Mercadores da Noite #76 - Esta batalha, eu venci

27 de agosto de 2018
A grande tacada de 1987.

Mercadores da Noite

Caro leitor,

Em 1987, tal como acontecia todos os anos naquela época, o mercado futuro de moedas de Chicago, negociado na IMM (International Monetary Market), um braço da CME (Chicago Mercantile Exchange), funcionava em horário normal no dia 31 de dezembro, que naquele ano caiu numa quinta-feira.

A liquidez naquele momento era pequena. Da Europa, já não surgiam ordens: as pessoas em Trafalgar Square, na Champs-Élysées, na Via Veneto e nas cervejarias de Munique estavam celebrando o réveillon. Aqui no Brasil, tal como acontece todos os anos, o dia 31 foi feriado para quase todo mundo.

Eu era “caxias”, “cdf”, you name it. Fiquei em minha trading desk do banco Graphus, na esquina das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, até o final do pregão. No escritório, além de mim, só o segurança. Nessa época, eu “treidava” as carteiras de alguns clientes de perfil especulativo, assim como a minha própria. Era broker de outros, também especuladores, que tomavam suas próprias decisões.

Faltavam 15 minutos para as 19 horas – 14h45 em Chicago −, onde eu também tinha uma mesa de trabalho, na Shearson Lehman. Em meia hora, o mercado iria fechar.

Eu dividia minha atenção entre o monitor de cotações e um estudo sobre o mercado de ações de Nova York, cujo índice futuro, S&P500, também era negociado em Chicago.


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Setenta e três dias antes ocorrera um crash na Bolsa de Nova York, que ficou conhecido como Black Monday. Ao longo da sessão dessa segunda-feira, o Dow Jones perdera um quarto de seu valor.

Mesmo assim, olhando a NYSE gregorianamente, naquele ano de 1987, considerando-se de 31/12/1986 a 31/12/1987, o Dow subira 1,9 por cento. Para um investidor hipotético no mercado de ações que tivesse sofrido um desastre no réveillon de 1986, permanecido 12 meses em coma e acordado naquele dia, o ano de 1987 teria sido um eventless year. Em termos de Bolsa, é claro.

Faltando uns quinze ou vinte minutos para o fechamento em Chicago, notei que diversas moedas faziam seus highs pós-guerra. Ainda não existia o euro. Em 1987, o marco alemão subira de US$ 0,5213 para 0,6421 (+20,15 por cento); o franco suíço de 0,6247 para 0,7950 (+23,17 por cento); a libra esterlina de 1,4720 para 1,8825 (+27,89 por cento, embora esta última não estivesse fazendo novo high – já valera mais em 1981) e o iene japonês de US$ 0,006354 para US$ 0,008316.

Iene valendo mais do que um centavo de dólar era uma façanha, já que o Japão, totalmente devastado na Segunda Guerra Mundial, jamais cortara zeros da moeda, como fizera, por exemplo, o governo francês com o franco.

Pois bem, eu ali, solitário, vendo os gráficos das moedas mostrando uma agulha espetada para o céu, fui mordido pela ganância.

Segundos antes do fechamento, contrariando minha tese de que jamais se deve “shortear” o mercado só porque fez novo high, liguei para o meu corretor em Chicago, Alvaro Ancede, e mandei vender a descoberto, para mim e para as carteiras que administrava discricionariamente, lotes grandes das quatro moedas: DM (marco alemão), SF (franco suíço), BP (libra) e JY (iene).

Recebido os fills (confirmação de ordens executadas, com os devidos preços), tratei de desligar o computador e ir para casa. Teria de enfrentar o tráfego infernal das pessoas que iam para as praias (eu morava numa delas) assistir às festas de fogos de artifício e de Iemanjá.

Minha estratégia era simples: após o feriadão (Ano Novo, sábado e domingo) se as moedas abrissem em alta na IMM na segunda, dia 4, eu zerava tudo. Fazia um stop. Caso contrário, e aqueles agulhões estavam me fascinando, se o mercado desse início a uma baixa, eu surfaria a onda. Tendo começado do topo.

Não diria que foram três dias de aflição. Afinal de contas, em 1988 eu iria completar meus primeiros 30 anos de mercado e já estava curtido em tudo que de ruim pode acontecer a um trader. Mas foram dias de torcida. Torcida essa que durou até o início da noite de domingo, dia 3.

Pelas aberturas na Austrália, Nova Zelândia, Japão e Hong Kong (não existia mercado na China) percebi que estava safo. E mais safo fiquei quando o dólar levou uma surra nos mercados europeus. Quando a IMM abriu pela manhã, os gráficos mostravam nitidamente minhas agulhas, agora obscenas (para os touros, é claro), transformadas em ilhas de reversão.

Parodiando Gonçalves Dias, em I – Juca Pirama: “Meninos, eu vi!”

Meninos, eu vi o marco alemão cair 7,05 por cento, o franco suíço, 7,60 por cento, a libra esterlina, 6,45 por cento, e o iene japonês, 5,75 por cento nos primeiros dias de 1988. Isso tudo, short.

Ganhei uma nota preta. Meus clientes, também. Enquanto isso, aqueles que não me davam autonomia, reclamavam:

“Pô, Ivan, se você estava tão convicto, devia ter vendido pra mim também.”

Em meus agora 60 anos de mercado, volto a recorrer a Gonçalves Dias para dizer “lidei cruas guerras”. Mas essa batalha eu venci.

Vou levar para a cova a lembrança de uma noite de réveillon na qual, talvez por solidão, talvez por tédio, talvez por ter me deixado encantar por aqueles agulhões no gráfico, talvez por pura irresponsabilidade, entre todos os tradersdo mundo, quem sabe eu tenha sido aquele que vendeu o dólar mais caro. Foi numa noite de réveillon. Já lá se vão outras três décadas.

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Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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Conheça o responsável por esta edição:

Ivan Sant'Anna

Trader e Escritor

Uma das maiores referências do mercado financeiro brasileiro, tendo participado de seu desenvolvimento desde 1958. Atuou como trader no mercado financeiro por 37 anos antes de se tornar autor de livros best-sellers como “Os Mercadores da Noite” e “1929 - Quebra da Bolsa de Nova York”. Nas newsletters “Os Mercadores da Noite” e “Warm Up Inversa”, Ivan dá sugestões investimentos, conta histórias fascinantes e segredos de como realmente funciona o mercado.

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