Mercadores da Noite #61 - O porrete porra-louca de Trump

16 de maio de 2018
Trump e Kim Jong-un

Mercadores da Noite

Caro leitor,

Na primeira semana de abril de 1962, o presidente da República do Brasil, João (Jango) Goulart, fez uma visita oficial aos Estados Unidos durante o governo John Kennedy.
        
Numa demonstração de apreço, Kennedy foi pessoalmente à base aérea de Andrews, em Washington D. C., receber Jango. De lá, os dois chefes de Estado seguiram no mesmo helicóptero até a Blair House, casa oficial de hóspedes do governo americano. 
      
João Goulart e John Kennedy tinham algumas coisas em comum. Ambos se chamavam João. Ambos tinham 44 anos de idade. Ambos eram casados com mulheres bonitas. Ambos tinham problemas físicos: Jango mancava de uma perna, mais curta do que a outra; Kennedy padecia de fortes dores na coluna, resultado de um ato de bravura durante a 2ª Guerra, após a explosão de sua lancha contratorpedeira. 

Tanto aqui como nos Estados Unidos, João Goulart era suspeito de querer “cubanizar” (Fidel Castro assumira o poder revolucionário em Havana em 1º de janeiro de 1959) o Brasil. Como que querendo provar que tal conceito era falso, Jango escolheu sua comitiva a dedo.  
      
Menos insuspeitos, impossível, a começar pelo embaixador brasileiro em Washington, Roberto Campos. Junto com Goulart estavam também seu ministro da Fazenda, o banqueiro Walter Moreira Salles, e o chanceler San Tiago Dantas, reconhecidamente anticomunistas.
        
No dia seguinte ao da chegada, Roberto Campos foi testemunha da conversa entre Kennedy e Jango no Salão Oval da Casa Branca. “Pretendo adotar para o Brasil uma política externa independente”, disse Goulart para Kennedy. 
          

A resposta foi um misto de sinceridade e ironia.
        
“Eu o invejo, presidente. Toda vez que preciso deliberar algo importante em política externa, tenho de consultar os governos da Grã-Bretanha, da França e até da União Soviética. Sim, da União Soviética. Dependendo do assunto, o próprio secretário-geral Nikita Khrushchev tem de ser ouvido.”
       
Nem sempre os Estados Unidos tinham agido com tanta elegância e diplomacia. Durante o governo Theodore Roosevelt (1901 a 1909), a política era do Big Stick(porrete comprido, numa tradução livre).
        
Bastava um país, principalmente se fosse da América Central ou do Caribe, ou mesmo a Venezuela, contrariar os interesses americanos, e Roosevelt (não confundir com Franklin Delano Roosevelt) mandava os fuzileiros resolverem o problema.
     
O governante da nação “insubordinada” era deposto e substituído por um títere dos americanos.
     
A multinacional United Fruit, por exemplo, mandava e desmandava no amplo quintal dos Estados Unidos. Daí a expressão “República de Bananas”, ou “Banana Republic” no original.
     
Agora, Donald Trump está revivendo essa política. Só que seu stick (sem conotações maliciosas) é giratório. Nunca se sabe qual cabeça ele quer atingir.

A decisão de Trump de romper o acordo nuclear com o Irã está causando revolta entre os demais países signatários do tratado: Reino Unido, Rússia, China e União Europeia. Sem contar o fato de que Trump desdenhou dos estadistas que foram a Washington pedir para que ele desconsiderasse a medida unilateral contra a nação persa. Entre eles o presidente francês, Emmanuel Macron, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o secretário de Estado britânico para assuntos estrangeiros, Boris Johnson.
    
O próximo passo de Trump é se encontrar com o tiranete travesso e imberbe da Coreia do Norte, Kim Jong-un. A reunião está marcada para Cingapura em 12 de junho.
     
Em minha opinião, o único interesse de Donald Trump é colher publicidade. De sua parte, Jong-un prometeu destruir suas instalações de testes nucleares. Pudera! Ele não precisa mais delas, uma vez que já conseguiu fabricar, testar e armazenar seus mísseis balísticos e ogivas atômicas.
      
Os Estados Unidos já não testam seus artefatos, assim como não o fazem Rússia, China, Grã-Bretanha, França, Índia, Paquistão e Israel (este, por sinal, nem reconhece a existência de seu programa nuclear).
     
Acho que se o pacto já firmado fosse com a Coreia do Norte, e o Irã é que estivesse testando armas nucleares, seria contra a Coreia que Donald Trump romperia. Ele só pensa em desmantelar as conquistas de Barack Obama, como o Tratado Transpacífico e o Acordo do Clima de Paris. Suas mensagens via twitter diárias revelam isso.
      
Resta saber o que Kim Jong-un pode estar querendo tirar desse encontro de Cingapura. A não ser que esteja obedecendo a uma ordem do presidente chinês Xi Jinping. É difícil acreditar que Kim vá assinar um compromisso com Trump que já não tenha sido aprovado pelo líder chinês. Os dois países (Coreia do Norte e China) fazem fronteira e os nortes coreanos dependem da China para tudo, inclusive comida e combustíveis.
      
Se quiser agir contra o ditador coreano, Jinping, ao contrário de Donald Trump, não precisa de um big stick. Basta um estilingue.
    
Para o caro trader ou investidor que lê esta coluna, aconselho não tentar antecipar o raciocínio de Trump. Nem mesmo ele sabe o que vai tuitar na manhã seguinte.
       
Não fossem os Estados Unidos a maior superpotência (para não dizer a única) do planeta, eu diria que Donald Trump é uma espécie de Idi Amin Dada dos tempos atuais.
      
Para quem é muito jovem e não viveu a época das bravatas e peripécias de Amin, sugiro que veja o filme O Último Rei da Escócia, com Forest Whitaker interpretando o ditador da miserável Uganda.
    
De sua capital, Kampala, Didi Amin, que se autopromovera a marechal de campo, conseguia ser notícia nos jornais de todo o mundo. Só que seu stick era pequeno, alcançando apenas seu próprio povo, e não alterava o panorama mundial. Só se prestava a chacotas. Até ser totalmente humilhado por Israel na Operação Entebbe. Foi se asilar na Arábia Saudita. 
      
A quem opera o mercado tentando analisar com lógica os acontecimentos, ou mesmo tenta interpretá-lo através de gráficos, lembro que o porrete porra-louca de Trump pode até ir longe. Mas nada impede que vá até a península coreana e, tal como um bumerangue, dê meia-volta, retorne meio-mundo e caia sobre o Salão Oval da Casa Branca, aquele no qual Kennedy dizia que tinha de ouvir os parceiros antes de tomar uma decisão.

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Um abraço,
Ivan Sant'Anna

Conheça o responsável por esta edição:

Ivan Sant'Anna

Trader e Escritor

Uma das maiores referências do mercado financeiro brasileiro, tendo participado de seu desenvolvimento desde 1958. Atuou como trader no mercado financeiro por 37 anos antes de se tornar autor de livros best-sellers como “Os Mercadores da Noite” e “1929 - Quebra da Bolsa de Nova York”. Nas newsletters “Os Mercadores da Noite” e “Warm Up Inversa”, Ivan dá sugestões investimentos, conta histórias fascinantes e segredos de como realmente funciona o mercado.

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