia solto, cada qual querendo o melhor para seus clientes. Ou para si, por quê não confessar?

Aquele cliente que mandou comprar Petrobras a mercado, quando o papel estava a Cr$ 3,12 com Cr$ 3,14, podia muito bem receber a seguinte informação de seu constrangido assessor:
    “Você comprou 20 cautelas de 100 da Petrobras pp, sendo 13 a 3,19, 4 a 3,21 e 3 a 3,26.”
    “Mas não estava a 12 com 14 quando passei a ordem?”
    “Pois é. Só que o mercado subiu antes que ela chegasse no pregão. Sabe como é a burocracia.”


Antes de soltar os cachorros verbais, o cliente ainda perguntava.
    “Como fechou o papel?”
O assessor levou 35 segundos de relógio para responder, com uma voz que era pouco mais do que um sussurro:
    “Três e oito.”
“Nunca mais opero com vocês”, o novo acionista da Petrobras ficou revoltado. Mas operava sim. Porque era igual em todas as corretoras. Tinha até uma que… Deixa pra lá. Já prescreveu.

Dois meses mais tarde, ele mandava vender, conosco mesmo, as Petros, que tinham subido para R$ 3,80. E ainda foi contemplado com uma boa execução.

“Esse cara é aquele que vocês enrabaram na compra”, o assessor vigiava de perto o casamento das ordens com os trades fechados na Bolsa. “Quero as 20 de 100 vendidas mais altas para ele.” E conseguia.

Naqueles tempos, quem não dava esporro, ou então ordem com preço fixo (que podia não ser executada), se ferrava.

Pois bem, voltando ao presente. Agora compro meus papéis através do site da corretora, enquanto vejo os negócios sendo fechados.

Talvez essa seja uma das razões pelas quais o mercado de ações está se expandindo no Brasil.

Um forte abraço e um ótimo fim de semana!

Ivan Sant’Anna

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