Mercadores da Noite #56 - Castigo de Internato

Ivan Sant'Anna Publicado em 23/04/2018
6 min
Por isso que estou otimista para 2019

Mercadores da Noite

Caro leitor, 

Nos últimos anos da década de 1980 e nos primeiros da de 1990, quando trabalhava numa distribuidora de valores chamada FNJ, eu escrevia mensalmente uma newsletter (Relatório FNJ) sobre economia e mercados, com destaque para as bolsas nacionais e internacionais de futuros, commodities, opções, instrumentos financeiros e outros derivativos.

A cada mês de dezembro, eu publicava um texto especial, maior e muito mais abrangente. Em 1987, por exemplo, escrevi um trabalho sobre hiperinflação. Nesse paper, relatei minuciosamente três episódios clássicos do fenômeno: Alemanha, 1923; Áustria, 1924; e Hungria, 1946, sendo esta última a maior da história, que atingiu a taxa de 150.000% AO DIA, ou um septilhão ao ano. Isso, mesmo, septilhão, um trilhão de trilhões.
   
Minha intenção, ao produzir esse relatório de 1987, era alertar para a possibilidade da inflação brasileira, que atingira 363,41% naquele ano, se transformar em mais um caso de hiperinflação clássica que, segundo o economista Phillip Cagan, acontece quando a alta dos preços ultrapassa 50% ao mês e permanece nesse nível durante pelo menos um ano.  

Esse meu trabalho sobre hiperinflação repercutiu muito, sendo inclusive traduzido para o inglês e publicado em brochura pela Shearson Lehman Brothers.
   
Um ano mais tarde, em dezembro de 1988, escrevi um relatório com prognósticos para as primeiras eleições diretas para presidente do Brasil após o regime militar. O primeiro e o segundo turno ocorreriam respectivamente em 15 de novembro e 17 de dezembro.
  
Nesse trabalho, estimei que os candidatos que tinham chance de se eleger eram Collor, Lula, Brizola e Mário Covas. Acertei na mosca, pois foram justamente esses quatro os mais bem colocados no primeiro turno, disputado por nada menos do que 22 políticos das mais diversas tendências.
  
Entre outras coisas, escrevi que dificilmente Mário Covas chegaria ao segundo turno, mas que, caso isso acontecesse, seria imbatível. De Collor, disse que ele capitalizaria a indignação que a maioria dos eleitores brasileiros sentia pelos direitos e privilégios dos funcionários públicos.
  
Lula bateu Brizola por pequena margem (0,67 ponto percentual) para ir ao segundo turno, no qual perdeu para Collor por uma diferença de 6,06 p.p..
  
Como todo mundo sabe, o “caçador de marajás das Alagoas” renunciou à Presidência em 29 de dezembro de 1992 para não ser impichado pelo Senado.

Após essa primeira eleição direta, só deu PSDB contra PT. FHC x Lula, em 1994; FHC x Lula em 1998; Lula x Serra em 2002; Lula x Alckmin em 2006; Dilma x Serra em 2010; Dilma x Aécio em 2014.

Neste ano de 2018, estimo que nem o PT nem o PSDB estarão no 2º turno. Vou mais além: se estiver enganado, comprometo-me a escrever, à mão, mil vezes a frase “Nunca mais farei prognósticos eleitorais”. Tipo castigo de internato de padres de antigamente.

Antes de mais nada, não acredito em alianças de esquerda, hipótese em que eles bem que poderiam colocar um nome no segundo turno. É bom lembrar que o PSOL sempre denunciou a corrupção nos governos Lula e Dilma e só enfileirou ao lado do PT nos episódios da cassação de Dilma, do julgamento de Temer na Câmara e da prisão de Lula.
 
O PSOL é fanático; o PT, fisiológico. 
  
Dizem que Geraldo Alckmin é o “queridinho do mercado”. Se é, vai deixar de ser assim que os agentes econômicos perceberem que ele não tem chances de ir para o segundo turno. Ainda mais agora que os tucanos estão se assemelhando aos petistas e aos emedebistas nos episódios de corrupção. Não custa lembrar o caso Aécio Neves e que Sérgio Cabral começou sua carreira política no PSDB.

Vamos lá, Ivan (eu gosto de me autoestimular), coragem. Diminua o universo de suas vidências.
  
Pois bem, sem PT e PSDB o segundo turno deverá ser disputado por dois entre os seguintes nomes: Jair Bolsonaro, Marina Silva, Ciro Gomes e Joaquim Barbosa. Alguém precisa avisar a Henrique Meirelles, Michel Temer e Rodrigo Maia que eles não têm a menor chance de disputar a Presidência.

Barbosa ainda não se declara candidato. Mas se filiou ao PSB. Em meu juízo, ele só vai aceitar a candidatura se não lhe impuserem nada: programas de governo, cargos, política econômica, etc. Nada.

Por outro lado, se o nome de Barbosa estiver nas urnas, ele tem tudo para ser um Lula muito mais autêntico. No bom sentido, é claro. Menino pobre, negro, barrado no Itamaraty nas provas orais por racismo. Só que poliglota de cinco línguas que chegou à presidência do Supremo.

Joaquim Barbosa poderá ser o novo presidente do Brasil.

Marina Silva terá de se conscientizar de que não está se candidatando ao governo da Finlândia. E que o meio ambiente não é a prioridade brasileira do momento.

Jair Bolsonaro e Ciro Gomes precisam aprender a ser mais gentis com os eleitores. Até agora, em sua carreira política, Bolsonaro nunca deixou de ser apenas o despachante dos militares de baixa patente na Câmara dos Deputados.
  
Como será uma eleição equilibradíssima, entre os que têm chance, é claro, qualquer bobagem que Gomes diga, e ele é useiro e vezeiro em ofender os interlocutores, vai tirá-lo do páreo.

O importante, e é por isso que estou otimista para 2019, é que qualquer um que seja eleito em outubro, goste ou não, terá de enxugar o governo, privatizar estatais e reformar a Previdência.

Claro que os petistas e os psolistas não fariam isso. Iriam tentar aumentar os impostos e tributar grandes fortunas, por exemplo. Só que eles não estarão no segundo turno.

Quando o mercado se der conta de que o pessoal que governou o Brasil nos últimos dezesseis anos desta vez vai ficar de fora, cenário esse completado por uma conjuntura de inflação e taxas de juros historicamente baixíssimos (para nossos padrões), aliado a um crescimento da economia internacional acompanhado de alta das commodities, o índice Bovespa terá tudo para ultrapassar os 100.000 pontos.

Se eu estiver enganado, vou comprar uma caixa de lápis e meia dúzia de cadernos escolares para iniciar o castigo, quase 65 anos depois da última vez que fiz isso.

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Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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