Mercadores da Noite #223 - O que fiz com meu dinheiro – Epílogo

Ivan Sant'Anna Publicado em 08/05/2021
5 min
Quando larguei a mesa de operações, prometi jamais voltar a fazer investimentos de risco. Só renda fixa. Acontece que, com as atuais taxas de juros, não dá.

Caro(a) leitor(a),

Terminei a 2ª parte desta série de crônicas a respeito das aplicações e, principalmente, especulações que fiz ao longo de minha vida, falando sobre o desalento por ter perdido a oportunidade de ganhar uma fortuna vendido a descoberto no S&P500 no crash de 19 de outubro de 1987.

Por pouco, muito pouco, não mudei de profissão. Pensei em ser corretor de imóveis ou de seguros. Mas o tempo foi passando e continuei operando no mercado.

Ainda bem!

Em meados de 1988, fui convidado pelo presidente da Cia. Vale do Rio Doce (atual Vale), Wilson Nélio Brumer, para viajar para Londres e tentar obter um gold loan para a empresa.

Essa operação consiste em um empréstimo bancário a uma mineradora de ouro a ser pago com o produto da extração futura do metal.

Apesar dos banqueiros que visitei na capital inglesa terem sido super atenciosos, todos recusaram a operação.

“Não podemos correr o risco Brasil”, foi o que disse a maioria.

Como tinha comprado uma passagem triangular, Rio/Londres/Chicago/Rio, cruzei o Atlântico Norte para visitar o escritório da Shearson Lehman Brothers, corretora da qual era foreign broker.

Na Shearson, conversei com o meteorologista exclusivo deles, Jon Davis. Ele me disse que o fenômeno La Niña (esfriamento das águas do Oceano Pacífico), que estava ocorrendo àquele ano, deveria provocar uma seca no Meio-Oeste americano e reduzir sensivelmente a safra de grãos.

De volta ao Brasil, comprei grande quantidade de contratos de soja com vencimento em novembro na CboT (Chicago Board of Trade) para dois clientes meus. Para mim, adquiri poucos, pois estava sem caixa.

Incrivelmente, a grande perna do bull run de soja começou exatamente no dia de minha compra. Tanto foi assim que os depósitos de margem (US$ 90.000,00 para cada um) não foram necessários, já que a soja novembro fechou no limite de alta e o ajuste positivo foi maior do que US$ 90.000,00.

Quando liquidei a operação, um mês e pouco mais tarde, cada qual ganhou um milhão de dólares (US$ 2.240.000,00 em valores de hoje). Sem ter posto um centavo.

Embora não fossem obrigados a fazer isso, os clientes me deram no total US$ 200.000,00 de gratificação, fora o que ganhei em minha própria posição.

Fiz então uma viagem de carro ao Nordeste. Durou 40 dias, nos quais refleti muito sobre a vida (nessa época, eu já tinha 30 anos de mercado) e repensei meus projetos para o futuro.

Finalmente, de volta às trading desks, optei por alavancar minhas posições ao máximo, sempre correndo altos riscos.

Dei e levei diversas porradas.

Certo domingo, em dezembro de 1993, comecei a rabiscar uma história num caderno escolar de minha filha. Foi aí que surgiu o embrião de Julius Clarence, protagonista de meu primeiro livro, Os mercadores da noite.

Atuar no mercado tornou-se uma atividade secundária. Tanto é assim que viajei para Davenport, Chicago, Nova York, Londres, Paris e Bruxelas, fazendo pesquisas para o livro.

Só na biblioteca pública da Quinta Avenida, em Nova York, passei várias semanas lendo jornais das épocas nas quais a ficção transcorre.

No final de junho de 1994, arrisquei tudo que tinha no mercado futuro de café após uma geada que destruiu plantações nas regiões cafeeiras do Sul de Minas.

Dei uma das maiores tacadas de minha vida.

Como acumulara dinheiro para viver alguns anos sem trabalhar, decidi trocar os números pelas letras.

Em abril de 1995, larguei a linha de frente do mercado e passei a me dedicar única e exclusivamente a concluir o livro e a traduzi-lo para o inglês.

Texto pronto, enviei os originais para publishers e agentes literários do Brasil, Estados Unidos e Grã-Bretanha.

Só em cartuchos de impressora e remessas por Sedex, gastei uma pequena fortuna.

À toa.

Acreditem: não recebi nenhuma resposta.

Nem mesmo:
“Lemos seus originais e não temos interesse.”

”Recebemos seu livro.”

“Assim que pudermos, enviaremos uma resposta.”

Nada disso aconteceu. Os mercadores da noite (The Sunday Night Traders – na versão em inglês) não foi avaliado por ninguém.

Foi então que decidi escrever Rapina.

Submeti os originais à editora Record, que se interessou imediatamente.

Num almoço ocorrido entre o Natal e o réveillon de 1995, assinei contrato com eles.

Rapina foi lançado em abril de 1996. Já saiu em primeiro lugar nas listas dos mais vendidos, listas essas nas quais permaneceu durante cinco meses.

A partir daí, foi fácil vender os direitos de publicação de Os Mercadores da Noite.

Recebi US$ 50.000,00 da BM&F para lançar uma edição de luxo, exclusiva, de mil exemplares capa dura. Ou seja, US$ 50,00 por unidade. Foram distribuídos a pessoas de interesse da Bolsa.

Seis meses mais tarde, a editora Rocco publicou a versão para o público. Nos 25 anos que se seguiram, Os Mercadores... foi publicado pela Sextante, Arqueiro e finalmente Inversa.

Foi minha obra que mais vendeu, 65.017 exemplares, e continua sendo vendida até hoje.

A RT Features adquiriu os direitos de filmagem.

Publiquei outros 16 trabalhos literários, entre ficções e livros-reportagem.

Quando larguei a mesa de operações, prometi a mim mesmo jamais voltar a fazer investimentos de risco. Só renda fixa.

Acontece que, com as atuais taxas de juros, não dá.

Desde setembro do ano passado, passei a investir em ações e não posso me queixar dos resultados.

Tenho algumas regras que cumpro rigorosamente:

− Não ponho dinheiro em empresas das quais o governo é sócio nem naquelas cujos preços de venda de produtos e/ou serviços dependem de decisões governamentais. 

− Só compro papéis de empresas sólidas e tradicionais, cascudas, que atravessaram a hiperinflação, os choques heterodoxos e outros períodos de turbulência.

− Corro apenas os riscos inerentes às Bolsas de Valores.

Bem, foi isso que fiz com meu dinheiro.

Esta série dividida em três partes termina aqui. 

Quem sabe, minha vida de investidor ainda terá um novo capítulo, embora eu vá fazer 81 anos neste mês.

Um forte abraço e um ótimo fim de semana.

Ivan Sant’Anna

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