Mercadores da Noite #64 - Falando de futebol

Ivan Sant'Anna Publicado em 05/06/2018
7 min
Uma relação que começou em 1939

Mercadores da Noite

Nota do editor: Convidamos o Ivan Sant'Anna para fazer uma cobertura especial da Copa do Mundo. Hoje ele faz uma breve introdução sobre o tema e, de agora em diante, ocasionalmente vai escrever newsletters com insights do futebol para seus investimentos. E ele não estará sozinho nessa missão! Em breve você conhecerá o nosso homem em Moscou...
Um abraço, André Zara.


Caro leitor,

Outro dia, durante uma reunião de pauta com a Olivia, ela sugeriu que, nesta época de Copa do Mundo, eu escrevesse algumas crônicas sobre futebol.

A maioria das pessoas que me conhece apenas como escritor e articulista pensa em mim como especialista em mercado financeiro, com o qual estou envolvido há exatamente 60 anos, e em desastres aéreos. Sim, porque sempre que cai um avião eu apareço nos telejornais.

Além de ser piloto desde 1958, quando tirei meu brevê no aeroclube do Carlos Prates, em Belo Horizonte, escrevi quatro livros sobre acidentes de aviação: “Caixa-preta”, “Plano de ataque”, “Perda Total” e “Voo cego”.

Acontece que minha relação com o futebol é bem mais antiga. Começou em setembro de 1939.

Mas como, se nasci em maio de 1940? Acontece que, enquanto me gestava, minha mãe foi a muitos jogos do Fluminense, sendo que num deles quebrou um guarda-chuva na cabeça de um torcedor do Botafogo. Um dos meus tios maternos, Carlos (o Secura), além de médico, era goleiro dos aspirantes do Flu, até morrer de tuberculose.

Outro tio, Luiz, foi diretor de futebol do tricolor. Minha avó e meu avô eram tricolores.

Lembro da decisão de 1946, quando meu pai me levou ao campo do Vasco, em São Januário, onde fomos campeões cariocas vencendo o Botafogo por 1 a 0, gol de Ademir. Infelizmente, não pudemos entrar no estádio porque não cabia mais ninguém.

Quando meu irmão, o também escritor Sérgio Sant’Anna, e eu íamos aos treinos nas Laranjeiras, ficávamos ao lado de uma das balizas. O goleiro Castilho, único ídolo (em todos os setores de atividade) que tive na vida, ficava preocupado com a possibilidade da gente levar uma bolada.

“Saiam daí meninos”, ele dizia. “Fiquem atrás da rede. Vocês vão acabar levando uma bolada.”

Com doze, treze anos de idade, víamos todos os jogos. Às nove da manhã, os juvenis; às 13:15, aspirantes; 15:15, profissionais. Como se não bastasse, a gente ia a jogos de outros times.

Por exemplo, enquanto os outros meninos iam à praia, o Sérgio e eu podíamos estar no campo do Olaria, na rua Bariri, assistindo uma partida de juvenis entre as equipes do Olaria e do São Cristóvão.

A paixão pelo Flu dura até hoje e dela tenho algumas histórias para contar:           

Era início dos anos 1960, eu já trabalhava no mercado e morava em Belo Horizonte. Isso não impedia que aos domingos viajasse mais de 900 quilômetros de carro de BH para o Rio (ida e volta) para ver o Flu.

Certa ocasião, o Fluminense ia jogar contra o Canto do Rio, no estádio Caio Martins, em Niterói. Pois bem, peguei minha Berlineta Interlagos, saí de casa em Belô, e parei o carro na praça XV no Centro do Rio. Fui de barco para Niterói e de táxi para o Caio Martins.

Para minha decepção, o jogo foi suspenso, com o placar ainda em 0 a 0, aos 10 minutos do 2º tempo, por causa de briga de torcidas. Fiz todo o percurso de volta e cheguei a Belo Horizonte por volta da meia-noite.

Na manhã seguinte, segunda-feira, comprei o Jornal dos Sports e vi que os 35 minutos finais seriam disputados em São Januário naquela tarde.

“Claro que não vou ao Rio para ver pouco mais de meia hora de futebol”, pensei enquanto guiava o Interlagos para o aeroporto da Pampulha. “A não ser que consiga uma carona com algum piloto de avião executivo que esteja indo pro Santos Dumont. Ligo para o escritório, digo que estou gripado e viajo.”

Não achei ninguém. “Poxa, já que estou aqui, vou de ponte aérea.”

Só que todos os voos estavam lotados.

Para encurtar a história, fretei um bimotor Aero Commander da Líder Táxi Aéreo, fui a São Januario ver o final do jogo e o Flu perdeu de 1 a 0.

Anos mais tarde, já morando no Rio, sempre assistia aos jogos do tricolor, fossem onde fossem. Entre 1969 e 1977 não perdi nenhum. Isso incluiu Caracas (dois jogos pela Libertadores em 1971), Montevidéu (amistoso contra o Nacional), Sarajevo, na antiga Iugoslávia (amistoso: 3 a 3, com briga entre os 22 jogadores), Huelva, na Espanha (dois jogos pelo Trofeo Colombino).

Isso sem falar em Belém, Manaus, Maceió, Porto Alegre, Natal, Belo Horizonte e dezenas de idas a São Paulo, além de uma fugida do hospital, onde acabara de ser operado do intestino, para assistir, em Curitiba, Atlético Paranaense 1 x 1 Fluminense, empate esse que nos levou para o quadrangular final, no qual fomos campeões da Taça de Prata.

Quase dois anos mais tarde, no domingo 26 de agosto de 1973, o Flu estreou no campeonato brasileiro em Teresina, enfrentando o Tiradentes local, na inauguração do estádio Alberto Silva, o Albertão.

Minha logística era simples. Saída do Santos Dumont às oito da manhã, num Electra da Varig, escala em Brasília e chegada em Teresina ao meio-dia. O jogo era às quatro.

Nove horas, nada. Dez, nada. Onze, nada. Ao meio-dia, eu já me preparava para voltar para casa em Ipanema, quando o alto-falante anunciou o voo.

Após o pouso em Brasília, cheguei a Teresina exatamente às 16 horas. Consegui que um táxi me levasse para o estádio pela contramão da avenida e que um motociclista da PM local nos escoltasse.

“Sem minha presença, o jogo não começa”, eu disse ao guarda.

Já no estádio, sentei no banco de reservas. Por causa das solenidades de inauguração, o jogo atrasou.

Finalmente, com os dois times alinhados em campo, o juiz pernambucano Sebastião Rufino se preparava para dar a saída quando os tapumes provisórios (o Albertão estava superlotado) caíram e os torcedores despencaram arquibancada abaixo. Seis deles morreram e centenas ficaram feridos.

Junto com Brunel, zagueiro uruguaio do tricolor, carreguei muita gente para o vestiário para receber os primeiros socorros.

Eu poderia escrever umas 100 páginas contando histórias, como a da noite em que tomei um porre em Caracas com o João Saldanha e com Henri Charrièrre, o Papillon (quem desconhece, dê uma olhada no Google). Ou dos longos papos com o Nelson Rodrigues (ele me chamava de “meu bravo”), nas tribunas do Maracanã.

Mas acho que já deu para fazer minha introdução como amante do futebol.

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Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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