Mercadores da Noite #70 - Small Cap, Big Cap

Ivan Sant'Anna Publicado em 16/07/2018
7 min
Pode isso, Arnaldo?

Mercadores da Noite

Nota do Editor: No burburinho da final da Copa, a declaração de um personagem do futebol mundial e que tem tudo a ver com investimentos quase passou despercebida... Mas não pelo Ivan, que conta os detalhes abaixo como observador privilegiado dessa história e de todos os movimentos relevantes do mercado nos últimos 60 anos. Boa leitura! Um abraço, André Zara.

 

Caro leitor,

Meados dos anos 1980. Nove horas da noite. Caía uma garoa fina sobre o estádio Ítalo del Cima, do Campo Grande Atlético Clube, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Em poucos minutos, duas equipes, o time local e o Fluminense, entrariam em campo para dar início a uma partida válida pelo Campeonato Carioca.

Como de praxe, o trio de arbitragem surgiu primeiro. Naquela época não havia, como hoje, distinção nas carreiras profissionais de juízes e bandeirinhas. Determinado árbitro podia ser juiz num jogo e bandeira na partida seguinte.

Geralmente havia um sorteio entre os integrantes do trio pouco antes da partida. Na presença do delegado da Federação, três bolinhas no saco e um deles era sorteado para árbitro principal. Aos outros dois restava auxiliá-lo nas bandeiras.

Embora já tivesse apitado uma final de Copa do Mundo (Itália 3 x 1 Alemanha, em 1982), coube a Arnaldo Cezar Coelho ser auxiliar.

Como não perdia um jogo sequer do Fluminense, eu estava lá, de pé, na primeira fila das arquibancadas, junto ao alambrado e à rede do gol. Naquele instante, minha torcida era para que o Tricolor atacasse para aquele lado. Caso contrário, teria de sair correndo para o gol oposto, pois gostava de ver de pertinho os ataques do Flu.

Arnaldo Cezar Coelho veio examinar as redes do gol em que eu estava. Aquela rotina de sempre: conferir se não havia furos; se elas estavam bem fixadas no gramado, de modo que a bola, no caso de um gol, não passasse por baixo e saísse, o que sempre dava margens a dúvidas.

Quando me viu, Arnaldo veio até o espaço entre a rede e o alambrado falar comigo. Primeiro tentei disfarçar, olhando para as nuvens. Mas ele me chamou pelo nome e não tive outro remédio senão responder. Procurei encurtar a conversa o máximo possível, pois sabia que intimidade com juiz (ou bandeirinha) era a maior fria.

No sorteio dos campos, dei sorte. O Fluminense começou atacando para o meu lado e não precisei me deslocar para a baliza oposta, deixando para fazer isso no intervalo.

Transcorridos dez ou quinze minutos de partida, o Fluminense fez um gol. Fez mas não valeu. Bandeira erguida, Arnaldo assinalara impedimento.


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Ainda bem que na noite fria e chuvosa, a torcida tricolor era pequena. Mas os poucos que estavam lá, perto de mim, me cercaram.

“Filho da puta, amigo do bandeirinha” foi o mínimo que me disseram, fora alguns empurrões que quase me jogaram no chão.

Tive de exercer todo meu poder de persuasão para convencer os mais exaltados que o Arnaldo era apenas um conhecido e que, por sinal, eu também o achava um ladrão sem-vergonha.

Conheci Arnaldo Cezar Coelho no início do segundo semestre de 1970 e nos tornamos amigos desde então. 

Foi um dos profissionais mais competentes que já vi, tanto como juiz de futebol, operador de clientes no banco Multiplic, mais tarde como sócio majoritário da corretora Liquidez, como empresário do ramo das telecomunicações e comentarista de arbitragens, polivalência que ele soube administrar como poucos.

Volta e meia vou ao apartamento dele, em reuniões de amigos. E sempre a conversa do “quase linchamento” no Ítalo del Cima vem à tona. Todo mundo me sacaneia, rindo. Isso porque não estavam lá na hora do sufoco.

Quando começou a trabalhar no Multiplic, Arnaldo já era juiz de futebol. Se, por exemplo, tinha de apitar um jogo em Recife, pelo Campeonato Brasileiro, aproveitava o dia seguinte para visitar investidores e bancos locais.

Quem é que não gosta de conversar com o juiz da partida da véspera? Saber daqueles detalhezinhos do jogo? Assim, Arnaldo Cezar Coelho ia captando clientes por todo o Brasil.

Anos depois, quando fundou a Liquidez, Arnaldo fez dela a maior sociedade corretora do Brasil em volume de negócios. A essa altura, ele abandonara o apito e a bandeira e se tornara comentarista de futebol da Rede Globo. Como se não bastasse, fundou, em sociedade com o megaempresário Roberto Marinho, na base do fifty/fifty, a TV Rio Sul, que cobre toda a região Sul Fluminense e o Vale do Paraíba no Estado do Rio. Fez isso justamente quando um polo industrial foi implantado naquela área.


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A rotina semanal de Arnaldo Cezar Coelho era de fazer qualquer workaholic morrer de inveja. Sua única folga semanal era no sábado, quando ele e sua mulher, Graça, passavam o dia na casa de praia do casal.

No domingo, ele já tinha de estar nos estúdios da Globo no Rio de Janeiro ou em São Paulo, ou em algum estádio do país, comentando arbitragens dos grandes clássicos.

As segundas-feiras eram destinadas à Liquidez, fosse na matriz carioca ou na filial paulistana. Quarta-feira à noite, logo após a Novela das Nove, ele surgia na telinha, falando de algum lugar do Brasil ou da América do Sul (Libertadores da América) comentando um dos jogos.

Quinta e sexta-feira, Arnaldo passava em Resende, cuidando da emissora de TV, indo na sexta à noite para a casa de praia, onde tudo recomeçava.

De vez em quando, essa programação era toda alterada, quando havia uma Copa do Mundo ou uma Copa América.

Ao longo dos anos, Arnaldo Cezar Coelho comprou diversos assentos da BM&F. Era sua poupança.

Quando sobreveio a desmutualização e o IPO da Bolsa, Arnaldo vendeu seus assentos. Vendeu também a Liquidez. Com essas descapitalizações, garantiu o futuro da família.

Passou a se dedicar apenas à TV, seja comentando arbitragens na Globo, seja administrando a Rio Sul.

Ontem, após a transmissão de França 4 x 2 Croácia, Arnaldo Cezar Coelho anunciou sua aposentadoria. Vai ficar apenas com a sociedade na TV do Vale do Paraíba fluminense.

Se fosse possível comprar ações de pessoas físicas, e tivesse adquirido algumas cotas do Arnaldo em 1970, quando o conheci, ainda no começo de sua brilhante carreira, eu teria dado a tacada de minha vida.

Nunca houve uma Small Cap como ele.

Só há um detalhe... Arnaldo ainda me deve a saia justa em que me pôs numa noite chuvosa no estadinho do Campo Grande.

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Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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