Mercadores da Noite #224 - Minha carreira de broker

Ivan Sant'Anna Publicado em 15/05/2021
6 min
Lidar com esse pessoal foi uma das coisas mais prazerosas de minha carreira. Até hoje tenho saudades desse tempo. Mas tudo tem sua vez. Pelo menos me municiei de boas histórias para contar.

Caro(a) leitor(a),

Embora eu tenha sido trader, gestor, especulador por conta própria e até mesmo investidor conservador, situação na qual me encontro agora, durante 37 anos, entre 1958 e 1995, fui também broker.

Nunca separei por segmentos o dinheiro que ganhei. Mas acho que, se tivesse feito isso, a brokerage obteria o primeiro lugar. Sim, porque corretor não perde nunca. Pode até ganhar pouco, num mês fraco, mas prejuízo não tem.

Vejamos o perfil de minhas operações, e de meus clientes, ao longo desse tempo.

Quando, em 1958, comecei a trabalhar no câmbio, minha clientela era composta de grandes empresas importadoras e exportadoras.

    O broker, como era o meu caso, vendia dólares para os importadores e comprava dos exportadores.

    Eu trabalhava em Belo Horizonte numa corretora filiada à RENCO, Rede Nacional de Corretores. Como, naquela época, o Brasil produzia menos do que 20% do petróleo que consumia, eu fechava operações quase todos os dias com a Petrobras, vendendo dólares para eles.

    Na outra ponta, comprava a moeda americana da Cia. Vale do Rio Doce (atual Vale), da Hanna Mining Company e de diversos produtores de café. O segredo era conseguir melhores cotações para manter os clientes.

Mais tarde, quando a cotação do dólar passou a ser fixada pelo governo, minha função passou a ser apenas burocrática, me limitando a preencher os CCCs (contratos de cobertura cambial). Então tirei meu time dessa função. Passei a vender títulos de renda fixa para investidores. Não havia muitas alternativas. 

Tanto é assim que me lembro de apenas duas: apólices do Tesouro de Minas Gerais, que pagavam juros semestrais através de cupons, e notas promissórias da Cia. Siderúrgica Mannesmann, negociadas com deságio. Eu ficava com uma beiradinha do rendimento dos papéis.

Como o negócio era pouco rentável, decidi mudar de ares. Me habilitei para uma bolsa do Departamento de Estado dos EUA, passei no exame e fui estudar Mercado de Capitais (mais precisamente Portfolio Management), na New York University. Foi lá que conheci a imensidão do mundo dos investimentos.

De volta ao Brasil, após um pequeno período de vendedor de letras de câmbio, fundei a Fator Corretora e fui ser operador de pregão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.
    
Dei sorte. Peguei logo o grande bull market 1968/1971. Um auxiliar me trazia as ordens de compra e venda de ações, mas eu não sabia o nome dos clientes. Às vezes adivinhava, por causa do lote e do papel escolhido.

Como os grandes investidores e especuladores compravam e vendiam através de diversas corretoras, eu tinha de executar bem as ordens para não perder o freguês.

Apesar de trabalharmos de paletó e gravata, num ambiente sem ar-condicionado, que às vezes se transformava em uma estufa, foi uma das melhores épocas de minha vida. Sem contar que faturava uma grana preta.

A partir do segundo semestre de 1971, quando a Bolsa iniciou um bear market que durou quase dez anos, perdendo inclusive a liquidez, fui ser broker de renda fixa da própria Fator.

Meus clientes eram em sua maioria jogadores e técnicos de futebol. Eu operava para um que me recomendava a outro e assim por diante.

Quando, em 11 de maio de 1977, o Banco Central decretou intervenção no Banco Independência Decred, esses boleiros investidores teriam perdido todo seu dinheiro se eu não tivesse resolvido indenizá-los de meu próprio bolso, embora não fosse obrigado a isso.

Decidi então operar apenas no mercado internacional, só investimentos de alto risco e apenas para especuladores que sabiam que estavam ali para ganhar ou perder. Nada de velhinhas comprando apólices de Minas Gerais ou craques deixando todo seu dinheiro (e seu futuro após o fim da carreira) comigo.

Conheci então os tipos mais interessantes de minha carreira de broker.

A J A C, por exemplo, investia 200 mil dólares com a seguinte recomendação:
    “Não precisa ficar me telefonando todo dia dizendo como está o mercado. Se perder tudo, perdeu. Se subir para um milhão liquida e me transfere o dinheiro.”

S L era viciado. Ligava para mim e ia logo perguntando:
    “Qual é a boa, qual é a boa de hoje. Tô a fim duma grana...”
    “Bem, o S&P500 pode...”
    ”Compra 50 lotes”, ele se afobava.
    “Calma, S, Calma. O S&P está caro”, eu esclarecia. Acho que pode levar um tombo.
    “Vende 100, vende 100”, ele mudava de lado e dobrava a aposta.

A G F e N N eram feras no mercado nacional de opções da Cia. Vale do Rio Doce na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Mas comigo só operavam mercado internacional.
    "Compra dez mil contratos de prata!”, me dizia um deles. E eu ganhava o meu mês só na corretagem daquele trade.
    
O S cismava com o tempo.
    “Está há um mês sem chover no Sul de Minas. Já já cai um temporal. Vende 200 contratos de café a descoberto. Subiu demais.”
    Eu já ia dizer que a estiagem poderia durar mais outro mês mas desistia.
    “É pra já”, e apertava o botão da hot line internacional.

Outros gostavam de se exibir, quem sabe para alguma namorada. Telefonavam do Caribe ou Mediterrâneo.
    “Estou aqui no meu barco. A libra esterlina vai subir e puxar o cacau. Compra 100 contratos de cacau setembro.”
    Eu pensava: “Se o cacau vai subir por causa da cotação da libra, porque ele não compra a moeda em vez do cacau.” Pensava mas não dizia nada.

Lidar com esse pessoal foi uma das coisas mais prazerosas de minha carreira. Até hoje tenho saudades desse tempo. Mas tudo tem sua vez. Pelo menos me municiei de boas histórias para contar.

Um ótimo fim de semana para vocês.

Ivan Sant’Anna

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