Mercadores da Noite #99 - O jogo virou durante o intervalo

Ivan Sant'Anna Publicado em 28/01/2019
5 min
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Nota do editor: Na newsletter de hoje, o Ivan chama a atenção para acontecimentos recentes, incluindo o desastre em Minas Gerais, que podem frear momentaneamente o ritmo de alta da Bolsa. No entanto, com a orientação de especialistas, sempre é possível encontrar alternativas rentáveis na renda variável. Acompanhe a nossa série O Acelerador de Ganhos e veja a dicas do George Chen para aproveitar ao máximo o mercado em 2019 e conquistar ganhos de 300% em 12 meses. Clique aqui para assistir ao segundo episódio que acaba de ser divulgado.

 

Caro leitor,

Desde o primeiro dia útil de 2019, 2 de janeiro, até a última quinta-feira, 24, o mercado de ações de São Paulo praticamente não fez outra coisa a não ser subir.

Com exceção de duas ou três sessões de correção (ou realização de lucros, como queiram) o Ibovespa, em 17 pregões, subiu 10 mil pontos, mais precisamente 10.141,83, o que equivale a incríveis 11,6%, configurando, sob todos os critérios, um tremendo bull market.

Agora, o cenário mudou e a Bolsa vai cair. Não acredito que volte aos 85.535 do início do ano, mas acho que tão cedo não faremos novos highs.

O estopim da virada, todo mundo sabe, é a tragédia ocorrida em Brumadinho (MG), em uma barragem de contenção de rejeitos de minério de ferro da Vale, não só causando graves consequências ambientais (embora muito inferiores às de Mariana, da Samarco, em 2015) mas com consequências humanas no mínimo dez vezes maiores.

As ações da Vale, que têm um peso de cerca de 11% no índice, vão levar um tombaço, cujo montante não arrisco prognosticar. Mas garanto que será grande. E levará o resto das cotações em seu vácuo.

Em meu juízo, outros fatores se somarão ao desastre da Vale, entre eles o crescente escândalo envolvendo o senador eleito Flávio Bolsonaro, escândalo esse que cada dia apresenta um fato novo. Novo e mais grave.

Depósitos sucessivos e suspeitos em dinheiro vivo, feitos em caixas eletrônicos, tentativas de iludir o Coaf, recebimento de parte do salário de assessores parlamentares do então deputado estadual Bolsonaro.

Para o filho nº 1, a tragédia de Brumadinho está sendo um alívio. Tirou seu nome das primeiras páginas dos jornais e do foco principal dos noticiários da TV.

Por outro lado, resta saber até onde Jair Bolsonaro está envolvido (mesmo que por omissão) nas estripulias do primogênito. Numa declaração à agência Bloomberg, em Davos, o presidente disse que, se Flávio errou, tem de pagar. Mas à tarde no mesmo dia minimizou a culpa do filho.

O grande risco é que se prove o envolvimento de pai e filho no apoio às atividades de milicianos no Rio de Janeiro, com destaque para as homenagens que Flávio fez ao ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães, suspeito de chefiar atividades ilegais na favela de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Como se só isso não bastasse, Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete na Alerj, Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, respectivamente a mãe e mulher do capitão Adriano.

O fato de que o presidente da República e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, elogiem seguidamente militares e policiais, mas nada falam contra as milícias e grupos de extermínio, pode começar (se é que já não começou) a trazer desconforto para o ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Moro, como se sabe, é o ícone de honradez do governo Bolsonaro. Se ele tirar o time de campo, a auréola de seriedade do Planalto vai levar um baque. Não há de ser um Lorenzoni que irá segurar a peteca.

Jair Bolsonaro pôs diversos generais em cargos-chave de seu governo. Não há nada de ilegal nisso e a maioria de seus 55 milhões de eleitores deve ter aprovado a escolha.

Os generais não estão mostrando nenhum desconforto ao bater continência para um capitão. Afinal de contas, bateram para Lula e Dilma que, tal como Bolsonaro, eram comandantes supremos das Forças Armadas.

Mas, suponho, esses oficiais de alta patente não deverão achar nenhuma graça se começar a ficar provado que há ligações entre o clã Bolsonaro e milicianos. Estes, no frigir dos ovos, são tão bandidos quanto os assaltantes e traficantes que eliminam.

Dominam suas áreas com mão de ferro, senhores da vida e da morte. Sem contar que cobram “gatos” na rede de energia elétrica, são “concessionários” de TV a cabo, detêm o monopólio de distribuição de gás engarrafado e, cúmulo dos cúmulos, autorizam construções em terrenos de uso público, como áreas de lazer comunitário.

Restam trunfos de peso ao governo Bolsonaro: Paulo Guedes e as reformas.

Se as opiniões de Guedes (que, por sinal, teve um desempenho notável em Davos) prevalecerem, Bolsonaro topar acordos com o Congresso que lhe permitam passar as reformas, além de não interferir na investigação do filho, o bull market da Bolsa vai retomar sua trajetória e fazer novas máximas.

Acontece que, no momento, os céus se tornaram turvos, como a água do Paraopeba, e o Ibovespa vai levar uma tamancada.

Quando um evento trágico ocorre num feriado, como a catástrofe de Minas, os touros da Bolsa ficam inertes, confinados em piquetes. Parecem aquela vaca de olhar triste que os jornais exibiram atolada até o pescoço na lama que desceu pelo leito do córrego do Feijão.

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Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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