Mercadores da Noite #55 - Chuva mortal

Ivan Sant'Anna Publicado em 16/04/2018
6 min
Na última sexta-feira, dia 13, após o fechamento dos mercados de São Paulo, Nova York e Chicago...

Mercadores da Noite

Caro leitor, 

Na última sexta-feira, dia 13, após o fechamento dos mercados de São Paulo, Nova York e Chicago, surgiu a notícia de que caças e mísseis americanos, britânicos e franceses atacaram um laboratório e dois depósitos de armas químicas na Síria. O laboratório ficava na capital, Damasco. Os depósitos, a oeste da cidade de Homs.
     
Já eram quatro da manhã de sábado, hora local, quando os alvos foram atingidos. A destruição foi total e o êxito da missão militar, completo.
     
A operação se deu em represália a um ataque sírio ocorrido no dia 7 de abril, oportunidade em que bombardeiros da Força Aérea Síria lançaram armas químicas contra um suposto enclave rebelde em Douma, subúrbio a apenas dez quilômetros do centro de Damasco, deixando dezenas de mortos, inclusive crianças.

Desta vez, para que o número de baixas fosse o menor possível, e não incluísse civis, os sírios foram avisados com pequena antecipação através de terceiros, possivelmente os presidentes Recep Erdogan, da Turquia, e Vladimir Putin, da Rússia, que devem ter repassado a notícia para Damasco. Isso permitiu a evacuação dos locais que seriam bombardeados.
    
Se o ataque aliado da noite de sexta para sábado tivesse ocorrido durante o horário de funcionamento dos mercados, antes da folga de fim de semana, muito provavelmente teria havido pânico. É só imaginar a notícia nos monitores das tradings desks:
     
“Estados Unidos, Grã-Bretanha e França estão bombardeando a Síria.”
      
Nessa hipótese, as bolsas de valores de Nova York e de São Paulo teriam levado um tombo, assim como o mercado futuro de S&P 500, negociado em Chicago. Já a cotação do mercado futuro de petróleo dispararia na Nymex.
     
Ninguém quer passar um fim de semana de conflito no Oriente Médio short em petróleo.
      
Durante o sábado e o domingo, investidores, traders profissionais e hedgerstiveram tempo suficiente para digerir a notícia e se acalmar. Mas não devem, de modo algum, descartar algum tipo de retaliação por parte da Rússia.

Acho importante fazer aqui um breve histórico do uso de armas químicas para que, na próxima vez que uma delas for usada (e isso inevitavelmente vai acontecer), o caro leitor possa interpretar melhor e mais rapidamente a notícia.
      
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), tanto os alemães como seus adversários franceses e britânicos, mais tarde reforçados por americanos, fizeram largo uso de gases letais na guerra de trincheiras, embora não os tivessem lançado sobre populações civis.
      
O próprio Adolf Hitler, então cabo estafeta do exército alemão, ficou temporariamente cego ao ser atingido por gás de mostarda.
      
Mais tarde, por ocasião do Protocolo de Genebra, assinado em 17 de junho de 1925, o uso de armas químicas e bacteriológicas foi totalmente proibido. Isso não impediu que, 14 anos depois, no primeiro semestre de 1939, na iminência de um novo conflito de grandes proporções, máscaras antigases fossem distribuídas para as populações dos principais centros urbanos dos países europeus.
      
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as armas químicas não foram usadas pelos combatentes. Ao menos da maneira que se temia, nos ataques aéreos e nos combates em terra.
     
O mesmo não aconteceu com os prisioneiros dos nazistas. No campo de concentração de Auschwitz, no sul da Polônia, por exemplo, estima-se que 1,1 milhão de pessoas, sendo 900 mil delas judias, tenham morrido sufocadas pelo gás Zyklon B nas câmaras de extermínio.
    
Se considerarmos napalm uma arma química, e não vejo por que não o fazer, já que se trata apenas de uma questão de semântica, na noite de 9 para 10 de março de 1945, 334 superfortalezas voadoras B29 da Força Aérea dos Estados Unidos lançaram sobre Tóquio milhares de bombas incendiárias. Cem mil pessoas foram queimadas vivas, no maior bombardeio da história.

O calor foi tanto que as águas do rio Sumida, que atravessa a capital japonesa, ferveram.
    
Uma das imagens mais chocantes da guerra do Vietnã (1955-1975) – e que inclusive contribuiu para o fim do conflito − é a de uma menina nua, Phan Thi Kim Phúc, com o corpo queimado, chorando e correndo em meio a uma estrada após ter sido atingida por napalm, lançado por um bombardeiro americano.      

Os civis não fizeram por menos. No dia 20 de março de 1995, dez terroristas do grupo japonês Aum Shinrikyo lançaram o gás de nervos sarin, inodoro e invisível, no metrô de Tóquio, matando 12 pessoas e intoxicando outras 1.050.
    
Condenados à morte, os assassinos usam de recursos protelatórios para adiar a execução da sentença. Passado quase um quarto de século, permanecem no corredor da morte de uma prisão japonesa de segurança máxima.
        
O ditador iraquiano Saddam Hussein usou gás de mostarda e gás sarin contra insurgentes curdos e xiitas matando milhares de pessoas.
      
Apesar de serem potências nucleares, Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China mantém arsenais de armas químicas.
     
Antes do ataque da madrugada de sábado passado, o ditador sírio Bashar al-Assad já tinha usado armas químicas contra seus inimigos diversas vezes, matando centenas de civis inocentes, inclusive mulheres e crianças.
       
Mais tarde, pressionado pela comunidade internacional, Assad assinou um compromisso de entregar seu arsenal químico para a Rússia, promessa que, agora se percebe, não cumpriu. Embora eu acredite que a reação do mercado nesta segunda-feira (16) seja amenizada pelo transcorrer do fim de semana, é bom sempre ficar de olho no que acontece no Oriente Médio, a região mais imprevisível do planeta.
          
Nos últimos anos, o grupo terrorista Estado Islâmico, o mais do que temido ISIS, tem se valido de atentados por atropelamento de pessoas para seus ataques. Mas sempre é bom acreditar na possibilidade de que o pior aconteça.
       
Armas químicas são de baixo custo e relativamente fáceis de fabricar. Nas mãos das pessoas e dos países errados, causam enorme destruição.
        
Em certas regiões do mundo, a morte pode a qualquer momento cair do céu ou, prosaica e sinistramente, chegar pela torneira da pia.

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Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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