Mercadores da Noite #220 - Golpe ou Revolução? Epílogo

Ivan Sant'Anna Publicado em 17/04/2021
6 min
Hoje, com a sabedoria que os anos nos dão, fico aliviado pelo fato de que a ditadura militar brasileira não tenha atingido as proporções genocidas de suas congêneres argentina e chilena.

Amigo(a) leitor(a),

Terminei o segundo e penúltimo episódio desta série quando, no dia 1º de abril de 1964, já alistado na Polícia Militar de Minas Gerais, tive acesso à lista dos comunistas que nós, voluntários, deveríamos prender.

Entre os primeiros nomes estava o do Emílio, da POLOP – Organização Revolucionária Marxista Política Operária – companheiro de meu clube de paraquedismo.

Pô, tudo bem. O cara, embora comunista assumido, era meu amigo (eu ainda não sabia que ele havia me incluído num dos Grupo dos Onze do Brizola). Não me perdoaria vê-lo preso no DOPS, onde eles levavam os “subversivos”, apanhando ou até mesmo sendo torturados pelos agentes da Revolução (ou do Golpe).

Fui até um botequim próximo ao quartel e telefonei para o apartamento do Emílio, na Lagoinha. “Cai fora, cara. Desaparece. Os homens (não disse que eu era um deles) vão aí te prender.”

Meia hora depois, a bordo de uma picape cedida por um dos novos revolucionários, estávamos arrombando o apartamento do Emílio que, seguindo meu conselho, caíra no mundo.

Fomos até outros endereços da lista e não encontramos ninguém.

O motorista da picape, que por tê-la cedido se considerava líder do grupo, sugeriu uma “caça livre”. Se achássemos algum comunista, o prenderíamos.

Acabamos encontrando um cara agitando uma bandeira com dizeres cujo teor já me esqueci. Mas era algo como “Pelas reformas, já”. Para agravar sua situação, ele usava uma camisa vermelha.

Pusemos o sujeito na caçamba da picape. Adiante, todo mundo desceu para ver se havia alguém num endereço suspeito, uma associação estudantil.

Me deixaram na viatura tomando conta do subversivo, ele sentado no chão; eu, de pé, apontando-lhe o .32.

Vendo que estávamos fora do campo de visão dos demais, falei para o prisioneiro: “Pula fora, tira essa camisa e some de vista”. Ele não esperou dez segundos para escapulir.

De mãos abanando, voltamos ao quartel. Recebemos uma segunda missão: ir até o convento dos dominicanos, se não me falha a memória no Alto da Serra, para prender Frei Betto.

Sim, Frei Betto. Carlos Alberto Libânio Christo, que eu conhecia pessoalmente havia seis anos, embora não fôssemos amigos.

Invadimos o convento. Fui até o quintal, onde havia uma horta, torcendo para não encontrar o Betto. Prendê-lo, matá-lo? O que faz um revolucionário, mesmo um revolucionário de merda como eu, nessas horas?

Felizmente Frei Betto não estava lá.

Como já anoitecia, decidi voltar para casa.

Levei um esporro de meu pai: “O que é que você está fazendo armado? Para quê esta faixa ridícula no braço? Não percebe que está colaborando com a implantação de uma ditadura militar que irá durar 20 anos?”. Errou por um.

Se você está pensando que ele era de esquerda, se engana. Tanto é assim que foi secretário-geral do Planejamento durante o governo Castelo Branco, de quem ficou amigo.

Aliás, o velho era o único de seus principais assessores que Castelo acompanhava até o elevador após despacharem no gabinete presidencial.

A propósito de meu pai, Roberto Campos escreveu em seu livro Lanterna na Popa:

“Acabei designando para a secretaria geral um antigo e respeitável funcionário do ministério da Fazenda, perito em finanças públicas e minucioso conhecedor das intricácias burocráticas – Sebastião de Sant’Anna e Silva.

Castelo Branco disse-me depois, repetidamente, que eu havia feito uma boa escolha para o Planejamento, que o fazia lembrar-se dos inspecteurs de finances que formavam a nata da administração francesa e garantiam a estabilidade e continuidade durante a louca dança da administração dos governos...”

Pois bem, segui o conselho e não mais me meti em política, limitando-me a aceitar o fait accompli revolucionário (ou golpista).

Em momento algum, durante os governos militares, fui afetado profissionalmente pelas decisões de Brasília. Pude operar à vontade nos diversos mercados e usufrui ao máximo o bull market da Bolsa de Valores em 1971, época essa em que enriqueci pra valer pela primeira vez.

Certa ocasião, durante o conturbado ano de 1968, saí às ruas para ver uma passeata contra o governo (Costa e Silva).

De pé, apoiado num dos anéis que decoravam os antigos postes de iluminação da avenida Rio Branco, o líder estudantil Vladimir Palmeira falava aos companheiros.

Ao invés de bradar somente contra a ditadura, ele atacava o imperialismo ianque, defendia a socialização dos meios de produção e a estatização do sistema bancário. Espinafrava o FMI.

No mesmo dia, à tarde, da janela do escritório de um amigo, assisti a polícia espancar de modo selvagem um estudante já imobilizado.

Não havia como ser partidário de nenhuma das partes em litígio.

Hoje em dia, com a sabedoria que os anos nos dão, fico aliviado pelo fato de que a ditadura militar brasileira não tenha atingido as proporções genocidas de suas congêneres argentina e chilena.

Por outro lado, fico imaginando o que teria acontecido se aqueles que, durante o governo João Goulart, houvessem implantado uma ditadura marxista no Brasil. Teria dado tudo errado.

Se os subordinados das Forças Armadas tivessem assumido o poder, como sugeria Jango, algum sargento ou cabo teria feito um governo caótico. De curta duração, suponho.

Caso os diversos movimentos de esquerda existentes em 1964, que por sinal viviam em conflito ideológico, não fossem derrotados, como aconteceu, o máximo que imagino seria uma guerrilha prolongada nas selvas brasileiras, patrocinada por Cuba e semelhante ao Sendeiro Luminoso, peruano, ou as FARCS, colombianas.

Em minha opinião, o Brasil jamais correu risco de se tornar um país marxista. Mesmo quando o comunismo controlava o destino de metade da população mundial, como nos Anos Sessenta.

O golpe de 1964 foi causado pela incompetência de João Goulart e pela afobação dos militares, que poderiam ter aguardado as eleições de 3 de outubro de 1965.

Ainda bem que pulei fora no dia e na hora certa.

Há uns dez anos, arrumando minhas gavetas, achei o revólver .32 com o qual quis mudar o Brasil, por inspiração de Carlos Lacerda.

Liguei para o distrito policial daqui da Barra da Tijuca e perguntei quais eram os procedimentos para devolvê-lo.

A pessoa que me atendeu disse que bastava eu ir lá três vezes. A primeira para pedir autorização para levar a arma. A segunda, para transportá-la até a delegacia. A terceira, para levar a munição.

Simplifiquei. Lancei o revólver e as balas do tambor num canal que passa atrás do meu condomínio. Estão dormitando lá até hoje em meio aos caranguejos e bagres que fuçam o fundo lodoso do braço de mar.

Ivan Sant’Anna

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