Mercadores da Noite #62 - Fora da Zona de Conforto

Ivan Sant'Anna Publicado em 21/05/2018
7 min
Tudo indicava novas máximas do Ibovespa

Mercadores da Noite

Caro leitor,

Até semanas atrás, os mercados brasileiros trabalhavam em zona de conforto. As ações ameaçavam encostar nas máximas do ano, com o Ibovespa se aproximando do nível de 87.600 pontos. Depois caíam até as adjacências de 82.000 pontos, nunca rompendo esse suporte.       

Esse padrão regular de sobe e desce permitia que os traders comprassem nos lows do trading range e vendessem nos highs. Mesmo quem investe em ações para ficar com elas em carteira não teve maiores sobressaltos. Tudo indicava que em determinado momento o Ibovespa faria novas máximas e decolasse para a ionosfera. 

No câmbio, o dólar ficou um tempão cotado entre R$ 3,20 e R$ 3,30.

As taxas de juros se mantinham em padrão regular, com comportadas reduções de 0,25 por cento ao ano a cada reunião do Copom. A aposta da maioria dos analistas era de que a taxa descesse mais um degrau na reunião de 16 de maio e estacionasse em 6,25 por cento. Como a economia não está se recuperando no ritmo esperado, houve até gente prognosticando mais um corte. Nesse caso, o piso ficaria em 6 por cento por longo tempo, antes de voltar a subir. Isso tudo aparecia no relatório Focus publicado todas as segundas-feiras pelo Banco Central.

Só que os fatos não obedeceram aos profetas.

Tudo começou quando, pela primeira vez desde 2009, a rentabilidade dos títulos do Tesouro americano ultrapassou a inflação daquele país. Coisa pouca, mas ultrapassou.


Com isso, o dólar cotado em reais saiu de sua zona de conforto e começou a subir: R$ 3,35, R$ 3,40, R$ 3,45, R$ 3,50...


Temendo que a alta do dólar trouxesse de volta ao Brasil o fantasma da inflação, o Copom manteve inalterada em 6,50 por cento a taxa Selic, isso após o presidente do BC, Ilan Goldfajn, ter garantido, uma semana antes, que haveria a tal redução para 6,25 por cento.

Convenhamos que, em termos de política monetária, 6,50 por cento ou 6,25 por cento não fazem muita diferença. Mas o fato de que o chairman disse uma coisa e seu colegiado, por unanimidade (incluindo, é claro, o voto de Goldfajn), optou por outra, sinalizou ao mercado que a autoridade monetária está com medo de que a alta do dólar contamine a inflação.


Resultado: a bolsa de valores despencou. Ao mesmo tempo, o dólar continuou subindo. Na última sexta-feira, 18 de maio, chegou a ser cotado a R$ 3,77.


Como se essas mudanças nos rumos e nos ritmos dos ativos não bastassem, a cada dia que passa as eleições se aproximam. Faltam agora apenas 139 para a realização do primeiro turno. E não há nenhum indicativo de quais serão os dois candidatos que chegarão ao segundo turno (Jair Bolsonaro parece ser o que tem mais chance de ir para a etapa final), muito menos qual deles será o novo presidente da República.

 

Se tudo isso é complicado para quem gosta de investimentos “papai e mamãe”, é pura festa para os especuladores, para os investidores e traders mais tarimbados, para os melhores gestores de fundos e para os iniciantes que seguem os experientes.


Fora da zona de conforto é que surgem as grandes oportunidades. Mas é melhor examinar caso a caso, mercado por mercado.


Ações – Se os preços caíram muito e ficaram baratos, muito mais baratos eles estão quando cotados em dólares. E se a empresa é uma exportadora, que paga suas despesas em reais e faz suas vendas em dólares, seus papéis simplesmente estão ficando de graça.


Bottom picker ou bargain hunter são os nomes que os americanos dão aos traders que conseguem detectar o fundo do poço nas bolsas de valores.


Fique de olho, caro amigo leitor, a sua hora pode estar chegando. Surfe no pessimismo dos outros. Daqui a pouco vai ter gente jogando notas de cem dólares pela janela.

   
Câmbio – Sinceramente, acho que o dólar ainda está barato. Não vejo nenhum empecilho para que ele ultrapasse a barreira dos R$ 4,00, R$ 4,50, R$ 5,00 e lá vai fumaça. Claro que o Banco Central não vai deixar as coisas fáceis para você. Talvez aumente os números de swaps ou mesmo de vendas diretas. Pode ser que o Copom, num dia qualquer, mesmo que não seja uma data de reunião programada no calendário da instituição, eleve os juros em um, dois ou até mesmo três por cento. Já vi esse filme antes, tanto no Brasil quanto no exterior. Na Argentina, aconteceu na semana passada.


Numa maxi intervenção no câmbio, ou numa superelevação dos juros, pode surgir a oportunidade de uma barganha nos dólares também.
Se você é um investidor daqueles destemidos, aproveite uma dessas oportunidades e compre contratos de dólar futuro na Bolsa. Se é conservador e quer limitar suas perdas, compre calls strike R$ 4,20 (por exemplo) com vencimento pouco antes do primeiro turno das eleições.

Mas vamos supor que o segundo turno seja vencido por um candidato disposto a fazer um ajuste fiscal sério e a brigar no Congresso por uma PEC reformando a Previdência (reforma para valer, não de mentirinha). Se você adquirir puts strike,por exemplo, R$ 3,40, com vencimento logo após o resultado final das eleições, eles também podem dar exercício.
Já imaginou ganhar na alta e na baixa do dólar num período de apenas seis meses?

Taxas de juro − Em novembro de 1997, no final do primeiro mandato FHC, época em que diversos ataques especulativos começaram a derrubar moedas ao redor do mundo, a inflação brasileira anualizada era de 5,27 por cento. Isso não impediu que o nosso BC, para defender o real, elevasse a taxa básica de juros para 45,84 por cento. Isso mesmo, 45,84 por cento numa inflação de 5,27 por cento.

Os bancos centrais em geral, e o BC brasileiro em particular, sabem dar trancos no mercado quando os trancos são necessários. 

Neste ano de eleição, de abertura de taxas nos Estados Unidos, pode haver uma grande oportunidade de se lucrar de verdade. 


Épocas de grande volatilidade e de não menor incerteza são as melhores para se ganhar dinheiro nos mercados. Ser touro quando todo mundo é urso e vice-versa. Muito cá entre nós, os mercados estavam muito fáceis (e até chatos). A bolsa operava em trading range, o dólar não saia do lugar e a taxa Selic caía 0,25 por cento a cada rodada do Selic.

Essa zona de conforto tinha de chegar ao fim. Sempre chega.

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Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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