Mercadores da Noite #219 - Golpe ou Revolução? 2ª parte

Ivan Sant'Anna Publicado em 10/04/2021
6 min
Na pendência entre a dupla Jango/Brizola e os militares, eu, influenciado por meu ídolo político, Carlos Lacerda, torcia pelos milicos.

Caro(a) leitor(a),

 

Hoje prossigo o relato iniciado sábado passado, no ponto em que dizia que, na pendência entre a dupla Jango/Brizola e os militares, eu, influenciado por meu ídolo político, Carlos Lacerda, torcia pelos milicos.

Havia vários movimentos em andamento no Brasil.

Na banda da esquerda, Leonel Brizola queria promover uma revolução do tipo que Fidel Castro fizera em Cuba. Só que era um movimento desorganizado, ineficiente e trapalhão.

Brizola lançara a ideia dos Grupos dos Onze (como um time de futebol) que atuariam contra as Forças Armadas.

Ele recebia relações com os nomes dos integrantes desses grupos. Era tal a ingenuidade que não havia treinamento militar. Apenas nomes. A maioria, falsos.

Eu, por exemplo, sem saber, fui incluído num desses “times” de onze. Como saltava de paraquedas no aeroclube de Lagoa Santa, um dos meus companheiros, Emilio, que militava na POLOP – Organização Revolucionária Marxista Política Operaria − pôs meu nome numa de suas listas, obviamente sem me consultar. Só fui saber disso meses mais tarde.

O presidente João Goulart via o “movimento revolucionário” sem o menor entusiasmo. Queria apenas fazer o que denominava reformas de base: educacional, fiscal, política e agrícola. Mas era pressionado o tempo todo por seu cunhado Brizola e pelos líderes sindicais.

Certa ocasião, Jango quis encerrar uma reunião em palácio com os principais sindicalistas. Só que, ao se levantar, o presidente foi empurrado de volta ao assento por um dos interlocutores. “A reunião ainda não terminou”, disse o pelego. Do outro lado, à direita, havia dois grupos um pouco mais organizados.

Na Escola Superior de Guerra (que os militares chamavam de Sorbonne), localizada na praia Vermelha, no Rio, alguns oficiais superiores, liderados pelo general Humberto de Alencar Castelo Branco, conspiravam para derrubar o governo, não necessariamente para substituí-lo por uma ditadura.

Eles só não queriam que o comunismo dominasse o Brasil.

Em Belo Horizonte, alguns opositores de Jango estudavam como apeá-lo do poder. Entre seus líderes, os generais Olympio Mourão Filho e Carlos Luiz Guedes, além do governador de Minas, José de Magalhães Pinto.

Esse pessoal se reunia no escritório de um corretor de valores, com o qual eu trabalhava e que me punha a par dos fatos.

O tempo foi passando e, com isso, os movimentos de oposição perdendo o sentido uma vez que havia eleições presidenciais marcadas para o dia 3 de outubro de 1965, nas quais (esta é uma opinião minha) a vitória de Juscelino Kubitschek contra Carlos Lacerda seria uma barbada.

Só que as esquerdas (tanto a pacífica quanto a revolucionária) não estavam nem um pouco satisfeitas com a opção JK/Lacerda. Foram então insistindo com João Goulart para que liderasse uma revolução, tendo como base de apoio armado os subtenentes, sargentos, cabos e soldados das Forças Armadas.

Em fevereiro de 1964 Leonel Brizola foi fazer um comício no auditório da Secretaria de Educação de Minas Gerais, em Belo Horizonte.

Um grupo, do qual fiz parte (não se esqueçam que eu era um lacerdista fanático de 23 anos), armou-se de pedras e porretes e impediu que o carro de Brizola se aproximasse da Secretaria.

Com o rabo entre as pernas, ele retornou ao aeroporto da Pampulha e, de lá, para o Rio.

Dois eventos precipitaram o golpe (ou revolução) de 1º de abril.

Em 24 de março de 1964, João Goulart fez um comício a favor das reformas de base. Discursou de um palanque armado bem em frente ao prédio do Ministério da Guerra. O evento ficou conhecido como Comício da Central do Brasil (cujo terminal fica bem ao lado).

Na segunda-feira, 30 de março, Jango falou na sede do Automóvel Clube do Rio de Janeiro, localizada no Passeio Público, próximo da Cinelândia.

Desta vez, pôs pra quebrar. Incitou soldados, cabos e sargentos a se revoltarem contra seus oficiais.

Vamos e convenhamos: isso daria deposição do presidente em qualquer lugar do mundo.

Num país de sólida e secular formação democrática, o que não era bem o nosso caso, através de um impeachment a toque de caixa feito pelo Congresso. Aqui, na base do salve-se quem puder.

Quando eclodiu a revolta, Jango não quis partir para o confronto, uma vez que iria certamente perder, e fugiu para o Uruguai, via Porto Alegre.

Com algumas exceções, entre elas o “marechal do povo, Osvino Alves (presidente da Petrobras) e o “almirante do povo” Cândido Aragão (comandante do Corpo de Fuzileiros Navais), as altas patentes das Três Armas aderiram.

Logo, o país passou a ter três chefes de governo: 

1. o legítimo, Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, que recebera a faixa presidencial do senador Auro de Moura Andrade, após João Goulart ter saído do país, sem autorização do Congresso. Mazzilli não decidia nada;

2. a Junta Militar que se autodenominou Alto Comando da Revolução: Artur da Costa e Silva (Exército), Augusto Rademaker Grünevald (Marinha) e Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica);

3. os que puseram os tanques na rua (ou melhor, na estrada): generais Olympio Mourão e Carlos Guedes (apoiados pelos governadores Magalhães Pinto e Carlos Lacerda).

Por favor, não riam. Agora vou narrar minha participação nisso tudo.

No dia 1º de abril de 1964, fui insuflado pelas palavras de Lacerda. Este, arma em punho, capacete na cabeça, por trás de uma barricada no palácio da Guanabara no Rio de Janeiro, vociferava pelo rádio contra o almirante Aragão dos Fuzileiros Navais, cujas tropas estavam ali perto: “Pode vir que vou te matar com o meu revólver”.

Como eu estava em Belo Horizonte, e não podia me juntar a Lacerda no Guanabara, .32 na cintura, me alistei na Polícia Militar de Minas Gerais, que aceitava voluntários para fazer a Revolução.

Não havendo tempo para confeccionar uma farda para mim, assim como para os demais novatos, nos deram braçadeiras amarelas com um triângulo vermelho, aquele do Libertas quae sera tamem, da bandeira de Minas.

Tive então acesso à lista dos comunistas que deveríamos prender.

Logo no início estava o nome do Emílio, meu companheiro paraquedista, o tal da POLOP.

Imediatamente tomei uma decisão.

Mas vou deixar para revelá-la no próximo episódio, sábado que vem.

Até lá,

Ivan Sant’Anna

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