Mercadores da Noite #60 - Coração, apenas uma víscera (atualização)

9 de maio de 2018
Esqueça na hora de tomar uma decisão

Mercadores da Noite

Caro leitor,

Certa vez, numa reunião de amigos em Genebra, na Suíça (encontro esse que se transformou em sarau), o poeta Vinicius de Morais cantava ao violão. Em suas letras, era coração para cá, coração para lá, até que, do fundo da sala, alguém perguntou:

“Vinicius, você não tem outra víscera para cantar?”

O impertinente inquisidor tratava-se de ninguém menos que João Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos e grande amigo de Vinicius de Morais. Ambos eram diplomatas de carreira.

Me apropriando do episódio, gostaria de lembrar ao amigo leitor que o coração nada tem a ver com nossos sentimentos. Trata-se apenas de uma bomba muscular que, em seu expande-encolhe, irriga e oxigena o organismo. Mas, como a gente sempre se refere a ele como gestor das emoções, vou construir o raciocínio desta crônica tomando o partido de Vinicius, embora anatomicamente errado.

Se você é um pequeno ou grande investidor, um broker, um trader profissional ou um gestor de carteiras, esqueça o coração na hora de tomar uma decisão de mercado.

Vamos a fatos que ilustram meu raciocínio:

Michel Temer, alvo de inquérito na Lava-Jato, transformou o palácio do Planalto em um bunker de investigados, indiciados e réus. Temer sempre foi aliado do Eduardo Cunha e do Geddel Vieira Lima, só para exemplificar com dois que estão em cana. 

Mesmo assim, para efeito de mercado, e para avaliação de qualquer observador de bom senso, Temer é mil vezes melhor do que Dilma Rousseff.

Ao contrário de sua antecessora, Michel Temer tentou levar a economia para o lado certo. Não fez a reforma da Previdência porque não tem os votos necessários nas duas casas do Legislativo. Com Meirelles na Fazenda e Goldfajn no Banco Central, o presidente resolveu de modo consistente o problema da inflação.

Portanto, Temer é bom para o mercado. Se você não gosta dele (o que, aliás, é o meu caso e o de quase totalidade dos brasileiros), isso não importa. Tomando esse caso como exemplo, eu diria para você ficar comprado no Temer assim como shorteava a Dilma. Nunca deixe que a víscera o impeça de ganhar dinheiro.

Donald Trump ameaçava varrer da face da Terra a Coreia do Norte e Kim Jong-un respondia dizendo que lançaria um míssil com ogiva nuclear sobre o território americano. Por causa dessas declarações tempestuosas você pode ter deixado de comprar ações, ou vendido as que tinha, com medo de um holocausto nuclear.

Novamente a víscera falhou. Pensemos juntos: se houvesse a mínima possibilidade de uma guerra atômica envolvendo a Coreia do Norte, as bolsas da Coreia do Sul, do Japão e da China não sofreriam apenas um crash. Seriam vítimas de um colapso total, que faria 1929 parecer uma saudável realização de lucros. E eu não estou dizendo isso só agora, após as notícias recentes das duas Coreias. Eu falei isso no ano passado.

Os mísseis norte-coreanos são balísticos e têm tecnologia dos anos 1960. Seriam abatidos em pleno ar. Já o tiranete Jong usa ameaças para ganhar (e ganha) as manchetes mundiais. Não é o primeiro que faz isso. Já tivemos Idi Amim Dada (Uganda), Muammar al-Gaddafi (Líbia) e o iraquiano Saddam Hussein (lembram-se da “Mãe de Todas as Batalhas?”).

Nenhum deles chegou a ter bombas nucleares, é fato, mas são todos exotismos que aparecem de quando em vez para assustar os assustáveis.

Donald Trump não é muito diferente de Jong-un, com a vantagem, para o mundo, que não tem o mesmo poder de decisão do gordinho. O Capitólio não consegue impedi-lo de tuitar asneiras, mas não permite que ele as transforme em lei.

Para Trump, brigar com a Coreia do Norte é a mesma coisa do que polemizar com jogadores de basquete e de futebol americano. Ele não faz a menor ideia da proporcionalidade das coisas.

Como o “Topete Plataforma” só mete medo na população de Nâmbia, o país africano com melhor sistema de saúde do continente, não deixe que ele o influencie muito.

Quando, e se, Donald se tornar perigoso, o Dow Jones, o S&P e o Nikkei vão mostrar. Não é o caso agora de suas vísceras se assustarem com isso.

Pela primeira vez desde o suicídio de Adolf Hitler, em 30 de abril de 1945, o Bundestag (na época de Hitler era Reichstag) tem uma bancada de extrema direita. E não é pouca coisa: obteve 90 cadeiras de um total de 631 na eleição.

Isso é preocupante? É. Uma das metas dos novos nazistas é tirar a Alemanha da União Europeia (UE). Seria a mesma coisa do que suprimir o motor de um carro e esperar que ele ande. Mas não faz o menor sentido pular fora dos mercados acionários por causa disso. Se, e quando, a UE acabar, os sinais surgirão muito antes. E o fato poderá até beneficiar o Brasil no longo prazo.

Guerra na favela da Rocinha. Escolas são fechadas, a estrada Lagoa-Barra fica interrompida durante quatro horas, irrompe uma fuzilaria entre gangues que disputam o tráfico local. Morrem cinco ou seis pessoas.     

Há que se salientar (e a imprensa politicamente correta não tem coragem de fazer isso) que algumas dessas mortes são positivas. Refiro-me a quando um traficante mata outro na luta pelo poder.

Embora péssima para o Rio de Janeiro, a guerra do tráfico carioca, cinicamente argumentando, vai tirar 0,01% do PIB brasileiro deste ano. Sem querer ser repetitivo, não deixe que suas vísceras se assustem com os tiros. Compre ao matraquear deles.
Com estes exemplos, quero salientar que não há razão para temer uma conturbação na ordem política mundial quando tais coisas acontecem.

Para o Brasil, o pior ficou para trás. Apesar da herança maldita deixada no país pelo PT e no Rio pelo Cabral, as coisas podem estar melhorando.

Leilões, venda de ativos estatais, concessões, tudo isso está no mapa. E os opositores a esses avanços, boa parte deles preocupada com problemas na esfera criminal, não estão nas ruas protestando.

“Não há mal pior do que a descrença”, cantou Vinicius.

“Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos”, declamou João Cabral.

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Um abraço,
Ivan Sant'Anna

Conheça o responsável por esta edição:

Ivan Sant'Anna

Trader e Escritor

Uma das maiores referências do mercado financeiro brasileiro, tendo participado de seu desenvolvimento desde 1958. Atuou como trader no mercado financeiro por 37 anos antes de se tornar autor de livros best-sellers como “Os Mercadores da Noite” e “1929 - Quebra da Bolsa de Nova York”. Nas newsletters “Os Mercadores da Noite” e “Warm Up Inversa”, Ivan dá sugestões investimentos, conta histórias fascinantes e segredos de como realmente funciona o mercado.

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