Mercadores da Noite #218 - Golpe ou Revolução? 1ª parte

Ivan Sant'Anna Publicado em 03/04/2021
5 min
O ano era 1960. Na segunda-feira, 3 de outubro, foram disputadas eleições presidenciais. Os candidatos ao Planalto eram Jânio Quadros, Henrique Teixeira Lott e Adhemar de Barros. O problema é que na época se podia votar para o presidente de uma chapa e para o vice de outra.

Caro(a) leitor(a)
 

Antes de mais nada, a transição de 1º de abril (os militares anteciparam a data em um dia para que não fossem motivo de chacotas) não foi golpe (coup d’État ou putsch) nem revolução.

No golpe de estado clássico, militares, revolucionários ou rebeldes invadem o palácio do governo, prendem ou matam o chefe de estado da vez e assumem o poder. Não foi o caso em 1964.

Para evitar derramamento de sangue (versão dele), quando percebeu que iam tentar depô-lo, João Goulart saiu do Rio para Brasília com a família, arrumou rapidamente as malas, voou para Porto Alegre e, de lá, para Montevidéu, onde pediu, e recebeu, asilo político.

Enquanto isso, o presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade, declarou vago o cargo de presidente e nomeou para o lugar de Jango o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli.

Muito menos foi revolução, nome que se deu ao movimento durante anos. Só mais tarde, quando José Sarney assumiu a Presidência, é que as pessoas passaram a chamar de golpe.

Revolução foi a Francesa, a Americana, a Russa, a Chinesa, a Cubana. Combates nas ruas, campos e colinas. Correu sangue. Muito sangue. Chamar o que aconteceu aqui em 1964 de Revolução é uma piada. Então o que foi?

É isso que vou contar nessas páginas. Como o texto é grande, terei de usar duas, três ou quatro crônicas Os mercadores da noite para narrá-lo na íntegra.

Minha versão não será a que acho hoje, mas sim a que achava nos dias em que as coisas aconteceram. Sim, porque já tinha 20 anos de idade quando tudo começou.

O ano era 1960. Na segunda-feira, 3 de outubro, foram disputadas eleições presidenciais. Os candidatos ao Planalto eram Jânio Quadros, Henrique Teixeira Lott e Adhemar de Barros.

O problema, e é por isso que digo que foi naquela ocasião que tudo começou, é que na época se podia votar para presidente no candidato de uma chapa e para vice no de outra.

Pois bem, o vice de Jânio era Milton Campos, ex-governador de Minas Gerais. O de Lott, João (Jango) Goulart, ex-ministro do Trabalho de Getúlio Vargas.

Havia um político do Sul, Fernando Ferrari, apoiador de Jânio, que se candidatou a vice, pelo PDC, sem cabeça de chapa. E dividiu os votos daqueles que escolheram Jânio. Graças a isso, o povo brasileiro elegeu uma dupla disforme, Jânio/Jango, adversários políticos.

Era como se hoje votássemos para presidente e escolhêssemos Bolsonaro/Haddad. Ou Lula/Sérgio Moro. Me lembro bem do meu voto: Jânio (presidente) e Milton Campos (vice). 

Somados os votos de Milton Campos e Fernando Ferrari (os dois candidatos que apoiavam Jânio), eles somariam 6.375.101, contra 4.547.010 de João Goulart.

Como eu era admirador fanático do deputado Carlos Lacerda (cheguei a carregá-lo nos ombros), apoiei (como se isso valesse alguma coisa) Jânio Quadros até que Lacerda rompeu com ele.

No dia 25 de agosto de 1961, com apenas 206 dias de exercício do poder, e sem que ninguém esperasse, Jânio renunciou. Fidel Castro fizera isso em Cuba pouco antes, para adquirir plenos poderes, e lograra êxito em sua pretensão. O mesmo acontecera com Gamal Abdel Nasser, no Egito.

Nas principais cidades do Brasil, meia dúzia de gatos pingados saíram às ruas exigindo a volta de Jânio. Mas não passou disso. No Congresso Nacional, um deputado mineiro, José Maria Alkmin, político que dava nó em pingo d'água, proclamou da tribuna que renúncia era um ato unilateral e, portanto, inapreciável pelo Parlamento.
    
Só restava acatá-la. Frustrado, Jânio pegou um navio cargueiro em Santos e se mandou para a Inglaterra. O Brasil ficou na seguinte situação. Ranieri Mazzilli, presidente interino, enquanto João Goulart se encontrava em Cingapura, retornando de Pequim, onde visitara ninguém menos do que Mao Tsé-Tung.

Golpe, revolução, coup, putsch, seja o que for, ou o que foi, a semente plantada por egoísmo de Fernando Ferrari germinou ali. Os militares brasileiros simplesmente detestavam Jango, que reputavam como comunista.

Para regressar a Brasília, João Goulart pegou a rota mais tortuosa possível: Cingapura/Paris/Nova York/Buenos Aires/Montevidéu/Porto Alegre.

Enquanto isso, seu cunhado, Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, apoiado pelo general José Machado Lopes, comandante do 3º Exército, sediado em Porto Alegre, montou a Rede da Legalidade. A Rádio Guaíba, cujo sinal foi retransmitido por diversas emissoras, transmitia seguidamente a Canção do Soldado:

“Nós somos da Pátria a Guarda, fiéis soldados...” Não foi só o general Lopes que apoiou a posse de Jango. Eu (risos) também apoiei. Embora lacerdista, era ainda mais legalista. E João Goulart era o vice constituído.

Como é comum no Brasil, decidiu-se por um meio termo. Jango assumia, mas implantava-se o parlamentarismo. Fui contra a decisão no "tapetão", mas não me lembro de ter sido consultado por nenhuma das autoridades civis e militares envolvidas na pendência.

Jango podia ser tudo. Menos bobo. Já instalado no palácio do Planalto, conseguiu que o parlamentarismo fosse submetido a um plebiscito. Este ocorreu em 6 de janeiro de 1963. Eu votei em branco. Na verdade, escrevi um palavrão na cédula eleitoral.

Pois bem, João Goulart, agora como chefe de estado e chefe de governo, tinha dois anos e meio pela frente até as eleições de 1965. Os principais candidatos eram Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda e Leonel Brizola. 

Só que este último, sendo cunhado de Jango, era inelegível. Tanto foi assim que o slogan da campanha de Brizola era: “Cunhado não é parente, Brizola pra presidente.” Foi então que a encrenca entre a dupla Jango/Brizola e os militares começou a crescer.

Nessa altura dos acontecimentos, eu torcia pelos milicos. Ah, antes que me esqueça: eu e o Carlos Lacerda, embora já não me lembre se ele consultou sua montaria (não era eu que o punha nas costas?) ou não.

Meu texto continua no próximo sábado.

Um ótimo fim de semana para vocês.

Ivan Sant’Anna

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