Mercadores da Noite #231: Falando em público

Ivan Sant'Anna Publicado em 03/07/2021
6 min
Lives, podcasts, gravações em vídeo, estou sempre à disposição. Não fico nervoso nem tenso. Nem sempre foi assim.

Caro(a) leitor(a),

Hoje em dia, se a Inversa me chamar, em cima da hora, para fazer uma palestra presencial, substituindo alguém que ficou doente, aceito sem pestanejar.

Lives, podcasts, gravações em vídeo, estou sempre à disposição. Não fico nervoso nem tenso, nem quando erro uma citação ou pronúncia.

Nem sempre foi assim.

Durante a infância e juventude, era extremamente tímido. Para ler uma redação para a classe no colégio, eu gaguejava, pulava palavras e acabava sendo vaiado pela turma.

Minha virada se deu da seguinte maneira: na trading desk do banco Graphus, onde eu operava os mercados internacionais, os colegas me convidaram para dar uma aula para eles na sexta-feira daquela semana, após o fechamento das Bolsas.

Durante três noites fiquei dando voltas ao redor de meu condomínio, tentando mentalizar, e até memorizar, o que iria falar.

No dia e hora marcados, fui para a sala de reuniões e fiquei esperando o pessoal. Passaram-se dez, quinze, vinte minutos, meia hora e não surgiu ninguém. Frustrado, peguei minhas coisas e fui para casa jurando nunca mais dar uma aula, palestra, conferência, o que fosse.

O que eu sabia (já tinha 35 anos de mercado no lombo), guardaria para mim.

Meses depois desse desapontamento, veio a mim no escritório a gerente da mesa de ouro do Banco do Brasil pedindo que a substituísse numa aula na filial da BM&F no Rio.

Neguei na hora. Mas, como ela apelou para os meus sentimentos, topei substituí-la. Além disso, eu receberia o cachê, que não era pouca coisa e vinha em boa hora.

Já estava no elevador do prédio da BM&F quando soube que a aula duraria três horas.

Caramba, minha gente. Contei a história do ouro desde os tempos da civilização suméria, há cinco mil anos, passando pelos astecas, incas, romanos, egípcios, grandes descobertas, faiscadores brasileiros, padrão ouro, etc.

A BM&F pedia aos alunos que fizessem a avaliação dos professores. Fui escolhido como o melhor.

Depois disso, passei a dar cursos de cinco aulas sobre os mercados internacionais para operadores e analistas de mercado em instituições financeiras do Rio e São Paulo.

Como cobrava caro, as salas estavam sempre cheias. Isso mesmo, descobri que, de graça, de favor, as pessoas não dão importância.

A partir de abril de 1996, quando deixei o mercado para ser escritor, passei a ser convidado para talk shows na TV. Fora a primeira vez, com o Boris Casoy, quando senti um friozinho na barriga, nunca mais fiquei nervoso.

No Jô Soares foram quatro vezes, uma no SBT (“Rapina”) e três na Globo (“Carga Perigosa”, “Plano de ataque” e “Perda Total”).

Participei do Manhattan Connection, em Nova York, com Lucas Mendes, Caio Blinder e Nelson Mota. Anos mais tarde, eles fizeram um “Manhattan Especial sobre Plano de Ataque”. A gravação aconteceu no estúdio  da Globosat aqui no Rio e foi ao ar, no canal GNT, no domingo 10 de setembro de 2006.

 “Bom dia, Brasil”, “Fantástico”, “Jornal das Dez" (GloboNews), foram inúmeras vezes em cada um deles.

A esta altura, o caro amigo assinante pode estar resmungando: “Por que será que o Ivan está contando tanta vantagem sobre si mesmo?”

Me apresso em responder. Para mostrar que o garotinho que não conseguia declamar uma poesia na sala de aula nem convidar uma garota para dançar num baile de formatura conseguiu se superar graças, talvez, à frustração da primeira palestra, aquela do Graphus que não houve porque não surgiu ninguém para assistir.

Dois momentos foram de especial gratificação para mim.

O primeiro foi uma palestra num hangar do aeroporto de Bacacheri, em Curitiba, a qual compareceram cerca de 500 pilotos, copilotos, engenheiros de voo, comissários de bordo e mecânicos e despachantes de aviação.

Convivemos no hangar durante cinco horas.

Nas duas primeiras, falei sobre os três desastres aéreos narrados em meu livro Caixa-preta. Nas três restantes, autografei centenas de exemplares que os assistentes levaram ou compraram na hora.

A segunda grande emoção foi quando caiu o avião que levava o ministro Teori Zavascki do campo de Marte, em São Paulo, para Paraty, no sul do estado do Rio.

Fui convidado para fazer uma gravação no estúdio da Globo, no Jardim Botânico, que iria ao ar no telejornal local. O William Bonner gostou tanto que “sequestrou” a fita. Finalmente, me chamou:
    “Você não quer participar da bancada do JN?”

Naquele dia (todo mundo gosta de desastre de avião) a audiência foi de mais de 30 milhões de pessoas. Juro a vocês que não tremi em momento algum.

Desde o primeiro trimestre de 2017, quando comecei a trabalhar na Inversa, falar às pessoas, seja presencialmente, seja por filmagem ou gravação, tornou-se uma rotina.

Não quero que esta crônica seja considerada um texto de autoajuda. Mas se os caros amigos leitores assim o julgarem, paciência.

Não gosto de saber, de antemão, o que vão me perguntar. Sinto enorme prazer no desafio.
    “O que é que você acha das ações da Amalgamated Metals?
    ou
    “Você não pensa em se aposentar? Não acha 81 uma idade onde as pessoas devem morar numa casa de praia ou de montanha sem fazer nada, só gozando a vida?

Essa última eu respondo aqui e agora:

Se depender de mim, quero morrer teclando no computador. Mas não nesta noite, muito menos antes de terminar esta crônica. Prefiro protelar esse evento para daqui a alguns anos.

Ainda não tive tempo de contar para vocês tudo que penso e até mesmo quais são os meus sonhos mais recônditos. É, amigas e amigos, eu ainda tenho alguns grandes sonhos não realizados.

Um forte abraço e um ótimo fim de semana para todos.

Ivan Sant’Anna

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