Mercadores da Noite #222 - O que fiz com meu dinheiro – 2ª parte

Ivan Sant'Anna Publicado em 01/05/2021
5 min
Existe um ditado no futebol que diz que “tem coisas que só acontecem ao Botafogo”. Eu acrescentaria: “e comigo também”.

Caro(a) leitor(a),

No primeiro episódio desta crônica em capítulos, terminei contando que meu filho do meio, então com 12 anos de idade, ficara doente, justamente num momento no qual eu estava sem plano de saúde, pois me encontrava em transição entre dois empregos.

Para que o caro amigo leitor não se aflija, vou logo adiantando que, embora ele tivesse um tumor no cérebro, a doença era benigna e que, após um ano “morre não morre”, se curou totalmente. Hoje tem 50 anos de idade e é professor de Matemática em Belo Horizonte.

Mas voltemos àquela época e ao garoto. Seu líquido cefalorraquidiano parara de fluir do cérebro para a espinha, provocando forte pressão intracraniana.

Operado de urgência no Rio de Janeiro, o neurocirurgião colocou uma válvula interligando, pelo interior de uma veia, através de um tubo sanfonado (que acompanharia seu crescimento até a idade adulta), o cérebro ao coração.

Isso salvou-lhe temporariamente a vida. Mas, ao longo dos sete meses seguintes, o tumor, que não fora extirpado, continuou crescendo.

Em fevereiro de 1983, quando nós já tínhamos perdido as esperanças de vê-lo sobreviver, o neurocirurgião Paulo Niemeyer indicou um médico do Hospital For Sick Children, em Toronto, no Canadá,  Doctor Harold J. Hoffmann, o único especialista no mundo com experiência em extração de um cisto aracnoide supraselar. Era este o nome da patologia.

Em dois dias meu filho, minha ex-mulher e eu embarcamos para Toronto.

Vou reproduzir rapidamente a primeira conversa que tive com o Dr. Hoffmann, que imediatamente marcou uma cirurgia para três dias depois.
“Quais são as chances dele, doutor?”

“100%. Já operei 14 casos iguais a esse, sempre com total sucesso.”

“Ele terá sequelas?”

“Nenhuma. Sua saúde será totalmente normal.”

Dito e feito. Após a cirurgia, que durou umas oito horas, meu filho ficou curado. Passou uma noite no CTI.

Na manhã seguinte, quando fomos visitá-lo (não são permitidos acompanhantes no Sick Children), já o encontramos na enfermaria (lá não há quartos particulares) tomando o breakfast.

Após um mês de convalescência, desembarcamos no Brasil. A ex e o garoto foram para Belo Horizonte. Pude então rever minha caçula, então com 10 meses de idade.

Entre o momento, quase um ano antes, no qual meu filho ficara doente, e minha viagem ao Canadá, eu não só gastara todo meu dinheiro como não acompanhara o andamento do mercado.

Agora estava sem um tostão, sem emprego e totalmente desatualizado com as mudanças na profissão, extremamente dinâmica.

Resolvi então operar no mercado internacional.

Comecei a estudar os futuros de Nova York, commodities, moedas, títulos de renda fixa etc.

Desenvolvi fórmulas que já tinham sido inventadas, e eram praticadas normalmente, sem que eu soubesse. Estudos de médias móveis, por exemplo.

Consegui emprego numa fundidora de ouro, pensando em operar o metal na Comex em Nova York.

O primeiro pedido que meu novo patrão me fez foi o de descer até a rua e comprar para ele um chocolate na Kopenhagen. 

Como ganhava comissão sobre a venda de barras de ouro, em três meses me vi em condições de juntar um dinheiro razoável. Pude então, com mais cinco profissionais, todos de meu círculo de relações, fundar uma distribuidora de valores.

Existe um ditado no futebol que diz que “tem coisas que só acontecem ao Botafogo”. Eu acrescentaria: “e comigo também”.

No primeiro dia de funcionamento da nova DTVM, um dos sócios (já falecido) fez uma posição em Letras do Tesouro Nacional tão alavancada que uma queda inesperada do mercado fez desaparecer nosso capital e reservas.

Resultado: passamos a operar apenas como brokers, portanto sem carregar posição própria.

Eu optei por fazer negócios só nos mercados internacionais. Seria corretor de clientes especulativos, gente rica, muito rica, que não se importasse em perder dinheiro.
    
Além do sustento da casa, que dividia com minha mulher, eu aplicava tudo que sobrava de meus rebates em operações de alto risco: futuros (long e short), calls, puts. Só não fazia investimentos “papai e mamãe”.

Entre o primeiro trimestre de 1984 e setembro de 1987, dei grandes porradas e levei outras tantas.

Cheguei a comprar dois apartamentos de cobertura na Barra na parte da manhã, e perdê-los à tarde, felizmente antes de preencher e assinar o cheque da compra.

Quando se iniciou o segundo semestre de 1987, eu estava plenamente convicto de que a Bolsa de Valores de Nova York iria sofrer um crash.

Comprei então para mim, e para a maioria dos meus clientes, puts (opções de venda) de S&P500, deep out of the money (completamente fora do dinheiro, ou seja, de exercício altamente improvável) com vencimento em setembro.

As opções expiraram e, como a Bolsa não caíra, elas viraram pó.

Como rolar a posição ficava muito caro, por causa do time value (valor do tempo), resolvi esperar um pouco para comprar puts para dezembro.

Foi então que aconteceu o crash de 19 de outubro de 1987, quando as ações da Bolsa de Nova York perderam, na abertura, um quarto de seu valor, uma queda maior do que a de 1929.

Se eu tivesse feito a rolagem das posições vendidas, como alguns clientes queriam, teríamos ganho uma cifra tão gigantesca, algo como 300 dólares para cada dólar investido, e jamais precisaria trabalhar na vida.

Nessa ocasião, pensei seriamente em abandonar a profissão. Mas acabei decidindo me dar mais uma chance.

Foi então que peguei na veia o bull market de soja de 1987.

Mas vou deixar para contar isso no próximo sábado.

Um ótimo final de semana para vocês.

Ivan Sant’Anna

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