Mercadores da Noite #77 - Apenas um observador

3 de setembro de 2018
O Jogo da Década

Mercadores da Noite

Caro leitor,

Imaginemos um jornalista americano, judeu, em Berlim, no dia 30 de janeiro de 1933, que caiu numa segunda-feira. Adolf Hitler acaba de ser nomeado, pelo presidente Hindenburg, chanceler da Alemanha.

Naquela noite, de uma das janelas da chancelaria, Hitler, tendo ao lado Hermann Goering e outros líderes nazistas, assistiu a uma demonstração gigantesca. Dezenas de milhares de seguidores empunhando archotes desfilaram em frente ao cabo austríaco.

O jornalista, que testemunhou a parada, não perdeu tempo. Antecipando-se à História, enviou um telegrama para sua redação, nos Estados Unidos, informando que a Alemanha tinha um novo líder e que esse líder era extremamente popular, tendo tudo para se tornar um ditador, tão grande era a quantidade e o fanatismo de seus adeptos.

Pergunto: era esse hipotético jornalista um hitlerista? Impossível, em se tratando de um judeu.

Dezesseis anos antes, durante a Primeira Guerra Mundial, mais precisamente na frente oriental alemã (ocidental para os russos), oficiais do tzar estão sendo linchados pelos seus próprios soldados. O ano de 1917 está começando.

Um correspondente de guerra, também americano, assiste ao massacre. Percebe que a Alemanha ganhou a guerra no Leste. Bom observador, enxerga ainda mais longe. Nota que os líderes dos soldados e cabos que matam a baionetas seus oficiais são todos bolcheviques e mencheviques.

Isso quer dizer que o correspondente era comunista?

Não. Tratava-se apenas de um repórter que enxergou o óbvio ululante. E tratou de informar ao seu jornal, nos EUA, que o tzar iria cair, o que acabaria acontecendo dois meses depois, com a abdicação de Nicolau II.

Os empresários que tinham negócios petrolíferos na Rússia e que acreditaram na matéria do jornalista mais do que depressa venderam suas concessões pelo melhor preço que conseguiram.

Quando Lênin assumiu o poder em novembro daquele ano (outubro no calendário russo), uma de suas primeiras providências foi estatizar os meios de produção, inclusive a exploração de petróleo.


O dólar mantém sua forte alta em setembro e, com as incertezas trazidas pelas eleições, pode disparar ainda mais. Se você ainda não se preparou para esse movimento, confira aqui um documento que detalha como aproveitar o momento e dobrar o seu dinheiro com o dólar.


Na segunda-feira 30 de março de 1981, quando saía de um evento no Washington Hilton Hotel, na capital americana, o presidente Ronald Reagan foi vítima de um atentado a bala perpetrado por um jovem chamado John Hinckley Jr., que cometeu o crime com a intenção de se exibir para a atriz Jodie Foster que, por sinal, nunca tinha ouvido falar do rapaz.

Digamos que um passante tivesse assistido à cena. E que era um investidor em ações.

Sem saber se Reagan iria sobreviver ao tiro que o atingiu, nosso acionista imaginário tratou de correr para o telefone público mais próximo, de onde mandou seu corretor liquidar sua posição na Bolsa.

Tinha o aplicador alguma relação com o atentado? Nenhuma. Tal como o jornalista judeu de Berlim e o correspondente de guerra do front germano-russo, ele teve a “sorte” (se é que o substantivo cabe em meio à tanta tragédia) de estar no meio dos fatos.

Por puro reflexo, ou até mesmo por deformação profissional, no dia 11 de setembro de 2001, tão logo o segundo avião atingiu as torres do World Trade Center, muita gente se aproveitou do fato para liquidar posições compradas de ações ou do S&P futuro e até mesmo vender o índice a descoberto.

Durante a semana passada, em minhas crônicas na Warm Up,analisei a performance de quatro candidatos à presidência da República no Jornal Nacional, da TV Globo: Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin e Marina Silva. Concluí, assim como muitas pessoas desapaixonadas como eu, que o único que se deu bem foi o capitão Bolsonaro.

Imediatamente recebi mensagens de elogio por ser eleitor do deputado (não sei de onde tiraram isso) e um número ainda maior de e-mails me esculhambando por votar no candidato de extrema direita.

Uma leitora me acusou de ser racista, homofóbico e agressor. E terminou seu e-mail com um categórico “babaca”.

Com certeza fui mal compreendido por essas pessoas. Minha posição foi a mesma do jornalista de Berlim, do correspondente de guerra de 1917 e da testemunha do atentado contra Reagan.

Simplesmente vi um fato e o interpretei de acordo com meu juízo. Se foi mérito de Jair Bolsonaro, ou demérito de seus entrevistadores, cabe a cada um decidir.

Em minha opinião, durante sua apresentação Bolsonaro não perdeu um eleitor sequer e deve ter roubado alguns dos adversários.

Isso não quer dizer que eu seja seguidor ou admirador do capitão. Tal coisa ficou clara nos quatro parágrafos de minha crônica Golpe ou Revolução – 1º Ato, publicada nesta mesma newsletter Os Mercadores da Noite em setembro do ano passado:

Eis o texto:

“Entre 1º de abril de 1964 e 15 de janeiro de 1985, quando Tancredo Neves foi eleito pelo Congresso, pondo fim ao regime dos generais, fiquei totalmente neutro.

Detestava quando ouvia, aos cochichos, relatos de prisões arbitrárias e torturas. Detestava o mesmo tanto quando via as passeatas da esquerda apregoando “Fora FMI”, “O povo, unido, jamais será vencido”, “Pelo fim das remessas de lucro”, “Minério não dá duas safras”, “O petróleo é nosso” e todo aquele besteirol esquerdista.

Nessa época eu só me dediquei a ganhar dinheiro no mercado financeiro.

Agora, ao ver os relatos do que aqueles que defendiam “todo o poder aos sindicalistas” fizeram nos mandatos Lula e Dilma, e ouvir as bobagens que os Mourões e Bolsonaros apregoam, me sinto feliz por ter agido desse modo.”

Continuo pensando e atuando assim até hoje. Sou apenas um observador. Na época em que especulava nos mercados, ainda tirava minhas casquinhas. Hoje em dia, nem isso.

Você gostou desta newsletter? Então me escreva contando a sua opinião no isantanna@inversapub.com

Um abraço,

Ivan Sant'Anna    

P.S.: E para os bons observadores do mercado, quero chamar a atenção para 5 ações Small Caps com excelentes perspectivas. Apenas um especialista está olhando para estes ativos agora, mas quando os seus preços subirem, muita gente dirá que a valorização era óbvia. Se você deseja conhecer os ativos antes da maioria do mercado, leia aqui.

Conheça o responsável por esta edição:

Ivan Sant'Anna

Trader e Escritor

Uma das maiores referências do mercado financeiro brasileiro, tendo participado de seu desenvolvimento desde 1958. Atuou como trader no mercado financeiro por 37 anos antes de se tornar autor de livros best-sellers como “Os Mercadores da Noite” e “1929 - Quebra da Bolsa de Nova York”. Nas newsletters “Os Mercadores da Noite” e “Warm Up Inversa”, Ivan dá sugestões investimentos, conta histórias fascinantes e segredos de como realmente funciona o mercado.

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