Mercadores da Noite #88 - O jogo dos sete erros

Ivan Sant'Anna Publicado em 19/11/2018
6 min
As regras para ganhar

Mercadores da Noite

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Caro leitor,

   
1 – “Cut your losses, let your profits run” – Numa tradução livre, isso significa: “zere seus prejuízos, deixe seus lucros crescerem”.

Recentemente, um leitor me escreveu informando que comprara ações de seis empresas. Em três estava ganhando. Nas outras três, tendo prejuízo.

Ele me disse que pretendia vender as lucrativas e ficar com as demais, até que subissem e zerassem as perdas.

Isso é uma das maiores bobagens que um trader pode fazer. Fique com as ações boas (tanto é assim que se valorizaram), livre-se das perdedoras, através de stops curtos. Não deixe o marlim levar a isca, o anzol, a linha, a carretilha e até você.


2 – “Bulls make money, bears make money, pigs get killed”. “Touros ganham dinheiro, ursos ganham dinheiro, porcos são mortos”.

Esse ditado de Wall Street quer dizer que aqueles que apostam na alta ganham dinheiro; na baixa, também. Mas aqueles que compram, vendem em dobro quando os preços começam a cair, compram em dobro quando voltam a subir, estão sempre correndo atrás do mercado. Se deixam influenciar pelo último movimento.

A solução é simples: está convicto de que vai subir, compre sempre com um stop prefixado. Se acha que vai despencar, venda a descoberto, também com stop.

Não tente tourear o mercado. O miúra vai acabar com você.
3 – Seu preço de custo não tem a menor importância.

É muito comum um trader se jactar para outro. “Estou ganhando uma grana roxa em Petrobras. Comprei a 18 e já está a 25.”

“Porra, sete paus de lucro. Vende, vende agora.”

“Não venda”, digo eu. Se o mercado está a 25, seu preço de custo é 25. Só venda se achar que nesse nível há pouco espaço para subir. E se perceber que a ação ficou cara demais, dê uma de espada. Venda em dobro. Fique short ou compre puts.

Por mais que a lógica determine que preço de custo não tem a menor importância, boa parte dos traders sempre o leva em conta. Ou faz até pior:

Compra determinado ativo, por exemplo, a 31, o mercado cai para 24 e o cara não zera a posição.

“Eu sou mão firme. Não vou dar uma de otário. Só vou liquidar quando voltar lá no meu custo, nem que tenha de morrer sentado nos papéis.”

O curioso é que morre mesmo.

Em 1974, a libra-peso de açúcar chegou a ser cotada a 65 centavos, numa época em que o mercado achou que a mercadoria ia faltar. Pois bem, se consideramos a inflação americana, os 65 centavos de 1974 equivaleriam hoje a US$ 3,33. Fora os custos de carregamento e de oportunidade.

Jamais, caro amigo leitor, jamais leve em consideração seu preço de compra ao manter ou se desfazer de uma posição, seja lá de que ativo for.

4 – “Lucro nunca deu prejuízo a ninguém”. O cara que costumava dizer isso (já morreu há alguns anos) achava que sempre que um ativo subia (em relação ao preço de compra) deveria ser vendido imediatamente.

“Subiu, vende!”

Fico imaginando se ele tivesse comprado Microsoft em março de 1986 no primeiro IPO da empresa. Teria pago 21 dólares por ação. E certamente teria vendido os papéis por algo como 30 dólares.

“Lucro nunca deu prejuízo a ninguém”, dá para fechar os olhos e vê-lo dizendo isso, sentado na trading desk em frente a mim.

Após dar nove bonificações (splits), a Microsoft está hoje cotada a US$ 108,50.

5 – Bargain hunters (caçadores de barganhas), também chamados de bottom pickers. São aqueles que procuram encontrar o fundo do mercado.

As ações da empresa OGX, do empresário Eike Batista, já chegaram a valer R$ 23,39 reais. Agora são negociadas a pouco mais de R$ 2,00.

Esse tipo de negócio é perda de tempo. Se o papel caiu tanto, é porque há uma razão. No caso de OGX, as reservas de petróleo e gás, que deveriam estar na área prospectada pela empresa, simplesmente não existiam, ou as quantidades eram insignificantes, em escala pouco comercial.

Pode ser que, por alguma razão, elas até subam para R$ 2,50.  Mas não é para isso que as pessoas devem estar no mercado.

A ideia é comprar ações com boas perspectivas de crescimento e surfá-las por anos a fio.

6 – Não faça apostas fifty-fifty. Quando as pesquisas de boca de urna indicarem um empate técnico entre os candidatos liberal e esquerdista. Se ganhar o primeiro, a Bolsa dispara. Na hipótese da vitória do segundo, despenca.

Fique de fora, aguarde a manifestação das urnas e invista de acordo com elas.

Se quiser jogar meio a meio, vá a Las Vegas e aposte no vermelho. Ou no preto. Ou no par. Ou no ímpar.
7 – Não se sinta obrigado a “treidar” todo dia. Ganhou muito dinheiro? Pra que abrir a guarda? Pra que devolver?

Em 1988, ganhei uma fortuna no mercado de soja. Na verdade, infinito por cento. Sim, porque nem depositei margem. A operação foi tão boa que o ajuste positivo do primeiro dia foi maior do que eu teria de deixar de garantia.

Pois bem, nas semanas que se seguiram à liquidação do trade e à realização do lucro, saí comprando e vendendo tudo que via pela frente. Resultado: devolvi uns 10% do dinheiro que havia ganho.

Deu a porrada do século? Pare um pouco. Faça um cruzeiro de navio ou um safári fotográfico na savana africana. Leve a cara-metade, ou o cara-metade, para conhecer os fiordes da Noruega.

Não opere com a sensação de imbatível. Isso vai torná-lo vulnerável às armadilhas do mercado.
Um lucro realizado na hora certa nunca deu prejuízo a ninguém.

Gostou dessa edição de Mercadores da Noite? Então, me escreva e conte a sua opinião no isantanna@inversapub.com.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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