Mercadores da Noite #91 - O mercado é forte

Ivan Sant'Anna Publicado em 06/12/2018
6 min
Mas pode ser fraco

Nota do editor: Você está recebendo uma nova crônica inédita do Ivan Sant’Anna. Aproveite para conhecer um pouco mais sobre o que pensa um dos maiores traders do país. Além disso, de terça a sexta você pode conferir mais crônicas do Ivan, incluindo insights sobre investimento, na Warm Up PRO.

Caro leitor,

Durante os anos nos quais operei apenas nos mercados internacionais (Chicago, Nova York e Londres) eu assinava uma newsletter escrita por Ted Arnold, um analista inglês. Entre as muitas coisas que aprendi com ele, uma delas era o conceito de que “um mercado que reage bem a notícias ruins é um mercado forte”.

O inverso também procede: “mercado que reage mal a notícias boas é um mercado fraco”. Essas máximas sempre funcionam. Vejamos alguns exemplos:

Em 2002, último ano do segundo mandato do governo FHC, a Bolsa caiu, o dólar subiu e as taxas de juros abriram com a perspectiva de um governo Lula. 

Eis que, pouco antes do primeiro turno das eleições, os mercados reverteram, justamente quando a vitória petista se tornou praticamente certa. Bolsa pra cima, dólar e juros para baixo. 

Era, ainda segundo o axioma Ted Arnold, o momento ideal para compra de ações. E quem comprou se deu muito bem, rachou de ganhar dinheiro. Pois, entre a vitória de Lula sobre Serra no segundo turno e a posse de Lula em 1º de janeiro de 2003, o Ibovespa não fez outra coisa senão subir.

Hoje em dia, analisando-se os acontecimentos daquela época, podemos ver que o então escolhido ministro da Fazenda, Antonio Palocci, em conversas ao pé do ouvido, garantiu aos banqueiros e líderes empresariais que as políticas fiscal e monetária da gestão FHC seriam mantidas. Mais do que isso, afirmou que a meta de superávit primário seria elevada. 

E foi isso que fez o mercado de ações subir (e o dólar cair) nos prolegômenos da administração de um partido que, desde a sua fundação, defendia as moratórias interna e externa, a estatização dos bancos, a reforma agrária e outros programas de cunho socialista.

Portanto, Ted Arnold estava mais do que certo. Os “comunistas” vão vencer. O mercado está gostando disso. Compre o mercado.
Nessa época eu já tinha deixado de ser trader para me tornar escritor. Mas antes tive ocasião de lucrar com a Teoria Arnold (vamos chamá-la assim).

No fim de semana 25 e 26 de junho de 1994 houve uma geada de proporções apocalípticas que devastou os pés de café do Sul de Minas. Pois bem, na segunda-feira 27 o mercado de Nova York abriu com um breakaway gap (a mínima daquele dia ficou muito acima da máxima de sexta-feira).

A alta dessa segunda foi de 25%, com pouquíssima liquidez (poucos touros tiveram coragem de comprar naqueles níveis; raros ursos ousaram vender, apesar da alta colossal). Mas eu fui “muito macho” e comprei, tanto para mim como para meus clientes.

Foi a porrada que eu esperava para fazer uma reserva que me permitisse largar o mercado para me dedicar em tempo integral a escrever Os mercadores da noite, que se tornara minha ideia fixa.

Por incrível que possa parecer, à geada seguiu-se uma seca que destruiu cafezais de outras regiões do Brasil. O mercado, já alto, foi para a estratosfera. Certo?

Errado!

A cotação da libra-peso da traiçoeira rubiácea andou de lado por alguns dias, vacilando no topo, e deu início a um processo de queda, apesar dos analistas afirmarem que com a geada e a seca o café poderia subir ainda mais. Só que não entrei nessa. Com o Arnold na cabeça, liquidei as posições. E só não fiquei short porque naquele momento meu único objetivo na vida era Julius Clarence, personagem principal de Os mercadores da noite, que me aguardava enciumado para termos um colóquio a dois.

Com a grana do café viajei para Davenport (no estado de Iowa), Chicago, Nova York, Londres, Bruxelas, Lausanne, locais onde, em duas viagens, desenvolvi toda a trama do livro.

Quatro anos antes do episódio do café, em 1990, o mercado de petróleo se encontrava debilitado. Havia superprodução, os estoques nos países consumidores eram muito altos e os membros da Opep tentavam controlar os preços através de um sistema de cotas, com produções fixas para cada um. 

Só que três produtores importantes, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, trapaceavam o sistema e vendiam petróleo cru por baixo do pano. Com isso, o preço do barril, tipo WTI (Western Texas Intermediary), que deveria ser mantido em 21 dólares, caíra para 17 dólares na NYMEX (New York Mercantile Exchange).

Eis que, sem a menor explicação, o preço subiu para 20 dólares. Eu não hesitei. Vesti a pele do urso e “shorteei” um lote grande. Ignorei a Teoria Arnold e me ferrei.   

Na madrugada (fuso horário de Bagdá) de quinta-feira 2 de agosto de 1990, tropas iraquianas invadiram o Kuwait. O mercado de petróleo de Nova York (onde era fim de tarde) acabara de fechar. E eu, short.

Fui zerar minhas posições a 27 dólares, sofrendo um dos maiores revezes de meus 37 anos de profissão. Tudo isso porque cismei que o mercado estava errado quando subiu de 17 para 20 dólares em meio a uma crise de superprodução e de estoques elevados. E teria quebrado se tivesse insistido no erro porque o preço do barril subiu para 46 dólares em meados de outubro enquanto o Ocidente se organizava para tirar as tropas de Saddam Hussein do Kuwait.

Em minha opinião, qualquer trader que se preze (e preze o próprio bolso) deve esquecer os fundamentos se o mercado está indo radicalmente contra eles. Isso é sinal de que há um fundamento oculto. Ou, pelo menos, oculto para você. Mas não para os insiders. É claro que Saddam sabia da invasão do Kuwait e as ordens de compra que levaram o preço do barril de 17 para 20 dólares devem ter partido de pessoas ligadas a ele, senão do próprio ditador iraquiano, como eu insinuo em Os mercadores da noite.

O mercado, seja ele de ações, de commodities ou de instrumentos financeiros, é cheio de regrinhas como essa que expus acima. Que devem ser conhecidas, respeitadas, mas não obedecidas às cegas, como se fosse um manual de instruções. 

O mercado é mais arte do que ciência. É terreno fértil para os ousados, mas não para os irresponsáveis. É para machos e “machas” com os pés fincados no chão e a cabeça no lugar. 

Gostou dessa newsletter? Então me escreva contando a sua opinião no mercadores@inversapub.com

Um abraço,

Ivan Sant’Anna  

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