Mercadores da Noite #75 - O Intrigante Universo das Commodities

Ivan Sant'Anna Publicado em 20/08/2018
7 min
Cambalachos, superstições e e especuletas

Mercadores da Noite

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Caro leitor,    

Outro dia, relendo um dos meus Relatórios FNJ,que escrevia no final da década de 1980 e início dos anos 1990, me deparei com um artigo, desses de minha autoria, bem ilustrativo de como funciona o mercado de commodities, que não raro se pauta por fundamentos (para não dizer cambalachos) dos mais estranhos.    

Como esses acontecimentos afetam os mercados, eles têm de ser levados em conta pelos especuladores. Para os analistas técnicos, não fazem muita diferença, pois os gráficos embutem tudo, inclusive as superstições e ladroagens.    

O texto abaixo foi escrito por mim em 29 de julho de 1988. Atualizei apenas a ortografia para a atual.   

“Um grupo de especuladores internacionais que vive sonhando com uma ‘puxada’ na prata (semelhante à de 1980, quando levaram a onça troy a US$ 50,00) está sempre procurando uma razão para a alta do metal. A mais curiosa delas é uma simpatia da prata pela soja.  

O contrato de prata na COMEX em Nova York é de 5.000 onças. O de soja, na CBoT em Chicago, é de 5.000 bushels (medida de volume equivalente a 35,2 litros). Os preços também são semelhantes. Hoje, por exemplo, na COMEX, a prata fechou a US$ 6,855 a onça enquanto a soja foi cotada a US$ 7,875 por bushel na CBoT.

Se tanto a prata como a soja subissem, por exemplo, de US$ 7,00 para US$ 10,00, o lucro por contrato seria o mesmo, ou seja, de 15 mil dólares. 

Vale salientar que esse tipo de comportamento não é exclusivo das commodities. Acontece também nas bolsas de valores, inclusive a brasileira. Digamos que tanto a Cia. Vale do Rio Doce quanto a Petrobras estejam cotadas a CZ$ (cruzados) 600,00. Aí a Petrobras descobre uma nova e riquíssima bacia petrolífera. O preço de suas ações sobe 50%, para CZ$ 900,00.

Resultado: os traders saem comprando Vale porque ficou barata em relação à Petrobras. É exatamente o que ocorre, de tempos em tempos, com relação à soja e à prata.


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No primeiro semestre de 1987, só porque a soja subiu de US$ 4,84 o bushel para US$ 6,20, os especuladores ‘puxaram’ a prata de US$ 5,50 para US$ 11,20 a onça, uma alta de 103% que durou apenas alguns dias, com o metal despencando para US$ 7,20.

Em consequência dessas jogadas artificiais, cada vez menos o mercado está acreditando na manipulação da prata.

O primeiro argumento dessa última ‘puxada’ foi que a seca no Meio-Oeste americano levaria a soja para um nível superior a US$ 10,00 e que a prata teria de ir junto.  

Veio a chuva, a soja sofreu um colapso e como os traders de prata precisavam liquidar, nos highs, suas posições compradas, a alegação passou a ser a de que a prata estava barata em relação ao ouro, à platina, ao cobre, ao alumínio e a outros metais. 

Finalmente veio a ‘puxada’ final. Anunciou-se que o presidente Alan García, do Peru, deixaria de cumprir contratos de entregas de prata por motivos de força maior (force majeure), previstos no comércio internacional.

Isso foi avisado para diversas brokerage houses no dia 21.07.88, como uma inside information. Nessa data, a prata abriu a US$ 7,80.Mais ou menos ao meio-dia, hora de Nova York, anunciou-se ‘sigilosamente’ que o Peru iria suspender suas exportações de prata.  

O mercado subiu para US$ 8,16, ficou lá em cima não mais do que alguns segundos e caiu para US$ 7,70, fechando a US$ 6,855, uma substancial perda de 15,99% para quem comprou no high do dia 21.  

O mais interessante é que no dia 27.07.88 o Peru realmente declarou force majeure para não cumprir contratos de entrega estabelecidos em contratos. Só que aí os especuladores já tinham pulado fora do mercado.  

A prata é muito frágil porque o Peru e o México são responsáveis por 40% da produção mundial. Tal como o Brasil e outros países do Terceiro Mundo, eles precisam desesperadamente de divisas. Além disso, o custo médio de produção desses dois países é de US$ 4,00 por onça de prata. 

É bem possível que o próprio presidente Alan García tenha participado de toda essa jogada especulativa.”  

Complementando meu texto de 1988, gostaria de acrescentar um comentário...   

O mercado internacional de petróleo é um dos mais afetados por boatos plantados, inside tradings, puxadas, derrubadas, manipulações, etc., etc.

Quando um dos integrantes da OPEP – e mesmo outros produtores de óleo cru e gás não membros da organização, como a Rússia – decide trapacear em suas cotas, produzindo além do combinado, ele se antecipa à “esperteza”, abrindo posições short nos mercados de petróleo WTI, negociado na Nymex, e Brent, em Londres.

Foi o que aconteceu no final de julho de 1990, quando iraquianos ligados a Saddam Hussein compraram petróleo futuro na Nymex e na City londrina, antes de invadirem o Kuwait. Esse fato está narrado nas páginas 314 e 315 de meu livro Os Mercadores da Noite, edição da Inversa.  

Naquela ocasião, o preço do petróleo subiu de 18 dólares o barril para 46 dólares nos momentos que precederam o primeiro dia da Guerra do Golfo.

Segundo se supõe, Saddam Hussein, apesar de ter perdido no campo de batalha, se deu bem nos floors de Nova York e Londres.

A dinheirama não lhe valeu de nada em 30 de dezembro de 2006, quando foi enforcado por crimes muito maiores do que suas especuletas no mercado.   

Você gostou desta newsletter? Então me escreva contando a sua opinião no isantanna@inversapub.com.     

Um abraço,

Ivan Sant'Anna    

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