Mercadores da Noite #228 - A inflação veio para ficar

Ivan Sant'Anna Publicado em 12/06/2021
5 min
Quando digo que a inflação veio para ficar, não estou me referindo somente ao Brasil. Desta vez, o dragão está atacando all around the globe.

Caro(a) Leitor(a),

Quando digo que a inflação veio para ficar, não estou me referindo somente ao Brasil. Desta vez, o dragão está atacando all around the globe.

Retornemos a um tempo longínquo, antes mesmo dos europeus terem chegado nas Américas.

Estamos agora num lugar distante, mais precisamente no extremo nordeste do deserto do Saara, no chifre da África, às margens do rio Nilo.
    
Julho de 1324. O imperador do Mali, Mansa Musa, partiu para uma peregrinação à Meca, jornada que os muçulmanos devem fazer ao menos uma vez na vida.

Sendo o homem mais rico do mundo, Musa liderava uma caravana de 15 mil homens, montados em camelos, sem contar outros milhares de animais carregados de provisões e abarrotados de barras e pepitas de ouro, além de pedras preciosas.

Na passagem pelo Cairo, a comitiva gastou uma fortuna em roupas, seda, cavalos, selas, escravas dançarinas e concubinas turcas e etíopes. Pagavam o preço que os vendedores pediam, sem regatear.

O dinheiro (moedas de ouro e prata) deixado na cidade foi tanto que, depois que a caravana foi embora, rumo à Meca, o meio circulante aumentou de tal maneira que provocou um surto inflacionário na cidade. Este durou vários anos. 

Inflação nada mais é do que isso: aumento de moeda sem o correspondente crescimento de bens e serviços. A caravana limpou as lojas e a mercadoria sumiu.

Passando para os tempos atuais, durante minha carreira de trader, broker e analista, já vi surtos inflacionários (estou falando do cenário global) acontecerem várias vezes, sendo o pior deles nos anos 1970, quando ocorreu o primeiro choque do petróleo.

Naquela ocasião, os números da inflação americana alcançaram dois dígitos. O motivo foi um só: alta cavalar no preço do petróleo ocasionada por um choque de oferta, represália dos países árabes, comandados pela Arábia Saudita, ao apoio dos EUA a Israel durante a guerra do Yom Kippur (outubro de 1973).

Com relação ao Brasil, só vale a pena analisar tendências inflacionárias e deflacionárias a partir do lançamento do Plano Real, em julho de 1994. 

Antes disso, principalmente após o governo JK (1956/1961), a inflação era uma constante por estas terras. A gente até aprendeu a conviver com ela. Achava normal.

Creio ser quase impossível que esses tempos voltem, pelo menos em um prazo descortinável.

Entre dezembro de 1988 e dezembro de 1989, a inflação brasileira, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor, foi de 1.972,92%. Só que, nessa época, nós que operávamos no mercado financeiro não fazíamos esse cálculo. A gente acompanha a inflação diária, que era o que determinava a taxa do overnight e a variação cambial.

“Qual é o dólar de amanhã?” – na mesa de operações, um trader perguntava para outro, por volta das 17 horas, que era quando o Banco Central divulgava o câmbio do dia seguinte.
“Onze mil, trezentos e dois cruzados novos (NCz$). Acabou de sair”, a resposta vinha no ato.

Como naquele dia o dólar fora cotado a NCz$ 11.001 (já não havia centavos), a inflação em 24 horas tinha sido de 2,74%. Sim, em 24 horas.

Duvido que neste século 21 o Brasil vá passar por situação idêntica. As pessoas simplesmente não aceitariam e o país ficaria sem moeda, que passaria a ser o dólar. Com certeza.

Nesse caso, quem pagaria o pato seriam os aposentados e os servidores públicos. Patrões e empregados da iniciativa privada se entenderiam.

Seja com a permanência de Bolsonaro em 2022, seja com a volta do Lula, seja com um terceiro, acredito que no máximo nossa inflação chegue a uns 15% ao ano. Aí teremos uma política extremamente hawkish, algo como aconteceu na administração Castelo Branco (1964/1967).

Nem tudo está perdido. No momento atual, por exemplo, o Brasil usufrui de duas vantagens:

- Somos uma potência de commodities, que mal começaram um superciclo. Poderão entrar dólares aqui a rodo, inibindo a inflação, mesmo com auxílios emergenciais e gastos do governo em ano de eleição.

- Outro fator positivo (porque dilui o fenômeno) é que o surto inflacionário está ocorrendo em todo o mundo, graças (ou desgraças) à expansão monetária causada pela Covid-19.

Anteontem saiu a inflação ao consumidor (CPI – Consumers price índex) dos Estados Unidos. Para espanto dos analistas, o número bateu 5% anualizados. Trata-se do maior nível dos últimos 21 anos.

Como o FED (Federal Reserve Bank) insiste em dizer que se trata de uma situação casuística, é possível que eles protelem o aumento da taxa básica (atualmente na banda 0,00%/0,25% a.a.).

Esse afrouxamento poderá agravar o quadro inflacionário.

Tanto na Europa como na Ásia, a situação é a mesma. Os estímulos à economia, penalizada pelo surto endêmico, deverão trazer  a inflação de volta. Para ficar.

Até que se inicie um novo ciclo. Tem sido assim através dos tempos.

Um ótimo fim de semana para vocês.


Ivan Sant’Anna

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