Mercadores da Noite #83 - Assassinato em Istambul

Ivan Sant'Anna Publicado em 15/10/2018
6 min
Investimentos para o segundo turno

Mercadores da Noite

Caro leitor,

O segundo turno das eleições presidenciais brasileiras só acontecerá daqui a 13 dias, mas o mercado já sabe que o próximo presidente será o capitão e deputado Jair Bolsonaro.

Nesta segunda-feira, após o fechamento da Bolsa, sairá a primeira pesquisa Ibope relativa ao segundo turno.

O que não constava do programa era a hipótese de que os mercados lá fora se tornassem palco de uma instabilidade que não se via há um bom tempo.

Independentemente de Bolsonaro, Haddad ou Ibope, os investidores e especuladores nacionais vão ter de prestar muita atenção ao comportamento da Bolsa de Nova York nesta segunda-feira.

Se nada de extraordinário estiver acontecendo e as ações em Wall Street confirmarem o retorno ao bull market que já dura quase uma década, o Ibovespa vai subir, e subir com força, animado com a possibilidade de termos um governo amplamente favorável ao capital e ao empreendedorismo.

Só que Wall Street ensaia uma entrada em zona de turbulência. Essas coisas, às vezes, são passageiras. Em outras ocasiões, transformam-se em cumulonimbus com rajadas de ventos ascendentes e descendentes e formações de granizo.

Na última quarta-feira (10), por exemplo, justamente no primeiro pregão após a pesquisa do Datafolha de intenção de votos do segundo turno, os dados que apontaram Bolsonaro com uma vantagem de 16 pontos sobre Haddad, o índice Dow Jones deu o ar de sua (des)graça, caindo 831,82 pontos ou 3,15 por cento.

O mercado em São Paulo não teve como não acompanhar o Dow Jones. Tanto é que o Ibovespa caiu 2.408,44 pontos ou 2,80 por cento.

No dia seguinte (11), o movimento baixista prosseguiu, embora com menor intensidade. São Paulo perdeu 758,04 pontos ou 0,91 por cento. Isso porque em Nova York o índice Industrial Dow Jones caiu menos: 546 pontos (- 2,1 por cento).

Como na sexta-feira (12) foi feriado no Brasil, o mercado aqui fechou na quinta-feira muito assustado. E se houvesse um crash em Nova York com a bolsa em São Paulo fechada sem ninguém poder se defender com stops?

Quem acompanha a movimentação das bolsas internacionais, mesmo quando a daqui não está operando (eu sou uma dessas pessoas), viu Wall Street recuperar parte de suas perdas na sexta-feira, com o Dow subindo 1,15 por cento para 25.339,99.

Com esse fato novo e a vitória de Jair Bolsonaro cada vez mais certa, São Paulo deve amanhecer nesta segunda-feira devendo. Devendo uma alta que corresponda a de Nova York durante o feriado e que reponha o Ibovespa nos trilhos, impulsionado pelo otimismo com relação ao novo governo que tomará posse em 1º de janeiro de 2019.

Só que há um problema que estou testemunhando em meu monitor. É meia-noite de domingo para segunda aqui no Brasil e os mercados asiáticos, que iniciam mais uma semana, estão trabalhando em forte baixa, quem sabe sinalizando uma nova queda para Nova York.

Se o Dow Jones voltar a tomar um tombo nesta segunda-feira, será muito difícil o Ibovespa se sustentar.

O assassinato e provável esquartejamento do proeminente jornalista saudita Jamal Khashoggi, no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, está no foco da imprensa mundial e deixando as nações democráticas indignadas.

Crítico contundente do príncipe Mohammed bin Salman, que detém todo o poder na Península Arábica, Khashoggi tinha uma entrevista agendada no consulado saudita em Istambul para tratar dos papéis de um divórcio.

Uma equipe de 15 agentes de Riad (entre os quais diversos médicos legistas) desembarcou em Istambul, ficou algumas horas no interior do consulado e, após concluir seu “serviço”, retornou imediatamente para seu país. A entrada e saída desses homens foram captadas por câmeras de segurança instaladas na rua da representação diplomática.

Não é incomum que incidentes como esse se transformem em graves crises mundiais. Estando a Arábia Saudita envolvida, o potencial de influência no mercado de petróleo é grande.

O presidente Donald Trump já anunciou que, confirmado o assassinato do jornalista nos moldes da acusação das autoridades policiais turcas, irá punir severamente os sauditas.

Embora a palavra de Trump não seja merecedora de muito crédito, o certo é que o preço do barril de petróleo está subindo neste instante, tanto na Ásia como nos pregões eletrônicos noturnos da Europa e dos Estados Unidos.

Apesar da correção de sexta-feira, o mood do mercado de ações de Nova York está ameaçando passar do ciclo do touro para o do urso.

Hoje, é um dia no qual os investidores de bolsa do Brasil devem esquecer as eleições (Bolsonaro já levou) e prestar atenção no Dow Jones, no Nasdaq, no S&P500 e nos futuros de petróleo na Nymex em Nova York.

Se a ameaça de Trump foi da boca pra fora, o que não é de se admirar, e o assunto Khashoggi cair no esquecimento e não influenciar Nova York, o Ibovespa deverá retomar seu rumo de alta, fazer novas máximas e partir para os 100 mil pontos. Mas isso jamais irá acontecer em caso de uma crise que engolfe os mercados acionários dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia.

Há outras duas ameaças pairando sobre o mercado de ações de Wall Street:

A primeira seria uma aceleração no ritmo e nas doses aplicadas pelo FED para esfriar a overheated economia americana. Não podemos nos esquecer que o presidente Trump está criticando ferozmente o novo chairman da instituição, Jerome Powell. Aliás, nomeado por ele.

Esses entreveros entre a Casa Branca e a Reserva Federal, que por sinal são raríssimos, sempre acabam respingando nas bolsas.

A segunda ameaça é o agravamento da guerra comercial entre Estados Unidos e China.

Voltando ao cenário interno, cada vez mais o mercado vai prestar atenção nos acenos de Jair Bolsonaro nesta ou naquela direção. Mas isso sem tirar o olho do que acontece lá fora.

Se houver um surto mundial de gripe, nós vamos pegar pneumonia.

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Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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