Mercadores da Noite #227 - Na calada da noite – Epílogo

Ivan Sant'Anna Publicado em 05/06/2021
5 min
Eis que surgem dois personagens completamente desconhecidos no negócio americano de carne. Tratavam-se dos irmãos brasileiros Wesley e Joesley Batista, donos da JBS.

Caro(a) leitor(a),

Na primeira parte desta crônica, publicada no sábado passado, James Lowery foi preso como suspeito do ataque às granjas do condado de Claredon, na Carolina do Sul, costa leste dos Estados Unidos.

Rastreamento dos locais percorridos pelo celular de Lowery mostravam que o aparelho se encontrava nas cenas dos crimes, justamente quando eles aconteceram.

Só que isso era uma prova circunstancial. Forte, mas circunstancial.
Faltava uma evidência concreta. Alguma testemunha que tivesse visto ele entrar nas granjas ou mesmo imagens de um circuito de televisão.

Como isso não aconteceu, James Lowery sequer foi a julgamento. Saiu incólume do episódio.

Um procedimento usado pelos abatedouros agravou a situação dos granjeiros. Entre estes, os que tivessem produtividade menor, seriam punidos com preços mais baixos na venda de seus frangos.

Ora, além dos prejuízos causados pelas invasões, que diminuíram o número de aves entregues aos frigoríficos, pelas restantes eles receberam menos, por quilo, do que o de costume.

Foi difícil para os criadores suportar as perdas mas, trabalhando duro, eles conseguiram.

Por razões completamente diferentes, o maior dos abatedouros, o Pilgrim’s Pride, também se viu em dificuldades. No processamento dos frangos, eles faturavam mais de 2 bilhões de dólares por ano. 

Isso graças a vultosos empréstimos bancários, tornando a empresa extremamente alavancada. Outro expediente foi comprar concorrentes. Ao adquirir a Gold Kist, por exemplo, adicionaram 2.300 criadores aos milhares que já tinham em sua rede de fornecedores.

Veio então a recessão de 2007, causada pela crise das hipotecas (subprime crisis). A Pilgrim’s simplesmente não aguentou a queda no volume de vendas de frangos para os varejistas.

Não teve outra alternativa a não ser a de declarar falência. Restava-lhe agora fechar plantas industriais e vender ativos os mais diversos.
    
Eis que surgem dois personagens completamente desconhecidos no negócio americano de carne. Tratavam-se dos irmãos brasileiros Wesley e Joesley Batista, donos da JBS. Eles eram simplesmente os maiores produtores de proteína animal do planeta.

Só que seu negócio, até então, era pecuária de corte.

Decididos a explorar um ramo novo, e num país que não era o deles, os Batista entraram para valer. De um dia para o outro, ao adquirir a Pilgrim’s, por nada menos do que 2,8 bilhões de dólares, passaram a deter 20% da produção de frangos nos Estados Unidos.

Dado o pontapé inicial, a JBS passou a se expandir pelo mundo. Em pouco tempo faturava US$ 50 bilhões anuais em cinco continentes.

A sigla JBS significa José Batista Sobrinho, pai de Wesley e Joesley. Ele começou o negócio na década de 1950 com um pequeno açougue, na cidade de Anápolis, em Goiás, que nem refrigerador tinha.

Os cortes de carne eram expostos num varal do lado de fora da modesta loja.

Quando assumiram o estabelecimento do pai, os dois irmãos pensaram grande: obtiveram financiamento bancário para adquirir abatedouros. Tornaram-se uma grande potência no ramo. Mais tarde, expandiram suas atividades para a pecuária.

O grande salto para se espalhar pelo mundo se deu com financiamento do BNDES, numa época em que o governo brasileiro decidira estimular a criação de campeões nacionais.  A JBS foi um deles.

Fugindo um pouco da história, mas não do assunto, no final dos anos 1940 e início da década de 1950 eu, Ivan Sant'Anna, morei com meus avós paternos na cidade de Catalão, no Sudeste de Goiás.

Lá não havia energia elétrica. O matadouro local era uma charqueada, pois toda a carne era imediatamente salgada logo após o abate. Eu conhecia o fiscal da charqueada: R. G. P.

Todos os dias, ele ia lá e ganhava uma peça de filé mignon. Era o preço para não inspecionar nada.

Como foi informado pela mídia, a JBS fazia isso em grandes proporções. Suas unidades dariam carne para fiscais do Ministério da Agricultura.

Só que isso era o pecadilho menor. Joesley e Wesley Batista eram os maiores financiadores de políticos brasileiros em campanhas eleitorais, o que lhes proporcionou enorme influência no Congresso Nacional.

O caso alcançou dimensões tão grandes que foi parar na Procuradoria Geral da República.
 
Em troca do pagamento de uma multa de um bilhão de reais, acrescida de delação premiada, onde até o presidente da República, Michel Temer, foi envolvido, os Batista garantiram sua liberdade e puderam continuar com seu negócio, embora passassem a direção para executivos de grande renome.

Durante décadas e mais décadas, para não dizer séculos, o Brasil foi receptor de investimentos externos. Só que, de alguns anos para cá, brasileiros de alto calibre estão comprando o controle de grandes negócios lá fora.

Tycoons como a trinca Jorge Paulo Lemann, Marcel Teles e Beto Sicupira adquiriram nada menos que a AB Inbev, a Kraft-Heinz e o Burger King, além de outras empresas.

A Vale (ex-Vale do Rio Doce) já é uma gigantesca multinacional. Um dia pode ser que o Magazine Luiza (que entra aqui apenas como exemplo) conclua que o Brasil se tornou pequeno para ele e se expanda para além-mar.

Outras companhias poderão fazer a mesma coisa.

Caro amigo leitor, cara amiga leitora, é bom ficar de olho. Romper fronteiras é um terreno de grandes oportunidades.

Bom final de semana!

Ivan Sant’Anna

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