Mercadores da Noite #225 - Inflação, sob outros prismas

Ivan Sant'Anna Publicado em 22/05/2021
5 min
Nós estamos caminhando para um momento no qual a inflação será o único fundamento do mercado. Só que com um detalhe: desta vez isso está acontecendo em todo o mundo.

Caro(a) leitor(a),
 

Em 1944, meu pai, Sebastião de Sant’Anna e Silva, então um economista de 29 anos (mais tarde faria mestrado na London School of Economics), publicou o livro A Inflação e o Custo de Vida. 

Naquela época, inflação e custo de vida eram coisas diferentes, sendo a primeira palavra significando expansão da moeda e a outra expressando alta dos preços, ou carestia, como se costumava denominar na ocasião. Na página 360 do livro, ele escreveu:

“As variações na quantidade de moeda manual ou bancária em circulação determinam variações correspondentes no preço médio das mercadorias ou serviços, desde que a quantidade destes últimos permaneça estável. O aumento da quantidade de moeda acarreta uma redução de seu valor e, consequentemente, uma elevação do preço médio das mercadorias.”

Durante a Segunda Guerra Mundial, não houve inflação na Alemanha. Isso porque, tão logo os Aliados viraram o conflito em seu favor, e as mercadorias começaram a rarear no país, o Reichsbank ia recolhendo o dinheiro em circulação, mantendo a relação equilibrada.

Mesmo um país paupérrimo pode não ter inflação. Nos anos 1960, o Brasil representava o Haiti no Fundo Monetário Internacional. Uma vez por ano, nosso delegado na entidade, Vitor da Silva, visitava Port-au-Prince e tinha um encontro com o ditador François Duvalier, o Papa Doc.

Não sei por que vocês, brasileiros, se preocupam tanto com inflação”, dizia ele. “Nós, haitianos, não temos esse problema e, como o senhor está vendo, o país não consegue sair da miséria.

Para não sofrer com inflação, ou melhor, ter a mesma inflação dos Estados Unidos, diversos países abdicaram de ter moeda própria e usam o dólar norte-americano em seu lugar.

Forçosamente, essas nações só podem gastar o que arrecadam (em dólares). É o caso, entre outros, de Barbados, do Panamá e, mais recentemente, do Zimbábue.

Antes do advento do euro, diversos Estados da África usavam uma unidade monetária comum, o franco CFA. Eis como narro o fato em meu livro Armadilha para Mkamba:

”Tratava-se da moeda única de 13 países africanos: Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Mali, Niger, Senegal, Togo, Camarões, República Centro-africana, Chade, Congo, Guiné Equatorial e Gabão. Circulava num universo de 85 milhões de habitantes.
    ...
A França garantia sua estabilidade e conversão.”

O franco CFA continua existindo, só que agora amparado pelo Banco Central Europeu.

A prevalecer o conceito que se usava antes, o de que inflação é expansão de moeda, estamos vivendo um surto inflacionário galopante. Nos gastos dos governos, os bilhões se transformaram em trilhões num piscar d'olhos.

Agora os trilhões de dólares e de euros, e de outras moedas menos representativas, terão de ser recolhidos, através de venda de títulos públicos para o mercado ou de aumento de impostos.

Passando para o cenário brasileiro, se alguma medida não for tomada, faremos uma jornada em direção ao passado. A começar pelos tempos do real, tivemos dois anos nos quais a inflação no Brasil foi de dois dígitos: 2002 e 2015.

Em 2002, último ano do governo FHC, temia-se que a vitória de Lula, que realmente aconteceu, arruinaria o Plano Real. Com isso, e por causa de um aumento defensivo de preços por parte dos agentes econômicos, a inflação foi de 12,5% (IPCA).

Treze anos mais tarde, após um represamento de tarifas e preços por parte da presidente Dilma Rousseff, a inflação chegou a 10,7%.

Agora, é altamente improvável que aconteça isso de novo, mas o fato é que o teto da banda fixada pelo Conselho Monetário Nacional será rompido em 2021.

Sendo 2022 ano eleitoral, e havendo a possibilidade de Bolsonaro “dilmar”, tudo é possível, mesmo com o BC tendo autonomia (eu preferia que fosse independência).

Ao longo de minha carreira no mercado, e antes da chegada do real, me acostumei a viver com um quadro inflacionário. No final dos anos 1960, quando vendia letras de câmbio da financeira Decred, eu achava um número entre 2,5% e 3% ao mês perfeitamente normal.

Naquela ocasião, como assalariado, os melhores meses do ano eram dezembro (quando recebia o 13º), janeiro (gratificação anual) e fevereiro (dissídio da categoria). Depois, o salário ia perdendo poder de compra até chegar o Natal seguinte.
    
Após a guerra do Yom Kippur (outubro de 1973) e o consequente primeiro choque do petróleo, mudou tudo. A inflação não parou de subir até se transformar em hiper.

Veio a época dos cortes dos zeros, das mudanças de denominações da moeda, dos choques heterodoxos e das tablitas deflatoras. Nesses tempos, investimento era defesa. Empatar com a inflação já era ótimo.

Vejam a tragédia que foi para os investidores em ações o mês de novembro de 1989. Enquanto o Ibovespa caiu 9,13%, a inflação (mensal, bem entendido) chegou a 41,42%.

Se as autoridades monetárias atuais não se derem conta do risco que estamos correndo, não acho impossível que, nos próximos anos, nos “argentinizemos”, mas tenho certeza de que não nos “venezuelaremos”. Neste caso, o governo, seja lá qual for, cai antes.

Nós estamos caminhando para um momento no qual a inflação será o único fundamento do mercado. Só que com um detalhe: desta vez isso está acontecendo em todo o mundo.

Um ótimo fim de semana para vocês.

Ivan Sant’Anna

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