Mercadores da Noite #216 - A pomba virou gavião

Ivan Sant'Anna Publicado em 20/03/2021
5 min
Esta semana o FOMC (Federal Open Market Committee) optou, tal como se esperava, por manter a taxa básica americana na faixa entre 0,00% e 0,25%. No Brasil, a pomba se transformou em gavião.

Caro(a) leitor(a),

 

Diz-se em economês internacional que, quando uma autoridade monetária toma uma decisão contracionista, elevando a taxa de juros, por exemplo, ela adotou uma postura hawkish. Hawk quer dizer gavião em inglês.

Por outro lado, se a medida é expansionista, reduzindo os juros ou até mesmo tornando-os negativos, em termos reais ou absolutos, fala-se que foi dovish. Dove significa pomba.

Pois bem, esta semana o FOMC (Federal Open Market Committee – Comitê Federal de Mercado Aberto do FED, Banco Central dos Estados Unidos), optou, tal como se esperava, por manter a taxa básica americana na faixa entre 0,00% e 0,25%.

    Em sua entrevista à imprensa após a reunião do Comitê, o chairman do FED, Jerome Powell, deu a entender que os juros (se é que essa banda rasteira pode ser chamada de juros) poderão permanecer neste nível até 2023.

Portanto o cenário de política monetária dos Estados Unidos é totalmente coerente com a alta do mercado de ações, com o Dow Jones, o S&P500 e o Nasdaq próximo das máximas.

Passemos agora para o Brasil, onde a pomba se transformou em gavião.

Na reunião do COPOM (Comitê de Política Monetária do Banco Central) da última terça-feira, 16 de março, cujas decisões foram divulgadas na quarta, 17, após o fechamento dos mercados, a autoridade monetária não fez por menos.

O gavião deu uma bicada de 75 pontos, com a taxa se elevando de 2% a.a. (menor nível de todos os tempos) para 2,75%. A grande maioria do mercado esperava uma subida de 50 pontos, de 2 para 2,50. Alguns poucos projetavam 0,25% e quase ninguém pensou em 75, que foi o que deu.

Em seu comunicado ao final da reunião de dois dias, o BC deixou praticamente explícito que a próxima alta (em maio) repetirá a dose  (75 pontos), elevando os juros para 3,5%. 

    Não irá parar por aí. A dosagem poderá ser até menor, mas continuará se repetindo ao longo do ano. Desse modo, se o gavião der mais três bicadas de 50 gramas até dezembro, entraremos 2022 com uma taxa anual de 5%.

Só que pode ser mais. Já tem gente precificando a Selic em 6,90% ao final do ano. Em seu primeiro termo como instituição autônoma (eu preferia independente) o BC não poderá se dar ao luxo de furar o teto da meta.

Seria um vexame para Roberto Campos Neto estrear a autonomia desse modo. Quem não está gostando nada disso são os empresários e os sindicatos.

Embora não tenha dito nada a respeito, Jair Bolsonaro deve estar sentindo uma pontada de arrependimento por ter chancelado a autonomia (eu prefiro independência) do Banco Central.

Só que o capitão-presidente está entre a cruz e a caldeirinha. Ou entra em seu ano eleitoral com a economia pressionada pelas taxas de juros ou em um cenário de retorno aos tempos de inflação.

É praxe (mas não regra geral, muito menos obrigatoriedade) no mundo inteiro que os bancos centrais não alterem juros em períodos pré-eleitorais. Por isso creio que Campos Neto quer resolver o problema inflacionário ainda este ano.

No momento em que escrevo este trecho do texto, o Ibovespa acaba de fechar com uma queda de 1,47%, a 114.835. Significa que os investidores realmente se assustaram com a dose inesperada dos juros, embora não tivessem entrado em pânico, caso em que a queda seria muito maior.
    
A  sensação que tenho é que um trader está perguntando ao outro: 
“Será que o BC tem dados da inflação maiores do que o esperado?”

O grande risco (estou falando de risco real, bem plausível) é que o Brasil esteja saindo de uma recessão para uma estagflação. Ela se materializará se os níveis de contaminação e de óbitos por Covid continuarem, obrigando as autoridades estaduais e municipais a decretar novas medidas de distanciamento dos cidadãos.
    
Pode até ser que o novo ministro da Saúde ou o próprio presidente da República adotem o procedimento. “Bolsonaro? Duvido!, pode estar questionando um leitor. Jair Bolsonaro fará qualquer coisa para melhorar (ou “despiorar”) a avaliação de seu governo.

De uma coisa, tenho certeza. Já tenho 80 anos de idade e jamais voltarei a ver a taxa Selic em 2% ao ano. Foi uma miragem que durou seis meses apenas, um ponto fora da curva ocasionado pela recessão provocada pela Covid.

Antes, vínhamos descendo a rampa desde outubro de 2016, quando o Copom começou a aliviar sua postura hawkish levada a cabo para corrigir as deformações de preços causadas pelas medidas eleitoreiras de Dilma Rousseff para se reeleger na Presidência.
    
Que voltaremos a subir a ladeira, não tenho a menor dúvida. Isso só terminará quando o Banco Central se certificar que sua meta inflacionária, fixada pelo CMN, foi cumprida.

A situação econômica do Brasil está péssima. Quase nenhuma promessa de liberalismo foi cumprida. Só os idiotas da objetividade não veem isso.
Os 75 pontos de aumento do Copom foram apenas um retrato da conjuntura.

Já que esta crônica fala de bichos, acho bom acrescentar que a avestruz tirou sua cabeça de dentro da areia e olhou em volta. Um ótimo fim de semana para vocês, caros amigos leitores.

(assinatura do Ivan)
Ivan Sant’Anna
 

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