Mercadores da Noite #89 - Crônica de improviso

Ivan Sant'Anna Publicado em 26/11/2018
6 min
No meio da incerteza

Mercadores da Noite

Nota do editor: Nesta edição, o Ivan fala sobre as perspectivas e as incertezas que ainda rondam o governo Bolsonaro e como aproveitar as oportunidades de mercado que surgem com a nova gestão. Quem também te ajuda a identificar esses momentos é o Pedro Cerize, um dos principais gestores do país e que acertou o último ciclo de supervalorização da Bolsa. O Pedro vai te ajudar a surfar essa nova onda de ganhos para multiplicar seu patrimônio. Clique aqui e veja o que ele tem a dizer sobre o mercado.

 

Caro leitor,
Quase sempre quando escrevo esta crônica das segundas-feiras há um ritual que precede a elaboração do texto. Raramente o argumento sai de estalo de minha cabeça, como se eu fosse um Nelson Rodrigues ou Paulo Francis das finanças.

Em primeiro lugar, o que para mim é o mais difícil: preciso pensar e repensar o tema. Este pode ser algum erro grave que cometi ao longo dos 60 anos nos quais acompanho o mercado, seja esse erro operacional ou de avaliação para terceiros. Neste segundo caso, não perco dinheiro, mas os leitores que me acompanham podem perder. Isso é desgastante para mim.

Pudera.

É horrível para um escriba que se preze ver seus vaticínios contrariados pelos fatos.

Há também as inúmeras vezes nas quais acertei. Ainda bem. Caso contrário, não teria ficado tanto tempo no mercado financeiro, seja como trader, floor trader, broker ou analista.

Sem falsas demagogias, o prazer de ver uma de minhas análises se concretizar é tão grande como dar uma tacada pessoal nas bolsas de valores. Se não me entope de grana, me enche de satisfação.

Escolhido o tema, costumo fazer o que os roteiristas de televisão chamam de escaletas, que nada mais são do que a compartimentagem do roteiro da crônica.
Pois bem, vamos a um exemplo, uma cena que estou inventando neste momento.

Em sua baia na corretora em que trabalha, situada num dos arranha-céus da extremidade sul da ilha de Manhattan, em Nova York, Magda Smith olha fixamente para um dos monitores à sua frente. Ela opera commodities agrícolas para um grande fundo de pensões e tem autonomia de decisões, embora limitada a determinado valor.

“Vietnam Ministry of Agriculture estimates 2018 coffee crop down 12% from 2017 (O Ministério da Agricultura do Vietnã estima a safra de café de 2018 doze por cento menor do que a de 2017)”, a frase aparece num lettering que se desloca lentamente da direita para a esquerda na parte inferior da tela.

Assimilada a notícia, e teclando rápido, Magda compra, na ICE, ali mesmo em Nova York, a um dólar, 10 centavos e 95 centésimos de centavo por libra-peso, 200 contratos futuros de café com vencimento em março de 2019.

A operação equivale a US$ 4.160.625,00. Mas o fundo para o qual Magda Smith trabalha terá de depositar apenas US$ 420.000,00 como margem de garantia da operação, o que significa uma alavancagem de quase 10 vezes.

Embora minhas escaletas preparatórias de textos não contenham explicações tão detalhadas como as que fazia para a TV, sempre projeto o passo a passo da crônica.

Exemplificando:

a) Linha de atuação do ministério de Jair Bolsonaro vai tomando forma.

b) Paulo Guedes será o responsável por toda a área econômica; Sérgio Moro, pelo combate ao crime organizado e à corrupção.

c) Outras áreas ainda estão nebulosas, com ministros desconhecidos, sendo que alguns cercados de descrédito.

d) etc, etc, etc.

Agora, e só agora, começo a escrever o texto da crônica de hoje, que sai no mesmo formato do preparo de um episódio de uma série de TV. 

Confiram:

O resultado das eleições presidenciais deixou claro que o povo optou pela direita liberal (mesmo que não entenda o significado desse conceito) e rejeitou a esquerda corrupta. Não exatamente por ser corrupta – grande parte do populacho acha que todo político é ladrão − mas por ter falhado em prosseguir melhorando a renda e o emprego no país.

Jair Bolsonaro já disse ao que veio. Vai delegar poderes nas áreas econômica e de combate ao crime, mas cuidar pessoalmente dos setores de seu interesse, sobre os quais faz declarações todos os dias. E é aí que mora o perigo.

Alguns ministros foram indicados pelas bancadas BBB (Bala, Bíblia e Boi). Esses três setores nem sempre comungam das mesmas ideias e poderá ocorrer conflitos entre eles.

Certos ministros são no mínimo exóticos. Entre eles, um chanceler, diplomata de carreira que jamais conseguiu ser embaixador, e um responsável pela Educação, colombiano, indicado por um “filósofo” residente nos Estados Unidos, homem que se julga irresistível.

O presidente será escravo da Constituição, mas fará tudo para mudá-la através de emendas.

Do mesmo modo, respeitará a autonomia dos demais poderes, mas tentará trocar, na medida do possível, as pessoas que ocupam os cargos principais do Legislativo, Judiciário e Ministério Público. Poderá tentar também, através de PEC, reduzir a idade máxima dos ministros do STF de 75 para 70 anos, o que lhe dará oportunidade de nomear quatro novos nomes para a Suprema Corte.

Se a facada de Juiz de Fora ajudou Bolsonaro a ser eleito, por outro lado atrasará sua posse de fato. Poderemos ter uns dez ou vinte de dias de governo Hamilton Mourão.

Tanto os bons fluidos como as incertezas já estão precificados pelo mercado. Resta observar o resultado desse blend exótico. Isso só se saberá a partir de fevereiro, quando a nova Legislatura do Congresso tomar posse.

Se Guedes e Moro prevalecerem, e Bolsonaro não inventar muito nas outras áreas, o bull market de ações partirá para novos highs.

Enquanto não se sabe o que de fato irá acontecer, o Ibovespa será vendido em rallies e comprado em dips. O dólar, por sua vez, oscilará entre R$ 3,70 e R$ 3,90.

O mercado é uma velha locomotiva “maria-fumaça” cujas caldeiras exigem lenha ou carvão o tempo todo. A cada tantos quilômetros precisa de água para não derreter.

Resumo da ópera (oops, das escaletas do roteiro): o governo Bolsonaro ainda é uma incógnita, cujos atrativos para um bull market prolongado ainda precisarão ser confirmados.

Até lá, esse episódio da minissérie Brasil ainda não poderá ser de todo planejado.

É preciso decifrar o desfecho dos fatos. Não tão cedo que nos leve a cometer erros que se transformem em prejuízos. Não tão tarde que nos faça perder o mercado.

Gostou dessa edição de Mercadores da Noite? Então, me escreva e conte a sua opinião no isantanna@inversapub.com.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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